O debate econômico brasileiro costuma ser dominado por grandes variáveis macroeconômicas: juros, inflação, câmbio, dívida pública e resultado fiscal. Todas elas são fundamentais. Um país com inflação desancorada, contas públicas frágeis e custo de capital elevado tem dificuldade para investir, planejar e crescer. Mas existe uma dimensão igualmente importante, muitas vezes menos visível, que explica por que o Brasil cresce pouco há décadas: a baixa produtividade.
Produtividade, em termos simples, é a capacidade de produzir mais e melhor com os mesmos recursos. Quando uma economia aumenta sua produtividade, ela consegue elevar salários, reduzir custos, ampliar margens empresariais, aumentar arrecadação e melhorar o padrão de vida sem depender apenas de expansão do crédito, gasto público ou ciclos favoráveis de commodities. O problema brasileiro é que, por muito tempo, tentamos compensar a falta de produtividade com atalhos: estímulos setoriais, subsídios, proteção excessiva, aumento de gasto e expansão de crédito. Essas medidas podem gerar alívio temporário, mas não mudam a capacidade estrutural da economia de produzir riqueza.
Por isso, o Brasil precisa recolocar as reformas microeconômicas no centro da agenda. Reformas microeconômicas são aquelas que atuam sobre o funcionamento cotidiano da economia: ambiente de negócios, concorrência, infraestrutura, qualificação da mão de obra, segurança jurídica, qualidade regulatória, acesso a crédito, eficiência tributária e capacidade de inovação. São mudanças menos vistosas do que grandes pacotes macroeconômicos, mas são elas que definem se uma empresa consegue abrir, crescer, investir, contratar, exportar e competir.
Um primeiro eixo é a simplificação regulatória. O empresário brasileiro gasta tempo demais entendendo normas, preenchendo obrigações, lidando com autorizações, interpretações divergentes e exigências burocráticas. Esse custo não aparece apenas na contabilidade das empresas. Ele reduz a capacidade de inovação, desvia energia da gestão produtiva e favorece negócios maiores e mais estruturados, que conseguem absorver departamentos jurídicos e administrativos. Para pequenas e médias empresas, a burocracia funciona como uma barreira de crescimento. Reduzir esse peso não significa ausência de regra, mas regras mais claras, estáveis, digitais e proporcionais ao risco.
O segundo eixo é a infraestrutura. Produtividade não depende apenas do esforço interno das empresas. Uma indústria eficiente perde competitividade se enfrenta energia cara, transporte lento, portos congestionados, insegurança logística e dificuldade de conexão digital. O custo Brasil é, em grande medida, um custo de infraestrutura. Investimentos em rodovias, ferrovias, portos, transmissão de energia, saneamento, conectividade e armazenagem têm efeito multiplicador porque reduzem perdas, encurtam distâncias, integram mercados e aumentam a previsibilidade das operações. No caso do Espírito Santo, essa agenda é ainda mais relevante, pois o Estado tem vocação logística, portuária, industrial e exportadora.
O terceiro eixo é a educação aplicada ao mundo produtivo. A produtividade brasileira não avançará de forma consistente sem uma força de trabalho mais qualificada. Isso não se resume a aumentar anos de estudo. É preciso melhorar a qualidade da aprendizagem, fortalecer o ensino técnico, aproximar escolas e empresas, formar trabalhadores para tecnologias digitais, gestão, automação, análise de dados e novas demandas industriais e de serviços. O país ainda convive com um descompasso entre formação e necessidade produtiva. Quando esse desalinhamento persiste, empresas não conseguem crescer por falta de mão de obra qualificada e trabalhadores não conseguem acessar melhores salários.
O quarto eixo é a concorrência. Economias mais produtivas são aquelas em que empresas eficientes conseguem crescer e empresas ineficientes são pressionadas a melhorar. No Brasil, ainda há muitos mercados protegidos por barreiras regulatórias, dificuldades de entrada, insegurança jurídica, custos tributários complexos e relações pouco transparentes entre Estado e setor privado. A concorrência estimula inovação, reduz preços, melhora qualidade e força as empresas a buscar ganhos permanentes de eficiência. Proteger setores indefinidamente pode preservar empregos no curto prazo, mas tende a reduzir incentivos à modernização e transfere custos para toda a sociedade.
O quinto eixo é o crédito. O Brasil avançou na modernização do sistema financeiro, especialmente com instrumentos digitais, maior competição e novas formas de pagamento. Ainda assim, o custo do crédito permanece elevado e o acesso é desigual. Empresas pequenas, inovadoras e com baixo histórico bancário enfrentam dificuldade para financiar capital de giro, expansão e tecnologia. Reformas que reduzam a assimetria de informação, fortaleçam garantias, ampliem o cadastro positivo, melhorem a recuperação de crédito e aumentem a competição bancária ajudam a direcionar recursos para projetos produtivos, e não apenas para a rolagem de dívidas.
O sexto eixo é a segurança jurídica. Investimento exige previsibilidade. Empresas tomam decisões de longo prazo quando confiam que contratos serão respeitados, regras não mudarão abruptamente e disputas serão resolvidas em prazo razoável. Incerteza jurídica funciona como imposto invisível. Ela aumenta o prêmio de risco, encarece financiamentos, reduz investimentos e faz empresas adiarem projetos. Melhorar a qualidade das normas, reduzir judicialização desnecessária, tornar agências reguladoras mais técnicas e fortalecer a estabilidade contratual são medidas fundamentais para destravar investimento privado.
Também é indispensável discutir a qualidade do gasto público. Produtividade não depende apenas de gastar mais, mas de gastar melhor. O Estado precisa direcionar recursos para áreas que aumentam a capacidade produtiva da economia: educação básica, infraestrutura, tecnologia, segurança pública, saúde preventiva e gestão de dados. Quando o orçamento é consumido por despesas rígidas, baixa avaliação de impacto e pouca capacidade de investimento, o setor público deixa de ser indutor de produtividade e passa a competir por recursos escassos com o setor produtivo.
A reforma tributária sobre o consumo é um passo relevante, mas não encerra a agenda. O país ainda precisará garantir uma transição eficiente, reduzir litígios, simplificar obrigações acessórias e evitar que novos regimes especiais recriem a complexidade anterior. Um sistema tributário mais simples melhora a produtividade porque reduz custo administrativo, diminui distorções na alocação de recursos e permite que empresas decidam com base em eficiência econômica, não em engenharia fiscal.
A grande dificuldade é que reformas microeconômicas exigem persistência. Elas não produzem resultados imediatos como uma queda pontual de juros ou um pacote de estímulo. Seus efeitos aparecem gradualmente, à medida que empresas investem, trabalhadores se qualificam, mercados se integram e instituições se tornam mais previsíveis. Mas é justamente por isso que são essenciais. Países não se tornam produtivos por decreto. Tornam-se produtivos quando constroem, ao longo do tempo, um ambiente em que produzir, inovar e competir é mais simples do que buscar proteção, exceção ou privilégio.
O Brasil precisa superar a ilusão de que crescimento sustentável virá apenas de impulsos de demanda. Sem produtividade, qualquer expansão tende a encontrar rapidamente seus limites: inflação, gargalos logísticos, déficit externo, pressão fiscal ou perda de competitividade. Com produtividade, o crescimento se torna mais saudável, porque nasce da capacidade real de gerar valor.
A agenda microeconômica talvez seja menos popular do que grandes anúncios nacionais, mas é ela que transforma a economia por dentro. Reduzir burocracia, melhorar infraestrutura, qualificar trabalhadores, ampliar concorrência, baratear crédito, fortalecer segurança jurídica e elevar a eficiência do Estado são reformas que criam as bases para um país mais competitivo e socialmente mais próspero. O desafio brasileiro não é apenas crescer mais no próximo ano. É construir uma economia capaz de crescer melhor pelas próximas décadas.
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