A âncora da CBN Vitória Fernanda Queiroz, o colunista Abdo Filho, o governador Renato Casagrande, a colunista Letícia Gonçalves e o colunista Leonel Ximenes em entrevista na Rede GazetaCrédito: Vitor Jubini
Mesmo já tendo pertencido aos quadros do PDT, um partido de esquerda, o ex-parlamentar adotou o bolsonarismo nos últimos anos e agora fala contra "a esquerda festiva", "os vermelhos" e ressalta que "nossa bandeira jamais será vermelha".
No primeiro turno, a estratégia de campanha foi falar para fora da bolha. Como Bolsonaro teve 52% dos votos no Espírito Santo, na segunda etapa a ideia é inflar a bolha bolsonarista.
Casagrande, por sua vez, tem "alertado" contra o que considera o despreparo de Manato e o "retrocesso" que ele representa.
Como não pode abrir mão dos eleitores bolsonaristas, o governador adota um tom conciliador, de união, que o impede de criticar o presidente da República para não melindrar o eleitor conservador capixaba.
"Sempre fui respeitoso com quem pensa igual e com quem pensa diferente. Vocês nunca me viram desrespeitando qualquer presidente da República. Posso discordar, discordo com respeito", afirmou nesta terça-feira (25), em entrevista a A Gazeta e à Rádio CBN Vitória.
"Tenho apoiadores que votam em Casagrande e votam em Bolsonaro. E apoiadores que votam em Casagrande e votam no presidente Lula", ressaltou.
"Vou somar esforços com qualquer que seja o presidente da República", complementou.
O socialista se apresenta como o único que pode se relacionar com Lula (PT) ou Bolsonaro, uma vez que Manato chama o petista de "ladrão" e usa adjetivos pouco abonadores.
"Vou levar valores para esse estado, não o debate ideológico. Não vou dividir esse estado entre esquerda e direita"
Renato Casagrande (PSB) - Governador do Espírito Santo e candidato à reeleição
Casagrande é um homem partidário, fiel ao PSB e pode ser descrito como um político de centro-esquerda. Ele declarou voto no ex-presidente Lula, mas, na campanha, praticamente ignora o petista.
Uma exceção é o futuro presidente da Câmara de Vitória, Armandinho Fontoura (Podemos), que está no palanque de Manato e de Bolsonaro.
"Tenho valores cristãos, valores de família, valores da administração pública", afirmou Casagrande.
Menções ao cristianismo e à família são caras ao bolsonarismo, ainda que, na maioria das vezes, isso se restrinja ao discurso, sem reverberação prática.
"Peço sua ajuda para a gente não ter nenhum retrocesso", alertou, mais uma vez, o governador.
O governador também passou a incorporar palavras que, até então, ao menos publicamente, não faziam parte do vocabulário dele.
Casagrande agora diz, frequentemente, que "bandidos não vão se criar" no Espírito Santo. E, em entrevista à TV Gazeta, afirmou que criminosos, se não fugirem do estado, "vão ser presos ou vão para o IML".
Questionado pela coluna nesta terça a respeito dessa mudança, digamos, semântica, o socialista saiu pela tangente.
"Surgiram suspeitas por que tantos eventos estão surgindo neste período", deixou no ar.
Na entrevista, foram lembrados o assalto a banco em Santa Leopoldina; os incêndios criminosos em ônibus em Vitória; o assassinato de dois policiais em Cariacica e o sequestro do filho de um empresário.
Tudo isso em meio à eleição. O governador diz que não há provas de qualquer motivação político-eleitoral por trás dos episódios, mas suspeitas, sim.
Ao explicar a afirmação em relação ao "IML", que soa similar ao bordão "bandido bom é bandido morto" dos bolsonaristas (que só querem a morte de alguns bandidos, frise-se), Casagrande afirmou o seguinte:
"O bandido, no enfrentamento com os policiais, corre risco de vida. Não queremos tirar a vida de ninguém. Só Deus tem essa permissão. Mas, no enfrentamento com a polícia, os policiais correm risco e os líderes criminosos também".
"Lamentamos muito a morte de dois jovens policiais. Usamos instrumentos tecnológicos novos e, em menos de 24 horas, todos os episódios foram resolvidos pelas forças policiais", destacou.
E é justamente a área da segurança pública, muito criticada pelo adversário, que o governador usa para fazer mais um "alerta".
"Os cariocas (na verdade, não só eles, mas os fluminenses) entraram numa aventura, elegeram o Witzel. A eleição do Witzel fez com que as milícias tomassem mais conta das comunidades ainda. Depois ele foi afastado do governo do estado", exemplificou, ao falar do ex-governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel.
"Não entre numa aventura. Conheça os candidatos e os projetos. Para construir é demorado, para destruir é num piscar de olhos". Essa última frase tem sido quase um mantra do socialista.
A pedra no sapato de Casagrande é o bolsonarismo.
Se a estratégia de Manato colar e as pessoas votarem nele apenas por ser o candidato do presidente da República, a comparação entre os nomes que concorrem ao governo do estado vai ficar em segundo plano, ou em plano algum.
Além disso, a campanha do socialista pode estar pecando em um ponto.
Manato admitiu ter se associado à Le Cocq, mas diz que fez apenas filantropia na entidade. "Nunca vi Le Cocq fazer filantropia", afirmou Casagrande, voltando ao assunto, na entrevista desta terça-feira.
De qualquer forma, é provável que parte dos eleitores nem lembre o que foi o esquadrão da morte.
PAULO HARTUNG
Por falar em Paulo Hartung, Casagrande disse, indiretamente, que não procurou o adversário em busca de apoio contra Manato.
"O ex-governador Paulo Hartung tem maturidade e responsabilidade para saber o que faz no processo eleitoral. Fica muito ruim, pelo tamanho da liderança dele, a gente ficar fazendo qualquer tipo de articulação", afirmou.
"Ele (Hartung) está acompanhando, naturalmente, e vendo o que está acontecendo", complementou.
Aliados de Hartung, entretanto, estão no palanque do candidato do PL, a exemplo do empresário Aridelmo Teixeira (Novo) e do ex-prefeito de Linhares Guerino Zanon (PSD).
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.