A inflação não preocupa apenas quando aparece no preço do supermercado, no combustível ou na conta de energia. Ela se torna ainda mais perigosa quando passa a contaminar as expectativas sobre o futuro. É isso que os economistas chamam de desancoragem das expectativas inflacionárias. Em termos simples, ocorre quando famílias, empresas, investidores e analistas deixam de acreditar que a inflação voltará de forma consistente para a meta definida pelo Banco Central.
Esse debate voltou ao centro da economia brasileira. A meta de inflação é de 3% ao ano, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Mesmo assim, as projeções do mercado para o IPCA de 2026 subiram para 5,04%, acima do limite de tolerância, enquanto as expectativas para 2027, 2028 e 2029 permanecem acima da meta.
O próprio Banco Central tem sinalizado preocupação com a piora das expectativas em horizontes mais longos, especialmente 2028, justamente porque esses prazos deveriam ser menos afetados por choques temporários, como petróleo, câmbio ou alimentos.
A desancoragem é grave porque muda o comportamento econômico antes mesmo de a inflação efetivamente acontecer. Uma empresa que acredita que seus custos subirão no futuro tende a reajustar preços antes. Um trabalhador que espera inflação mais alta passa a negociar salários maiores. Um investidor que percebe risco inflacionário exige retorno maior para financiar o governo ou empresas. Aos poucos, a expectativa vira comportamento, e o comportamento ajuda a produzir a inflação que se temia.
Esse é o principal problema: inflação não é apenas um fenômeno estatístico. Ela é também um fenômeno de coordenação. Quando todos acreditam que o Banco Central conseguirá trazer a inflação para a meta, a própria formação de preços se torna mais disciplinada. Quando essa confiança se perde, cada agente econômico tenta se proteger individualmente. O resultado coletivo é pior: mais reajustes preventivos, mais indexação, mais juros, mais incerteza e menor crescimento.
Para o Banco Central, expectativas desancoradas tornam o trabalho mais custoso. Se a inflação corrente sobe por causa de um choque temporário, a autoridade monetária pode avaliar se deve reagir com maior ou menor intensidade. Mas, quando as expectativas futuras também se deterioram, o risco é que o choque deixe de ser passageiro e se transforme em inflação persistente.
Por isso, o Banco Central tende a manter juros elevados por mais tempo. A Agência Brasil registrou, com base na comunicação do Copom, que o custo de trazer a inflação de volta à meta é significativamente maior quando as expectativas estão desancoradas.
O efeito sobre a economia real é direto. Juros mais altos encarecem o crédito, reduzem investimentos, dificultam o financiamento das empresas e pesam sobre o consumo das famílias. Projetos produtivos ficam mais caros, decisões de expansão são adiadas e a economia passa a operar com menor dinamismo.
O combate à inflação, nesse contexto, deixa de ser apenas uma discussão monetária e passa a ser uma agenda de crescimento. Quanto mais desancoradas estão as expectativas, maior precisa ser o esforço de juros para restaurar a confiança, e maior tende a ser o custo em termos de atividade econômica.
Mas seria equivocado colocar toda a responsabilidade sobre o Banco Central. A ancoragem das expectativas depende também da política fiscal. Quando o mercado percebe dificuldade do governo em controlar despesas, cumprir metas e estabilizar a trajetória da dívida pública, cresce a dúvida sobre a sustentabilidade macroeconômica do país.
Essa dúvida aparece no prêmio de risco, no câmbio, nos juros longos e, por consequência, nas expectativas de inflação. Em economias emergentes, onde a confiança é mais sensível, o fiscal e o monetário caminham juntos.
O Brasil enfrenta justamente esse desafio. Não basta elevar juros para conter a demanda se, ao mesmo tempo, a política fiscal transmite sinais ambíguos sobre o futuro. Quando as despesas crescem de forma persistente e as metas dependem de receitas incertas, o mercado passa a questionar se o ajuste será duradouro. Essa percepção reduz a potência da política monetária, porque o Banco Central precisa compensar, com juros mais altos, parte da insegurança produzida em outras áreas da política econômica.
A desancoragem também afeta a vida cotidiana. Para as famílias, significa maior dificuldade de planejamento. A inflação corrói renda, reduz poder de compra e atinge de forma mais intensa os mais pobres, que gastam parcela maior do orçamento com alimentação, transporte e serviços essenciais. Para as empresas, significa incerteza sobre custos, margens e demanda. Para o setor público, significa aumento do custo de financiamento da dívida e menor espaço para políticas de investimento.
O ponto central é que expectativas são um ativo institucional. Elas refletem a confiança dos agentes econômicos na capacidade do país de cumprir regras, respeitar metas e coordenar políticas públicas. Quando esse ativo se deteriora, sua reconstrução exige tempo, disciplina e coerência. Não se recupera credibilidade apenas com discursos. Ela depende de decisões consistentes, previsibilidade fiscal, respeito à autonomia do Banco Central e compromisso claro com a estabilidade de preços.
A inflação alta é ruim. Mas a inflação esperada alta é ainda mais perigosa, porque entra nos contratos, nos preços, nos salários e nas decisões de investimento. A desancoragem das expectativas revela que o problema brasileiro não está apenas no índice de preços de um mês ou de um ano. Está na percepção de que o país ainda tem dificuldade de construir uma estratégia macroeconômica crível, capaz de conciliar responsabilidade fiscal, estabilidade monetária e crescimento sustentável.
Controlar a inflação, portanto, não é uma agenda contra o crescimento. É uma condição para que o crescimento seja menos volátil, menos dependente de estímulos artificiais e mais apoiado em investimento, produtividade e confiança. A economia brasileira precisa compreender que inflação fora da meta cobra uma conta elevada. Expectativas desancoradas cobram uma conta ainda maior.