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Henrique Herkenhoff

O mundo não está ficando mais violento, você é que está com mais aversão ao risco

Sabe o que mudou da sua infância para os tempos atuais? Você era criança e não achava nada perigoso; agora você é um adulto que aumenta ou mesmo inventa riscos

Publicado em 26 de Abril de 2026 às 02:40

Públicado em 

26 abr 2026 às 02:40
Henrique Herkenhoff

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Henrique Herkenhoff

É mais do que comum ouvir as pessoas dizendo que o mundo de hoje não é seguro como antigamente, que não se pode deixar os filhos irem sozinhos a lugar algum, que é muito perigoso sair à noite etc. 


Os fatos, contudo, desmentem isso completamente. Quem quiser se aprofundar no assunto pode comprar “Os anjos bons da nossa natureza: porque a violência diminuiu”, de Steven Pinker, mas já adianto que é um livro enorme e de leitura arrastada. Então vamos facilitar.


Arqueólogos estão sempre escavando sepulturas antigas e são capazes, pelos ossos, de determinar a idade provável daquele ser humano e, em alguns casos, os alimentos a que tinha acesso, seu DNA mitocondrial e causa da morte. Bem, a expectativa de vida em tempos antigos era de 32 anos e não passou de 44 até depois da Segunda Guerra Mundial; agora está beirando os 80 anos. 


Outro fato é que vêm diminuindo drasticamente as mortes por traumas que deixam marcas no esqueleto (se o indivíduo morreu de uma facada que só atingiu tecido mole, não ficam sinais nos ossos). Em resumo, podemos ter aumentos temporários em determinados lugares pontuais, mas o mundo fica cada vez mais seguro se considerarmos longos períodos de tempo e grandes regiões.

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Furtos e roubos eram uma constante e nem sequer recriminados, desde que acontecessem em outra comunidade. Assassinatos e violência eram a maneira padrão de resolver conflitos de opinião ou interesses, não o Judiciário. Fora esses “generais” como Júlio Cesar e Alexandre, o Grande, que não passavam de piratas com um exército grande demais para que entrassem para História como o que realmente foram: assassinos, assaltantes e piratas.


O fenômeno que realmente está acontecendo é que a diminuição dos perigos e problemas concretos faz surgirem os imaginários e também aumentam tanto a aversão ao risco (aquilo que consideramos como nível aceitável) como o espectro das condutas criminalizadas (aqueles comportamentos que julgamos inaceitavelmente repulsivos, aquela violência que não é naturalizada pela sociedade). 


Vejam o atropelamento, aparente não intencional, de um cãozinho que rendeu inquérito policial e atuação de uma deputada. Não vou discutir se o caso mereceria tanto interesse da imprensa e das autoridades, apenas fazer uma constatação: 10 anos atrás isso seria impossível.

Polícia investiga atropelamento de cadela em Santa Maria de Jetibá
Polícia investiga atropelamento de cadela em Santa Maria de Jetibá Câmera de Segurança

Alguém já parou para pensar quantos filhos de D. Pedro I e D. Pedro II não chegaram à idade adulta? Se nem os filhos dos imperadores escapavam, imaginem nas classe mais baixas. Quase ninguém sabe, mas o rosto de D. Pedro I foi desfigurado em um acidente de cavalo (ele sempre galopava a toda velocidade) que o deixou em tão mal estado que ele nem sequer pôde ser removido, tendo que ficar meses hospedado em uma casa próxima. 


E a violência doméstica? Matar a esposa adúltera já foi um dever cívico; as Ordenações do Reino de Portugal, que vigoraram no Brasil até o Código Penal do Império (1830) não apenas autorizavam expressamente que o marido fizesse o mesmo, mas também que recebesse ajuda...


Sabe o que mudou da sua infância para os tempos atuais? Você era criança e não achava nada perigoso; agora você é um adulto que aumenta ou mesmo inventa riscos. Você era filho e agora é pai ou mãe. Naquela época, esposas assassinadas, filhos ou a mulher espancados e animais maltratados eram fatos naturalizados: simplesmente não havia manchete nem processo criminal ou o réu era absolvido.


É isso aí, mesmo, o que você leu: a vida nunca foi tão segura, você é tomou aversão àquilo que antes achava normal e ao risco que considerava aceitável.


Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

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