“Reina calma em todo o país”. A Rádio Tupi interrompia a programação para transmitir esse aviso de 15 em 15 minutos. Minha mãe tinha uma amiga solteira e bela, ex-atriz de TV e escriturária do INPS. Do alto dos meus 17 anos, era apaixonado por ela. Morreu sem saber disso, bem feito.
Uma tarde lá em casa, nos intervalos dos avisos de “tranquilidade”, resolvi mostrar os meus dotes de Sherlock Holmes do Posto 6 de Copacabana: “Dona Maria do Carmo, se reina calma em todo o país, precisava dizer?”. Pra quê? Produziu-se uma gargalhada histórica. Fui humilhado na minha sapiência. Isso iria se repetir por toda vida, pelo menos na minha modesta opinião.
No dia Primeiro de Abril, a carrocinha da Kibon não estava lá na esquina da Duvivier, nem o colégio abriu as portas. Corri para o rádio, instrumento inventado para transmitir a novela Direito de Nascer, os programas Biscoiteste Duchen e Balança Mas Não Cai, que sumiram do ar, inclusive Albertinho Limonta, o personagem que ficou célebre por se formar em Medicina e não deixar a mãe, porque era negra, comparecer à sua festa de formatura.
Foi a primeira e última vez que vi minha jovem tia Marilene chorar.
A primeira impressão que tive ao chegar ao centro da cidade era a de que Fellini estava filmando ali. Centenas de ridículas madames chiquérrimas batendo panelas na Cinelândia, aplaudindo e cantando.
A primeira coisa que pensei era que o América finalmente havia se classificado para as quartas-de-final. Ledo engano. Logo deparamo-nos com muitos soldados, alguns tanques, uns puxa-sacos gritando ao megafone - não sei até hoje o quê. E nunca entendi porque as carrocinhas da Kibon sumiram de vez, com o que seria meu doce predileto, o Chicabon. Nunca mais comi doce com tanta vontade.
Falei para o amigo Paulo Eduardo: acho que não reina calma em todo país coisíssima nenhuma. Ele me alegrou falando: Parece que não vai ter aula.
Daí em diante, os figurantes da invasão dedicaram-se a fazer a única coisa que sabem fazer: nada! Mesmo sendo verdadeira a necessidade de cautelas, o importante era apavorar o povo confuso, independentemente de qualquer coisa, para dominá-lo.
O terror induz à covardia, diminui o raciocínio, ignora os valores éticos, a individualidade, estimula a submissão e o sempre presente puxa-saquismo de ocasião. Esta fórmula, respeitável público, eternizou-se no Brasil. Passou-se.
Ouvimos um dia pelo rádio Philips, que um certo deputado Márcio Moreira Alves denunciava qualquer coisa sobre aquela filmagem felliniana do centro da cidade. E por isso fora cassado. Nós da rua nem sabíamos o que era isso.
Naquela data o país estava sendo invadido por si mesmo. Havia uma professora que obrigava os desobedientes à tortura do “Ouve e Obedece”. Dizia assim: “Ouve e obedece aos teus superiores porque sem disciplina não pode haver equilíbrio. Quando te sentires atentado, refugia-te no trabalho como quem se refugia do demônio nas fortalezas do altar”. O demônio estava invadindo a democracia e a gente só notava um silêncio ensurdecedor (obrigado Antônio Carlos Leite).
Conforme a variação de humor da mestra, éramos obrigados a escrever até 100 vezes à cuspe e giz o “Ouve e Obedece” no quadro negro. Não precisava fazer nada para ser condenado pela megera. A ditadura já havia entrado nas escolas há muito tempo. Passou-se.
De repente estávamos no Colégio Estadual do Espírito Santo e reencontrei o meu mundo perdido. Participei do “Soerguer a famosa UAGES - União Atlética Ginasial do Espírito Santo”.
Vejam a ironia: o país se enclausurando e a UAGES soerguendo sob a presidência de José Carlos Corrêa. Lurdinha, Dodora, Julinho Prattes, Nildete, Toebaldo, Paulo Zero, Pimpão, Rogério Cachorro Doido, o outro Rogério, Telmo Bastos, Graça Ruy, Godô, Aprígio, Márcia, Rutiléa, Pedrão, Paulo Torre, Marlene Simonetti e grande elenco.
Editamos o recreativo carnavalesco tabloide a “O Independente”, que distribuíamos de sala em sala, inclusive em outros colégios. Nestor Cinelli, dono da Livraria Âncora, nos dava apoio, afeto e livros. Saudade. Também tinha a rádio "Voz da UAGES".
Enquanto isso, os golpistas e assassinos que invadiram o próprio país nem se davam conta. Impuseram a frase, em suas múltiplas diagramações, “Reina calma em todo o país”. Pois sim.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, dá um sorriso de ironia.