A reforma tributária costuma ser apresentada a partir de sua promessa mais importante: simplificar o sistema brasileiro de tributação sobre o consumo. Essa é, de fato, uma agenda necessária. O modelo atual é complexo, fragmentado, litigioso e impõe custos elevados para empresas, governos e consumidores. A criação da CBS e do IBS, regulamentada pela Lei Complementar nº 214/2025, busca reorganizar essa estrutura e substituir, gradualmente, a lógica atual por um modelo de IVA dual, com maior não cumulatividade e cobrança no destino.
Mas existe um ponto que precisa ser discutido com mais cuidado: simplificação futura não significa ausência de custo no presente. Para muitas empresas, especialmente as menores, a transição para o novo sistema pode elevar o custo de conformidade antes que os benefícios da simplificação apareçam de forma plena.
Esse custo de conformidade não se resume ao pagamento do tributo. Ele envolve tudo aquilo que a empresa precisa fazer para cumprir corretamente as regras: adaptar sistemas, emitir documentos fiscais com novas informações, revisar cadastros, treinar pessoas, conversar com o contador, simular impactos sobre preços, rever contratos e entender como a nova lógica tributária afeta sua relação com clientes e fornecedores.
Para uma grande empresa, parte desse processo é absorvida por departamentos internos, como fiscal, jurídico, controladoria, tecnologia e planejamento. Para uma pequena empresa, muitas vezes isso se transforma em custo adicional com software, consultoria, contabilidade e, principalmente, tempo do próprio empresário.
Esse é o primeiro ponto central. A mesma reforma pode ter custos proporcionais muito diferentes conforme o porte da empresa. Uma grande companhia consegue diluir o custo de adaptação em uma estrutura maior. A pequena empresa, por sua vez, sente esse custo de maneira mais direta. O dono do negócio, que já precisa vender, comprar, pagar folha, negociar com banco e atender cliente, terá também que compreender uma transição tributária complexa. O problema não é apenas pagar mais ou menos imposto, mas conseguir operar corretamente em um sistema que estará mudando.
A partir de 2026, começa a fase de teste da CBS e do IBS, com destaque nos documentos fiscais e adaptação gradual das obrigações. A transição completa do sistema atual para o novo modelo ocorrerá de forma progressiva até 2033. Mesmo que os efeitos financeiros sejam graduais, a adaptação operacional começa antes. Isso significa que empresas precisarão ajustar emissão de notas, cadastros de produtos e serviços, parametrização de sistemas e rotinas de conferência. Para negócios pequenos, que dependem de sistemas mais simples e de orientação externa, esse processo pode gerar incerteza e risco de erro.
Estratégia e competitividade além do imposto
Outro ponto relevante está no Simples Nacional. A reforma mantém tratamento favorecido para micro e pequenas empresas, mas isso não elimina a necessidade de avaliação estratégica. Empresas menores que vendem diretamente ao consumidor final podem ter uma realidade. Já aquelas que vendem para outras empresas podem enfrentar outra lógica. Em cadeias produtivas formais, a capacidade de gerar crédito para o comprador pode se tornar um elemento de competitividade. Ou seja, a escolha tributária deixa de ser apenas uma decisão fiscal e passa a ter implicações comerciais.
Esse ponto é especialmente importante para pequenos fornecedores de grandes empresas. A reforma tende a aumentar a exigência por documentação correta, regularidade fiscal, qualidade da informação e previsibilidade de créditos. O fornecedor mais barato pode não ser o mais eficiente se gerar risco tributário, dificuldade de creditamento ou insegurança na cadeia. Assim, pequenas empresas inseridas em relações empresariais mais sofisticadas terão que se profissionalizar mais rapidamente. Não basta entregar o produto ou prestar o serviço; será preciso entregar também conformidade, rastreabilidade e informação fiscal confiável.
A precificação é outro desafio. Muitas pequenas empresas formam preço com base em uma lógica bastante prática: custo de compra, margem desejada e preço aceito pelo mercado. Com a reforma, será necessário observar também o efeito dos créditos, a mudança no preço líquido, a capacidade de repasse e o impacto no caixa. Uma empresa pode manter o mesmo preço nominal e, ainda assim, ter uma margem diferente depois da mudança tributária. Também pode ocorrer o inverso: uma alteração aparentemente pequena na estrutura de créditos pode afetar a competitividade frente a concorrentes mais organizados.
Gestão de riscos e segurança contratual na transição
Os contratos também merecem atenção. Muitos contratos vigentes foram assinados com base no sistema tributário atual. Se a estrutura de tributos, créditos e custos muda, pode haver desequilíbrio econômico. Para empresas menores, o risco é maior quando há contratos de fornecimento contínuo, prestação de serviços recorrentes ou preços fixos por longos períodos. Se o contrato não prevê mecanismos de revisão, repasse ou comprovação de impacto, a pequena empresa pode acabar absorvendo perdas na margem. Nos novos contratos, será cada vez mais importante prever cláusulas de adaptação à transição tributária.
Isso não significa que a reforma seja ruim para as pequenas empresas. Pelo contrário, um sistema mais simples, transparente e menos cumulativo pode beneficiar todo o ambiente de negócios no longo prazo. Menos litígio, menos sobreposição de regras e mais clareza podem reduzir barreiras de crescimento e melhorar a produtividade. O ponto é que existe uma distância entre o desenho final desejado e o caminho necessário para chegar até ele. E é justamente nesse caminho que as pequenas empresas podem enfrentar mais dificuldades.
Por isso, a agenda de adaptação precisa começar agora. Pequenas empresas não precisam se transformar em especialistas em reforma tributária, mas precisam saber onde estão expostas. Devem conversar com seus contadores, atualizar sistemas, revisar contratos, entender se vendem para consumidor final ou para outras empresas, avaliar seus principais fornecedores e simular impactos sobre preço, margem e caixa. A preparação não precisa ser sofisticada, mas precisa ser antecipada.
A reforma tributária pode simplificar o sistema amanhã, mas exige capacidade de adaptação hoje. Para as empresas menores, esse intervalo entre a promessa de simplificação e o custo concreto da transição é o ponto mais sensível. Se a implementação for bem conduzida, a reforma poderá reduzir distorções e melhorar o ambiente de negócios. Mas, se o processo for tratado como algo distante ou apenas técnico, muitas pequenas empresas poderão descobrir tarde demais que a mudança tributária também é uma mudança de gestão, estratégia e competitividade.
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