É mais do que comum ouvir as pessoas dizendo que o mundo de hoje não é seguro como antigamente, que não se pode deixar os filhos irem sozinhos a lugar algum, que é muito perigoso sair à noite etc.
Os fatos, contudo, desmentem isso completamente. Quem quiser se aprofundar no assunto pode comprar “Os anjos bons da nossa natureza: porque a violência diminuiu”, de Steven Pinker, mas já adianto que é um livro enorme e de leitura arrastada. Então vamos facilitar.
Arqueólogos estão sempre escavando sepulturas antigas e são capazes, pelos ossos, de determinar a idade provável daquele ser humano e, em alguns casos, os alimentos a que tinha acesso, seu DNA mitocondrial e causa da morte. Bem, a expectativa de vida em tempos antigos era de 32 anos e não passou de 44 até depois da Segunda Guerra Mundial; agora está beirando os 80 anos.
Outro fato é que vêm diminuindo drasticamente as mortes por traumas que deixam marcas no esqueleto (se o indivíduo morreu de uma facada que só atingiu tecido mole, não ficam sinais nos ossos). Em resumo, podemos ter aumentos temporários em determinados lugares pontuais, mas o mundo fica cada vez mais seguro se considerarmos longos períodos de tempo e grandes regiões.
Furtos e roubos eram uma constante e nem sequer recriminados, desde que acontecessem em outra comunidade. Assassinatos e violência eram a maneira padrão de resolver conflitos de opinião ou interesses, não o Judiciário. Fora esses “generais” como Júlio Cesar e Alexandre, o Grande, que não passavam de piratas com um exército grande demais para que entrassem para História como o que realmente foram: assassinos, assaltantes e piratas.
O fenômeno que realmente está acontecendo é que a diminuição dos perigos e problemas concretos faz surgirem os imaginários e também aumentam tanto a aversão ao risco (aquilo que consideramos como nível aceitável) como o espectro das condutas criminalizadas (aqueles comportamentos que julgamos inaceitavelmente repulsivos, aquela violência que não é naturalizada pela sociedade).
Vejam o atropelamento, aparente não intencional, de um cãozinho que rendeu inquérito policial e atuação de uma deputada. Não vou discutir se o caso mereceria tanto interesse da imprensa e das autoridades, apenas fazer uma constatação: 10 anos atrás isso seria impossível.
Alguém já parou para pensar quantos filhos de D. Pedro I e D. Pedro II não chegaram à idade adulta? Se nem os filhos dos imperadores escapavam, imaginem nas classe mais baixas. Quase ninguém sabe, mas o rosto de D. Pedro I foi desfigurado em um acidente de cavalo (ele sempre galopava a toda velocidade) que o deixou em tão mal estado que ele nem sequer pôde ser removido, tendo que ficar meses hospedado em uma casa próxima.
E a violência doméstica? Matar a esposa adúltera já foi um dever cívico; as Ordenações do Reino de Portugal, que vigoraram no Brasil até o Código Penal do Império (1830) não apenas autorizavam expressamente que o marido fizesse o mesmo, mas também que recebesse ajuda...
Sabe o que mudou da sua infância para os tempos atuais? Você era criança e não achava nada perigoso; agora você é um adulto que aumenta ou mesmo inventa riscos. Você era filho e agora é pai ou mãe. Naquela época, esposas assassinadas, filhos ou a mulher espancados e animais maltratados eram fatos naturalizados: simplesmente não havia manchete nem processo criminal ou o réu era absolvido.
É isso aí, mesmo, o que você leu: a vida nunca foi tão segura, você é tomou aversão àquilo que antes achava normal e ao risco que considerava aceitável.