A economia é, por natureza, cíclica. Períodos de crescimento mais acelerado tendem a ser sucedidos por fases de desaceleração, maior incerteza e, em alguns casos, retração da atividade. A diferença central entre economias que atravessam esses ciclos com menor custo social e econômico e aquelas que sofrem ajustes mais severos está no grau de preparação institucional, produtiva e fiscal construído nos momentos favoráveis. Nesse sentido, o atual desempenho da economia do Espírito Santo oferece uma janela de oportunidade estratégica que não pode ser desperdiçada.
Economias mais organizadas, com ambiente de negócios previsível, contas públicas equilibradas e setores produtivos diversificados, tendem a absorver choques adversos com maior facilidade. A confiança do investidor, elemento-chave para sustentar o investimento privado em períodos de incerteza, depende menos do ciclo conjuntural e mais da percepção de estabilidade institucional, segurança jurídica e capacidade do poder público de agir de forma coordenada. Preparar-se para os ciclos econômicos significa, portanto, transformar momentos de bonança em bases estruturais para enfrentar fases de maior dificuldade.
Os ativos do Espírito Santo em momentos favoráveis
O Espírito Santo apresenta pontos fortes relevantes. O Estado construiu, ao longo das últimas décadas, um histórico de responsabilidade fiscal, com níveis de endividamento controlados e capacidade de investimento preservada. A economia capixaba também se beneficia de uma forte inserção no comércio exterior, apoiada em setores como mineração, siderurgia, celulose, rochas ornamentais, agronegócio e logística portuária. Essa vocação exportadora, combinada à localização estratégica e à infraestrutura portuária relativamente desenvolvida, confere competitividade e gera divisas importantes, especialmente em momentos de expansão do comércio global.
Outro ponto positivo é a capacidade de articulação institucional entre governo, setor produtivo e entidades representativas, o que historicamente contribuiu para políticas de atração de investimentos e para a manutenção de um ambiente econômico relativamente estável. Além disso, indicadores de emprego e renda no Estado têm apresentado desempenho consistente em comparação à média nacional, refletindo uma estrutura produtiva capaz de gerar postos de trabalho formais mesmo em contextos macroeconômicos mais desafiadores.
Os riscos da concentração e da dependência externa
Por outro lado, a economia capixaba apresenta fragilidades estruturais que merecem atenção contínua, sobretudo quando analisadas à luz dos ciclos econômicos. A elevada concentração setorial em atividades intensivas em capital e fortemente integradas ao mercado internacional amplia a sensibilidade do Estado a choques externos. Oscilações nos preços internacionais de commodities, desacelerações do comércio global ou mudanças regulatórias em mercados importadores tendem a se refletir de forma relativamente rápida sobre o nível de atividade local. Esse mecanismo de transmissão ocorre tanto pelo canal da arrecadação, fortemente dependente do desempenho de grandes setores exportadores, quanto pelo canal do investimento privado, que reage de maneira mais cautelosa em ambientes de maior incerteza internacional.
Essa dependência setorial também cria efeitos de segunda ordem sobre o mercado de trabalho. Embora esses segmentos sejam relevantes para a geração de renda e divisas, eles são, em geral, menos intensivos em mão de obra e mais suscetíveis a ajustes abruptos de investimento em momentos de retração. Em cenários adversos, a combinação entre queda de preços, postergação de projetos e redução do ritmo de produção pode pressionar o emprego direto e indireto, afetando cadeias locais e a dinâmica econômica regional.
Além disso, persistem desafios estruturais relacionados à produtividade e à diversificação da base produtiva. O peso relativamente reduzido de setores intensivos em conhecimento, tecnologia e serviços de maior valor agregado limita a capacidade de crescimento sustentado no longo prazo. Economias mais diversificadas tendem a apresentar maior resiliência aos ciclos, pois contam com múltiplos motores de crescimento e menor correlação entre seus setores. No caso capixaba, a concentração em poucos segmentos estratégicos aumenta a exposição a choques específicos e reduz os amortecedores naturais contra períodos de desaceleração.
A qualificação da mão de obra também se insere como um ponto sensível. A transição para atividades de maior valor agregado exige investimentos consistentes em educação, formação técnica e capacitação contínua, de modo a alinhar a oferta de trabalho às demandas de uma economia mais complexa. Sem esse avanço, o Estado corre o risco de permanecer preso a um padrão de crescimento mais volátil, dependente de ciclos externos e com menor capacidade de adaptação quando o ambiente macroeconômico nacional se torna mais restritivo, seja por políticas fiscais mais apertadas, seja por condições monetárias menos favoráveis.
Segurança jurídica como ativo econômico
A segurança jurídica é um dos pilares centrais para a resiliência econômica em ambientes cíclicos e deve ocupar posição estratégica no planejamento do Espírito Santo. De forma geral, o judiciário capixaba apresenta avaliação positiva em comparação ao padrão nacional, com grau de institucionalidade, previsibilidade decisória e estabilidade que contribuem para a redução da incerteza jurídica enfrentada por empresas e investidores. Essa qualidade relativa é um ativo econômico relevante, pois decisões judiciais mais coerentes e maior respeito a contratos reduzem o custo de capital, favorecem o investimento de longo prazo e ampliam a confiança no ambiente de negócios.
Ainda assim, a busca por maior eficiência na tramitação de processos permanece fundamental. A duração excessiva dos litígios, mesmo em um judiciário tecnicamente qualificado, gera custos econômicos relevantes, imobiliza recursos, posterga investimentos e eleva a percepção de risco. Avançar em práticas que aumentem a celeridade processual, o uso de soluções consensuais e a racionalização do contencioso é parte essencial de uma estratégia de preparação para os ciclos econômicos, especialmente em períodos de desaceleração, quando a previsibilidade e a rapidez na resolução de conflitos tornam-se ainda mais decisivas para sustentar a atividade econômica.
Nesse contexto, o ciclo de governo que se inicia em 2027 terá papel central na consolidação de uma estratégia anticíclica para o Espírito Santo. Entre os pontos que merecem tratamento cuidadoso estão o fortalecimento do planejamento de longo prazo, a preservação do equilíbrio fiscal como ativo estratégico e o uso criterioso da política de investimentos públicos. Investir em infraestrutura logística, inovação, educação e qualificação profissional não apenas eleva o potencial de crescimento, mas também cria amortecedores importantes para períodos de desaceleração.
Além disso, políticas voltadas à diversificação produtiva, ao adensamento das cadeias locais e ao estímulo à produtividade devem ser tratadas como agenda permanente, e não como resposta emergencial a crises. A construção de um ambiente de negócios previsível, com regras claras e estabilidade institucional, é condição necessária para manter a confiança do investidor mesmo em cenários de maior incerteza.
Preparar o Espírito Santo para os ciclos econômicos não significa antecipar crises, mas reconhecer que elas fazem parte do funcionamento da economia. Aproveitar o momento positivo atual para fortalecer fundamentos, corrigir fragilidades e planejar o futuro é a forma mais eficaz de garantir que, nos períodos de dificuldade, o Estado consiga preservar crescimento, emprego e bem-estar social.
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