A produtividade costuma aparecer no debate público como um problema de vontade política ou de decisões pontuais. Fala-se em decretos, programas emergenciais ou incentivos isolados como se fossem capazes de, por si só, alterar a trajetória de eficiência da economia brasileira. Essa leitura é confortável, mas equivocada. Produtividade não se cria por decreto. Ela é resultado de um conjunto de condições estruturais que se constroem ao longo do tempo e que dependem de coerência institucional, planejamento e acumulação de capacidades.
Do ponto de vista econômico, produtividade é a capacidade de gerar mais valor a partir da mesma quantidade de trabalho e capital. Isso significa produzir melhor, não apenas produzir mais. Países que conseguem sustentar crescimento de renda no longo prazo são aqueles que aumentam sua produtividade de forma contínua. Quando isso não ocorre, o crescimento passa a depender apenas de expansão do crédito, do aumento do gasto público ou do consumo induzido, estratégias que têm limite claro e costumam gerar desequilíbrios.
Um dos principais entraves à produtividade no Brasil está no ambiente macroeconômico instável. Volatilidade fiscal, incerteza sobre regras e mudanças frequentes de orientação econômica elevam o prêmio de risco, encarecem o capital e reduzem o horizonte de planejamento das empresas. Investimentos produtivos, especialmente aqueles em tecnologia, inovação e qualificação, exigem previsibilidade. Sem ela, o empresário tende a priorizar decisões defensivas, com menor impacto sobre eficiência.
Outro fator central é a baixa difusão tecnológica. O problema não está apenas na fronteira da inovação, mas na dificuldade de espalhar tecnologias já existentes para a maior parte das empresas. Grande parte do tecido produtivo opera com processos defasados, gestão pouco profissionalizada e acesso limitado a crédito de longo prazo. Isso cria uma economia dual, em que poucas empresas muito produtivas convivem com um grande número de firmas de baixa eficiência, puxando a média para baixo.
A qualidade do capital humano também é decisiva. Produtividade não depende apenas de anos de escolaridade, mas da formação efetiva das habilidades demandadas pelo mercado. Há um descompasso persistente entre o que o sistema educacional entrega e o que o setor produtivo necessita. Isso reduz a capacidade de absorção tecnológica, limita ganhos de eficiência e encarece a mão de obra qualificada, criando gargalos adicionais.
A infraestrutura é outro componente frequentemente subestimado. Logística ineficiente, energia cara ou instável e deficiência em saneamento e conectividade digital não apenas elevam custos diretos, mas reduzem a competitividade sistêmica. Empresas gastam tempo e recursos compensando falhas que deveriam ser resolvidas coletivamente. O resultado é menor foco em inovação e na melhoria de processos.
Há ainda o peso da complexidade regulatória e da insegurança jurídica. Um sistema tributário intrincado, com elevada litigiosidade, consome recursos administrativos relevantes e desestimula investimentos. Empresas passam a alocar esforços em planejamento defensivo, em vez de direcioná-los para ganhos de eficiência produtiva. A produtividade sofre não pela carga isoladamente, mas pela imprevisibilidade e pelo custo de conformidade.
Por fim, é preciso destacar que políticas de curto prazo raramente resolvem problemas estruturais. Incentivos pontuais, sem avaliação de impacto e sem integração com uma estratégia mais ampla, tendem a gerar ganhos temporários e distorções alocativas. Produtividade exige políticas persistentes, coordenação entre áreas e respeito às regras estabelecidas.
Tratar a produtividade como uma variável estrutural implica aceitar que seus resultados não são imediatos, mas são duradouros. Países que fizeram esse caminho investiram em instituições estáveis, educação de qualidade, infraestrutura adequada e ambiente de negócios previsível. Não há atalhos. Enquanto o debate insistir em soluções fáceis para um problema complexo, a produtividade continuará sendo um discurso recorrente, mas um resultado distante.
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