Presente na vida das pessoas, em maior ou menor intensidade, a música tem o poder de moldar a cultura e o comportamento e, nesse contexto, muitas vezes a violência de gênero é naturalizada e consumida como mero entretenimento. É o que apontam pesquisas realizadas no Espírito Santo, em que são evidenciadas condutas violentas disfarçadas de romance.
Os estudos usaram como referência o sertanejo universitário, mas o problema pode ser identificado em praticamente todos os gêneros musicais, dos mais periféricos aos clássicos do repertório nacional.
O estudo "Violência simbólica: análise da objetificação da mulher no sertanejo universitário" foi conduzido na graduação de Psicologia, na Multivix, e destaca que esse estilo musical atua como um veículo para a manutenção do patriarcado ao romantizar o ciúme e a submissão.
Diferentemente da violência física, a simbólica é uma forma de agressão que funciona como instrumento de dominação presente em todas as camadas sociais, construindo uma realidade que legitima a subordinação de determinados grupos, neste caso, as mulheres.
A violência simbólica é inserida na cultura de forma quase imperceptível, aponta a pesquisa, fazendo com que a dominação seja aceita como algo correto e natural até pelas pessoas que são dominadas.
"O sertanejo universitário dissemina essa violência de maneira muito sutil. Fala-se muito em amor, mas o que é o amor dentro dessa música? Posse e dominação", sustenta a psicóloga Amanda Pego, uma das pesquisadoras.
Na questão de gênero, a violência simbólica se manifesta por meio da objetificação do corpo feminino, tratando a mulher como algo — a ser possuído, dominado ou consumido — e não alguém.
O estudo mostra que gêneros amplamente populares, como o sertanejo universitário, podem atuar como propagadores dessa violência ao reproduzir letras que reforçam o sentimento de posse, o ciúme excessivo e a submissão feminina, muitas vezes mascarando esses comportamentos como "cuidado" ou "amor".
Onde está o problema
As letras frequentemente retratam a mulher como propriedade do homem. O discurso de dominação masculina, diz a pesquisa, é legitimado ao tratar o controle sobre o corpo feminino como algo natural.
O estudo analisou várias dessas músicas. Na "Ciumento Eu", por exemplo, comportamentos invasivos como instalar câmeras no quarto, gravadores no carro e destravar o celular da parceira são justificados como se o companheiro fosse cuidadoso. A frase "quem vai cuidar do que é meu?" exemplifica a redução da mulher a um objeto de posse.
Em "Vidinha de Balada", a letra reproduz a imposição de um relacionamento —"Vai namorar comigo sim" —, retirando da mulher sua liberdade de escolha.
Na música "Propaganda", é utilizado o estereótipo da mulher que "queima o arroz" e "quebra copo". Além de admitir, na letra, que fala mal da companheira para que outros homens não se interessem por ela, o autor também usa a violência emocional para manter o controle.
Em "Litrão", a mulher deve escolher entre "ser da bagaceira" (ter sua própria vida e diversão) ou "ser minha", sugerindo que ela só tem valor se estiver submetida ao homem.
O problema, observa Amanda Pego, é que a maioria das pessoas não tem consciência da violência simbólica. Fala-se muito da física e, mais recentemente, também da psicológica e patrimonial, graças à disseminação de informações sobre a Lei Maria da Penha, porém ainda há desconhecimento sobre o que é a simbólica.
"Assim, o amor acaba sendo condicionado ao sofrimento. É preciso lutar pelo amor, sofrer, se submeter. A difusão de certas letras reforça essas violências de posse e controle como se fossem demonstração de afeto, mas não são", frisa a psicóloga.
Então, a proposta do estudo é estimular uma reflexão sobre como letras que normalizam o controle, a humilhação ou a objetificação moldam a forma como a sociedade enxerga e trata as mulheres no mundo real.
Discurso misógino
Outro estudo sobre o tema foi conduzido no Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) — campus Vitória. A professora Vivianne Freire Valladão pesquisou "O discurso misógino e machista em letras de músicas sertanejas", tanto na graduação quanto no mestrado. O foco, segundo ela, foi investigar as manifestações linguísticas e discursivas nas letras desse gênero musical.
Vivianne, que hoje faz doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), diz que tem costume de ouvir sertanejo e sua ideia era pesquisar um gênero que é bastante consumido no país, que gera muito lucro, mas é pouco questionado sobre o que dizem suas letras. "Quando a gente vai parar para ler e ouvir, se for olhar de modo crítico, de que modo isso atinge a sociedade?", questiona.
Ela pontua que já reproduziu algumas dessas músicas em sala de aula, com turmas de adolescentes. "As falas dos meninos costumam ser muito machistas, misóginas. Levei as músicas para poder fazer essa análise, essa reflexão."
A pesquisa usou referências teóricas para conectar a linguística à trajetória histórica do patriarcado no Brasil, analisando como o gênero musical reflete ideologias conservadoras. Ao examinar canções específicas, o estudo evidencia traços de relacionamentos abusivos e possessividade que são comercializados como entretenimento.
Assim como na pesquisa sobre violência simbólica, nesta, Vivianne reforça a ideia de mulher como propriedade do homem e naturalização de atitudes violentas, como se fossem excesso de cuidado e amor. Isso inclui a banalização de comportamentos como cárcere privado e punição, stalking (perseguição) e invasão de privacidade.
É comum também o homem culpar a mulher por suas próprias reações violentas ou pelo fim do relacionamento.
Na música "Bruto, rústico e sistemático", há o seguinte trecho: "Na muié, eu dei um jeito, corretivo do meu modo. No quarto deixei trancada, quinze dias aprisionada." A violência física e a privação de liberdade são justificadas como uma reação à suposta "falta de respeito" da mulher (por querer fazer topless), reforçando uma estrutura patriarcal onde o domínio masculino é indiscutível e a submissão feminina é exigida através da força.
Em "Casa Amarela", a letra retrata perseguição e culpabilização da vítima. O homem admite estar agindo como um "suspeito", ao adotar um comportamento criminoso de vigiar a ex-parceira, mas transfere a responsabilidade para a mulher ("a culpa é dela") e justifica sua obsessão por meio do "sofrimento amoroso."
Essa inversão, aponta a pesquisa, transforma o agressor em vítima e naturaliza comportamentos que podem preceder atos de violência extrema, como o feminicídio.
No estudo, Vivianne ainda diferencia o sertanejo raiz do universitário. Enquanto no primeiro as letras tratam mais de histórias e do cotidiano do homem do campo, o segundo é o que mais frequentemente reproduz discursos de posse e objetificação feminina, disfarçados de romantismo.
Tanto Amanda quanto Vivianne chegaram a considerar o funk como objeto de estudo, mas avaliaram que o gênero já é estigmatizado por sua origem na periferia e, também, por algumas letras já se mostrarem explícitas, especialmente no quesito objetificação feminina.
"No funk, a tendência já é pensar que vai ter algo violento, de sexualização feminina. Mas o sertanejo vem com essa ideia da romantização, e não é todo mundo que entende que é uma violência naturalizada", ressalta Vivianne.
"Com o funk, já existe certo preconceito, nem é todo lugar que toca. Já o sertanejo universitário está ali, naquele barzinho gourmet, num som baixinho, e você vai ouvindo, cantando, naturalizando aquelas ideias", completa Amanda.
Mas quem ouvir de forma crítica produções nacionais vai encontrar em cantigas de criança, como "O cravo brigou com a rosa", até no samba, pagode, rock, MPB, brega, entre outros gêneros, alguma música em que a violência contra a mulher é apenas entretenimento.