Felipe Storch Damasceno é economista com mestrado e doutorado em Administração e Contabilidade. É professor de Economia e pesquisador dos impactos sociais e econômicos de políticas públicas. Também é consultor, palestrante e comentarista na CBN Vitória

Infraestrutura logística do ES e o desafio de transformar eficiência em produtividade

Expansão de portos, ferrovias e centros logísticos abre caminho para ganhos estruturais e cria oportunidades para o Estado, mas depende de integração, ambiente de negócios e capital humano

Publicado em 25/03/2026 às 08h15

O Espírito Santo vive um momento particular em sua trajetória econômica. A consolidação e a expansão de ativos logísticos, com novos portos, projetos ferroviários e áreas dedicadas à armazenagem e distribuição, colocam o Estado em uma posição estratégica no território nacional. Mais do que ampliar a capacidade de movimentação de cargas, esses investimentos abrem uma janela para um ganho mais estrutural, associado à produtividade das empresas que operam localmente.

Infraestrutura logística não é apenas um suporte operacional. Quando bem integrada ao sistema produtivo, ela reduz custos de transporte, encurta prazos, melhora a previsibilidade e amplia o acesso a mercados. Esses fatores, combinados, elevam a eficiência das empresas e permitem decisões mais sofisticadas de produção, estoque e distribuição. Em outras palavras, a logística deixa de ser um custo e passa a ser um ativo competitivo.

A expansão de portos, ferrovias e centros de distribuição coloca o Espírito Santo em posição estratégica para transformar logística em ganho de produtividade. Crédito: Imagem gerada pelo ChatGPT
A expansão de portos, ferrovias e centros de distribuição coloca o Espírito Santo em posição estratégica para transformar logística em ganho de produtividade. Crédito: Imagem gerada pelo ChatGPT

Para as empresas já instaladas no Espírito Santo, o principal ganho potencial está na reorganização de suas cadeias de suprimento. A proximidade com portos mais eficientes e a ampliação da oferta logística permitem reduzir estoques, melhorar o giro de capital e acessar fornecedores e clientes com maior agilidade. Setores como rochas ornamentais, metalmecânico, agroindústria e comércio exterior tendem a capturar essas vantagens de forma mais imediata. Além disso, empresas com atuação nacional podem utilizar o Estado como plataforma logística, redistribuindo operações e capturando ganhos de escala.

Para novas empresas, o efeito é ainda mais relevante. A existência de uma base logística robusta reduz o custo de entrada e amplia a atratividade capixaba como destino de investimento. Em um cenário em que decisões locacionais são cada vez mais sensíveis a custo total, tempo de acesso a mercados e segurança operacional, o Espírito Santo pode se posicionar como um hub logístico competitivo. Isso vale tanto para indústrias quanto para centros de distribuição e operações ligadas ao comércio exterior.

O desafio da integração

No entanto, transformar infraestrutura em produtividade não é automático. Existe um conjunto de condições que precisam ser atendidas para que esses ativos gerem retorno econômico mais amplo. A principal delas é a integração. Portos, rodovias, ferrovias e áreas industriais precisam operar de forma coordenada, com redução de gargalos e custos de transição entre modais. Sem isso, parte relevante do ganho potencial se perde.

Nesse ponto, o papel do governo é decisivo. Cabe ao setor público garantir um ambiente regulatório estável, segurança jurídica e previsibilidade para investidores. Além disso, é fundamental avançar em obras complementares, como acessos rodoviários, conexão ferroviária e infraestrutura urbana nas áreas de expansão econômica. A simplificação de processos, especialmente em licenciamento e operações logísticas, também é um fator crítico para reduzir custos e aumentar a competitividade das empresas.

Outro ponto central é a articulação com capital humano e ambiente de negócios. Ganhos de produtividade dependem da capacidade das empresas de absorver tecnologia, qualificar sua força de trabalho e operar com eficiência. Sem isso, a infraestrutura tende a ser subutilizada ou capturada apenas como vantagem de curto prazo, sem gerar transformação estrutural.

Há também riscos que precisam ser considerados. O primeiro é o de fragmentação, com investimentos que não se conectam entre si e reduzem o potencial sistêmico da logística. O segundo é o de desalinhamento entre oferta e demanda, com capacidade ociosa caso os projetos não sejam acompanhados por atração efetiva de empresas. Por fim, há o risco de pressão sobre infraestrutura urbana e serviços públicos, especialmente em regiões que recebem investimentos sem planejamento territorial adequado.

O Espírito Santo já construiu uma base logística relevante e tem avançado na atração de novos projetos. O desafio agora é dar o próximo passo. Mais do que ampliar ativos, é preciso transformar logística em produtividade. É essa transição que define se o Estado será apenas um corredor de passagem ou um ambiente de geração de valor, inovação e crescimento sustentado.

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