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Cenário internacional

Guerra, tarifas e crédito público: Brasil reage ao choque externo ou só evita perdas?

Medidas emergenciais ajudam a conter impactos da guerra e de tarifas dos EUA, mas levantam dúvida sobre a capacidade do país de construir uma estratégia de longo prazo

Publicado em 22 de Abril de 2026 às 08:48

Públicado em 

22 abr 2026 às 08:48
Felipe Storch

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Felipe Storch

Quando a economia é sacudida por choques externos, governos quase sempre recorrem a instrumentos emergenciais. Isso é compreensível. O problema começa quando a resposta ao curto prazo passa a ocupar o espaço da estratégia. O debate que se impõe hoje ao Brasil é exatamente esse: diante da guerra no Oriente Médio e do avanço de medidas comerciais unilaterais dos Estados Unidos, o país está apenas amortecendo perdas ou está, de fato, construindo uma política econômica de longo prazo para setores estratégicos?


Os fatos mais recentes mostram que a preocupação do governo é real. Em abril, foram anunciadas novas condições de acesso a linhas de crédito de R$ 15 bilhões no âmbito do Plano Brasil Soberano, com foco em empresas exportadoras e fornecedores afetados pelo atual ambiente de instabilidade internacional. O desenho oficial também menciona setores atingidos pelas tarifas impostas de forma unilateral pelos Estados Unidos, com destaque para segmentos como siderurgia e automotivo. Além disso, o governo federal editou medidas para conter o impacto da guerra sobre combustíveis, incluindo subvenções e desonerações tributárias específicas.

Crises externas elevam riscos para países dependentes do comércio
Crises externas elevam riscos para países dependentes do comércio Imagem gerada pelo ChatGPT

Do ponto de vista conjuntural, essas ações fazem sentido. Choques geopolíticos e comerciais afetam preços, margens, fluxo de caixa, planejamento de investimento e confiança. Em momentos assim, linhas emergenciais de crédito, alívio tributário e instrumentos temporários de estabilização podem evitar rupturas mais graves, preservar empregos e reduzir efeitos em cadeia sobre fornecedores. Em outras palavras, amortecer perdas não é um erro em si. O erro seria acreditar que isso basta.


Esse é o centro da questão. Medidas emergenciais ajudam empresas a atravessar a turbulência, mas não resolvem fragilidades estruturais da economia brasileira. Quando um país depende repetidamente de crédito subsidiado, socorro setorial ou desonerações pontuais para responder a cada novo abalo externo, isso pode ser sinal de que sua base produtiva ainda opera com baixa resiliência. E uma economia pouco resiliente é aquela que sofre demais quando o mundo desacelera, quando uma rota estratégica entra em risco, quando tarifas sobem ou quando insumos essenciais ficam mais caros.


Por isso, o desafio não é escolher entre proteger o presente e planejar o futuro. O desafio é fazer as duas coisas ao mesmo tempo. A resposta emergencial deve ser a ponte, não o destino final. Uma política econômica de longo prazo para setores estratégicos exige outro tipo de ambição. Exige previsibilidade regulatória, ambiente de negócios menos custoso, investimento em infraestrutura, financiamento bem direcionado, política de inovação, fortalecimento de cadeias produtivas locais e capacidade de coordenar decisões públicas e privadas. Sem isso, o país reage a cada crise, mas não aprende com nenhuma.

Competitividade além do crédito

O caso recente é ilustrativo. Se a guerra eleva custos energéticos e logísticos, e se as tarifas americanas pressionam segmentos industriais específicos, a resposta mais robusta não pode ser apenas oferecer fôlego financeiro aos atingidos. É preciso perguntar por que a indústria brasileira continua tão vulnerável a choques externos, por que nossas cadeias ainda têm gargalos importantes e por que a competitividade nacional depende tanto de medidas compensatórias. O crédito ajuda a suportar a dor. Mas competitividade sustentável depende de produtividade.


Há ainda um ponto fiscal relevante. Toda política anticrise precisa ser calibrada com responsabilidade. Intervenções emergenciais sucessivas podem aliviar o presente, mas também ampliam o risco de distorções alocativas, aumentam incertezas sobre o papel do Estado e pressionam o uso de recursos públicos em um ambiente já apertado. Em economias com restrição fiscal, a qualidade do gasto importa tanto quanto sua urgência. Proteger setores relevantes é legítimo. Transformar exceção em rotina é perigoso.


Por outro lado, seria simplista defender uma postura passiva em nome do ajuste. O mundo atual está mais fragmentado, mais protecionista e mais sujeito a rupturas geopolíticas. Países que preservam capacidade industrial, tecnológica e logística não fazem isso por acaso. Fazem porque tratam determinados setores como estratégicos, com planejamento, metas, coordenação e horizonte de longo prazo. O Brasil precisa amadurecer essa discussão sem cair nem no improviso permanente nem no voluntarismo estatal.


Em síntese, o país acertará mais se entender que reagir ao choque é necessário, mas insuficiente. Amortecer perdas é gestão de crise. Construir resiliência produtiva é projeto de desenvolvimento. A diferença entre uma coisa e outra parece apenas semântica, mas na prática define se a economia brasileira seguirá apenas sobrevivendo aos abalos do cenário internacional ou se finalmente começará a se preparar para eles.

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Felipe Storch

Felipe Storch Damasceno e economista com mestrado e doutorado em Administracao e Contabilidade. E professor de Economia e pesquisador dos impactos sociais e economicos de politicas publicas. Tambem e consultor, palestrante e comentarista na CBN Vitoria

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