A desigualdade aparece também no PIB per capita. Em 2023, a média estadual foi de R$ 54.733. Presidente Kennedy registrou R$ 537.983 (mais de nove vezes a média), enquanto Jerônimo Monteiro ficou em R$ 18,9 mil. Não se trata de “mérito” ou “falha” local, mas de estruturas produtivas muito diferentes (inclusive, a presença do petróleo e gás em alguns municípios) e de capacidades distintas de atrair investimento.
O desafio é que a interiorização vem ocorrendo de forma assimétrica também por desenho institucional. Hoje, 31 municípios da Região Norte capixaba integram
a área de atuação da Sudene, o que abre acesso a instrumentos federais de política regional. Um exemplo é o Fundo de Desenvolvimento do Nordeste (FDNE), que admite financiar até 80% do investimento total do projeto e prevê prazos longos (até 20 anos em infraestrutura e até 12 anos nos demais empreendimentos, incluindo carência). Para investimentos intensivos em capital, essa combinação de alavancagem e prazo pode ser decisiva na decisão de localização.
Quando parte do Estado opera com esse “pacote” e outra parte não, a pergunta de política pública é inevitável: como compensar os outros municípios para que possam competir com equivalência? Compensar aqui não significa “prêmio”; significa corrigir a desigualdade de ferramentas e reduzir o custo de oportunidade de investir no interior.
O café ilustra bem o que está em jogo. Existe um ativo reconhecido formalmente:
o café arábica do Caparaó possui Indicação Geográfica na modalidade Denominação de Origem concedida pelo INPI, abrangendo municípios capixabas que hoje têm níveis de desenvolvimento econômico menores do que o potencial. Isso cria base para uma estratégia de valor agregado (qualidade, rastreabilidade e marca territorial) e para diversificar renda com serviços associados ao café.
No turismo, o Parque Nacional do Caparaó é outro ativo, mas a captura econômica é desigual. Em debate na Assembleia Legislativa do Espírito Santo, foi citado que Alto Caparaó registrou 100.143 visitantes, enquanto a entrada pela portaria capixaba teve, em 2019, 23.215 visitas (com 9.673 em 2016). A leitura é simples: demanda existe; falta transformar fluxo em renda local do lado capixaba com acesso, serviços, sinalização, oferta organizada e governança do destino.
O segundo gargalo é infraestrutura “do dia a dia”: estradas vicinais, manutenção e sinalização, conectividade digital, saneamento e energia estável. Sem isso, a produtividade cai, o custo do serviço sobe e o território perde competitividade justamente onde poderia se diferenciar (experiência turística e produtos premium do agro).
O terceiro gargalo é coordenação. Interiorização não acontece por decreto, mas por ecossistemas. Regiões do Caparaó, sul e serrana precisam de governança regional com metas e projetos bancáveis: inovação e assistência técnica, agregação de valor (beneficiamento e certificações), integração entre prefeituras, setor produtivo e crédito, e uso inteligente de compras públicas para estimular cadeias locais.
Descentralizar é uma escolha de estratégia: diversificar as âncoras de crescimento do Espírito Santo. Se o movimento continuar assimétrico, o risco é concentrar oportunidades onde o instrumento é mais forte e subutilizar vocações onde há potencial. Política compensatória bem desenhada não é pauta “do sul”; é agenda de resiliência e desenvolvimento sustentável para o Estado inteiro.