Aí a imprensa fica ouriçada com o anúncio, pelo governo federal, de mais um plano para a segurança pública e quer minha opinião. Não tem plano algum, somente um amontado de lugares comuns enfeitado com supostas verbas, mas lá vou eu dar entrevista.
É difícil não usar linguagem capacitista sobre as propostas e, sinceramente, achei uma ofensa à inteligência alheia. Eu, ao menos, me senti insultado. Por exemplo, não tem nada mais batido que a tese da asfixia econômica das facções criminosas, mas isso não passa de um sonho irrealizável.
Começa que a despesa para recuperar dinheiro do crime costuma ultrapassar o valor encontrado. É como tentar ganhar uma guerra com bombas que custam mais caro do que as coisas que elas conseguem destruir no inimigo.
Depois, temos que lembrar que somente o patrimônio acumulado pelos criminosos precisa ser lavado. O que eles gastam em farras, comprando drogas e armas ou pagam aos seus subordinados, advogados, contadores etc. dispensa esse cuidado.
E, mais importante que tudo, as facções não inventaram a lavagem de dinheiro, apenas utilizaram os mecanismos da Faria Lima que sempre estiveram à disposição e foram criados para servir a políticos corruptos, empresários trambiqueiros etc.
Em outras palavras, não há modo de combater as facções criminosas por esse meio sem pegar também dinheiro de propina, de sonegação, de fraude ao sistema financeiro etc. Mesmo a inteligência artificial não entende essa história de “pega o traficante, mas não mexe com o ministro, não incomoda o Vorcaro.”
A ideia de apressar os leilões de bens apreendidos é óbvia e luta contra a demora do Judiciário. De qualquer maneira, é patrimônio que já não estava na mão das organizações criminosas e, portanto, não implicaria nenhum golpe adicional. Diminuiria a sobrecarga dos depósitos da polícia, entrariam uns trocados a mais e ponto final.
Como o plano é idiota, mas meio longo, fico por aqui. Semana que vem vai ter um pouco de elogio e muita crítica às propostas referentes ao sistema carcerário.