Era uma vez um velho chinês. Viveu lá pelos anos um, dois, três, por aí, em uma miséria de fazer dó. Enquanto os mandarins cobriam-se de ouro e pedras preciosas, às custas do trabalho obediente e escravo do povo, o ancião ainda era obrigado a adorá-los.
Não tendo o que fazer, o velho, sem ter o que comer, beber e onde dormir, catou pedaços de cobre, pau e pedra e inventou a bússola, enquanto no Ocidente os navegadores portugueses, por exemplo, comemoravam a invenção da cadeira de balanço, objeto que até hoje não sabem operar.
Com a bússola, os chineses passaram a dominar os rumos exatos para invadir e apropriar-se das terras da Rússia, e demais vizinhanças, a ponto de ser, até hoje, um país continental. O velho doente e sem teto – tremendo grupo de risco – nem tinha nome.
Chamavam-no de Méiyõu rén (se fosse aqui seria Zé Ninguém). Mas seu invento devia ser comemorado. Afinal, os mandarins tinham que levar vantagem em tudo. Foi assim que em uma solenidade de comparecimento obrigatório, recebeu a medalha “Estrela Dourada de Céu Azul”, feita de lata.
Muitos discursos pintaram na área. E Méiyõu rén, sempre com fome, sem ter onde dormir e para onde ir. Não tendo nada a fazer, aproveitou pedaços de lixo e inventou a pólvora.
A China parou para nova homenagem. Mesmo recebendo a medalha “Imensa 'Cluz' de Lata”, como diria o ministro, os mandarins o deixaram com fome, sede e frio. Já ia compor uma canção baiana para Ivete Sangalo ocupar todos os palcos do mundo, quando achou melhor morrer a se submeter a isso. Não suportaria ver a cantora ocupar todos os lugares da mídia ao mesmo tempo, feito Deus.
Então.
Conheci um motorista que dirigia uma Kombi de reportagem, que não parava de falar enquanto dirigia. Defendia teses. Seu nome era Florisnélio, vulgo Astronauta, dado à velocidade que imprimia ao veículo.
Outro dia encontrei com ele. Não mudou nada, a não ser os cabelos, agora esbranquiçados. Na conversa, passou a defender médicos e profissionais de saúde que neste exato momento arriscam a própria vida com força, enfrentando esses imensos vírus e suas organizações.
É que os mandarins atuais se limitam a aplaudir os mártires. Ao invés de dar o tratamento compatível à equipe de saúde, dado a sua importância e sacrifício, muito pelo contrário, aumentam sim os próprios salários e seus penduricalhos vergonhosos.
Quanto aos médicos e o povo da saúde, se trabalham para o Estado, aposentam-se depois de 40 anos com R$ 5 mil por mês. Observem que mesmo antes desse pandemônio, sabia-se que toda, absolutamente toda consulta ou ato médico sempre foi uma grave situação de risco para a equipe de atendimento. Como o caso de Méiyõu rén.
Agorinha mesmo, povo e mandarins aplaudem, reconhecem a necessidade diante do medo, mas ninguém pergunta se os “velhos chineses” recebem um salário digno. Os aposentados não conseguem parar de trabalhar em seus consultórios ou outro emprego qualquer, senão morrem de fome. Alguns recebem medalhas, outros nem isso.
Nem se quiserem podem trabalhar sem risco. A possibilidade de contaminação faz parte do ato médico e da equipe. E para isso não precisa haver nenhuma epidemia sequer. A maioria, como o velho chinês, nem presta atenção sobre a importância que tem desde sempre. O principal título de doutor que recebem os médicos não é dado pela academia, é outorgado pelo povo. É sinônimo de médico.
Outro dia – contou Astronauta, “assisti a uma reunião da alta cúpula dos mandarins do país onde não tocaram no assunto da pandemia que está matando o povo.”
Será que todo poder corrompe? O poder de comprar e vender no serviço público, por exemplo? No meio deste maremoto, seres humanos roubam e matam. Se for mandarim não fica preso. Se for da plebe rude, foge ou deixam fugir. A ética é sempre ferida de morte.
Um governo desorganizado, incompetente, não transmite segurança para que haja obediência, muitas vezes necessárias, como algumas destas medidas antipandemia. A liderança de um país que não olha por onde anda, nem anda por onde olha, literalmente não fornece a segurança necessária para a obediência e organização, como acontece na Europa, por exemplo. Apenas gerar medo e pavor não é suficiente para a obediência civil. Não há confiança. Um governo que gera confiança no seu povo, provoca resultados científicos. Vide Portugal, França, Inglaterra etc.
Em matéria de presidência nesse nosso país amado, quanto mais muda, mais fica a mesma coisa. Tira proveito do poder e sugere, consciente ou inconscientemente, ao povo que faça o mesmo.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, recomenda que eu fique na minha.