O debate sobre crescimento econômico no Brasil costuma se concentrar em variáveis fiscais, monetárias e regulatórias. Fala-se de arcabouço fiscal, taxa de juros, reforma tributária, custo de capital e produtividade. Todos esses temas são centrais. No entanto, há um elemento estrutural que condiciona o desempenho de todos os demais: a qualidade das instituições políticas. Sem estabilidade institucional, previsibilidade decisória e clareza de regras, a economia opera sob incerteza elevada, especialmente em anos eleitorais.
A literatura econômica há décadas demonstra que instituições sólidas reduzem custos de transação, aumentam a segurança jurídica e favorecem o investimento de longo prazo. Países com regras estáveis, sistemas partidários mais organizados e mecanismos claros de responsabilização política tendem a apresentar maior previsibilidade macroeconômica. Não se trata de uma discussão ideológica, mas institucional. Investidores, empresários e famílias tomam decisões olhando para expectativas futuras. Quando o ambiente político se torna excessivamente fragmentado ou imprevisível, as decisões são postergadas, o prêmio de risco sobe e o crescimento desacelera.
O Brasil convive historicamente com elevada fragmentação partidária e com ciclos eleitorais que frequentemente ampliam a incerteza sobre rumos fiscais, regulatórios e administrativos. Em anos de eleição, o debate público tende a se intensificar, o que é natural em uma democracia. O problema surge quando a competição política é acompanhada de instabilidade nas regras do jogo, judicialização excessiva, disputas institucionais prolongadas ou sinalizações contraditórias sobre políticas públicas estruturantes. Nesse ambiente, o horizonte de planejamento se encurta.
Uma reforma política, nesse contexto, deve ser compreendida como instrumento de fortalecimento institucional. Isso envolve discutir mecanismos que reduzam a fragmentação excessiva, aprimorem a governabilidade, fortaleçam a coerência programática dos partidos e ampliem a responsabilidade fiscal e administrativa dos eleitos. Quanto mais claros forem os vínculos entre voto, programa e execução de políticas, maior tende a ser a previsibilidade das decisões públicas.
A insegurança institucional não se manifesta apenas em crises explícitas. Ela se traduz também em custos econômicos silenciosos. A incerteza política eleva a volatilidade dos ativos, afeta a taxa de câmbio, interfere nas decisões de investimento produtivo e pode pressionar a curva de juros. Empresas adiam projetos, bancos ajustam critérios de crédito e famílias reduzem consumo durável. O resultado é um crescimento mais errático e dependente de ciclos de confiança.
É importante ressaltar que a estabilidade institucional não significa ausência de debate ou de alternância de poder. Democracias maduras convivem com disputas eleitorais intensas. A diferença está na robustez das regras e na previsibilidade dos compromissos básicos do Estado. Quando há consenso mínimo sobre responsabilidade fiscal, respeito a contratos, autonomia técnica de instituições-chave e cumprimento de marcos regulatórios, a alternância política não se converte automaticamente em choque econômico.
No caso brasileiro, o desafio é avançar em mecanismos que tornem o sistema político mais funcional e menos sujeito a ciclos de instabilidade. Isso passa por discutir o desenho do sistema partidário, os incentivos eleitorais, a coordenação entre Executivo e Legislativo e a qualidade da representação. Também envolve fortalecer instituições de controle e transparência, garantindo que a competição política ocorra dentro de limites institucionais claros.
A previsibilidade é um ativo econômico. Ela reduz o custo de capital, amplia o investimento e favorece ganhos de produtividade. Em um país que ainda enfrenta restrições fiscais relevantes e necessidade de crescimento sustentado, reduzir a incerteza institucional é uma agenda econômica, não apenas política. Reformas que fortaleçam as instituições podem contribuir para que os anos eleitorais deixem de ser sinônimo de volatilidade e passem a ser apenas o exercício natural da democracia.
Ao discutir desenvolvimento, não basta olhar para variáveis de curto prazo. É preciso enfrentar os fundamentos institucionais que sustentam decisões de longo prazo. Uma reforma política orientada ao fortalecimento institucional é parte dessa agenda. Não como solução isolada, mas como base para um ambiente mais previsível, seguro e propício ao crescimento econômico sustentável.
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