As contradições entre o discurso e a prática dos evangélicos no Brasil tem levado a uma condição de absoluta desmoralização do cristianismo de matriz protestante, o que tem provocado importantes cisões entre os diversos grupos que se autodenominam evangélicos, com suas diferentes designações e suas múltiplas sustentações doutrinárias e construções hermenêuticas as mais distintas.
As dissensões entre os evangélicos ficou mais nítida e exposta, recentemente, aos não evangélicos, quando preocupados em não deixar dúvidas quanto ao seu apoio ao atual governo, lideranças protestantes, se apressaram em divulgar comunicados afirmando que os pastores e os fieis que assinaram o pedido de impeachment do presidente da República, não representavam as denominações com as quais se referenciaram.
Em primeiro lugar importante registrar que aqueles que apuseram suas assinaturas na Ação com o pedido de impeachment não se manifestaram como porta vozes oficiais de suas denominações. Eles apenas assinaram como pessoas físicas se apresentando, a partir de um legítimo direito, como evangélicos dessa ou daquela denominação.
Até que sejam excluídos do rol de membros de suas igrejas, garantida a obediência ao devido processo legal de exclusão, de acordo com o Código de Processo disciplinar, podem eles apresentar-se como membros das denominações a que pertencem, não lhes podendo ser cerceado esse direito.
A partir dessas rápidas manifestações oficiais de tentativa de descredibilizar os postulantes à ação de impeachment ficou ainda mais clara a dimensão da cisão que vem sendo encoberta por tentativas de silenciamento dos divergentes, no interior das igrejas. Se essa preocupação não existisse ou tivesse uma magnitude irrelevante, não teriam sido tão ágeis em seus pronunciamentos.
A insatisfação eclesiástica com o apoio irrestrito das lideranças evangélicas, chegando às raias de adoração à Bolsonaro é tão grande no interior das igrejas que é necessário considerar os riscos de possíveis divisões de dimensão incalculável, o que preocupa muitas lideranças considerando o impacto financeiro que essas divisões sempre provocam.
O certo é que “em nome de Deus” temos visto serem cometidos os maiores absurdos e deslizes éticos, morais e jurídicos.
Apesar de seu crescimento exponencial entre as populações com baixa formação acadêmica e condições sócioeconômicas menos favorecidas, e utilizando-se do cabresto e da ameaça do inferno como forma de manter o controle sobre a conduta, o voto e a submissão de seus seguidores, líderes religiosos inescrupulosos têm alcançado seus propósitos malévolos tornando-se um risco à democracia e ao exercício legítimo e eficaz da fé.
Tradicionalmente divididos entre dois grupos aparentemente bem distintos, os protestantes considerados históricos e os neopentecostais, temos, na realidade, uma multiplicidade de subdivisões.
Apesar de aparentemente se constituírem, no imaginário social, como uma massa amorfa, continuam sendo absolutamente diferentes, com interesses e metodologias distintas.
Esses dois grupos, protestantes tradicionais e neopentecostais, inicialmente reconhecidos com suas notas características bem diferenciadas, apesar de se autodenominarem todos evangélicos, vivenciaram disputas de narrativas que os colocavam em polos bastante distanciados.
Os primeiros, tradicionais, criticavam duramente os segundos, relacionando-os a uma frágil doutrina, falta de preparo intelectual e a promessas inconsistentes de cura, com charlatanismos frequentes. Procuravam manter-se distantes, evitando serem confundidos.
Atrelados a uma tradição de ensino sólida, valorizavam uma formação acadêmica consistente e seminários de preparação de ministros com educação doutrinária sustentada, para além da bíblia e dos teólogos reformados, em disciplinas propedêuticas com estudo de história, filosofia, linguística, dentre outras.
Alegavam que o crescimento quantitativo de membros das igrejas neopentecostais não se sustentava em um aumento qualitativo. Afirmavam que faziam mais barulho com seus cânticos entusiasmados e “gritarias de aleluias e glória a Deus” do que realmente uma pregação sólida baseada na Bíblia.
Com uma postura, na maioria das vezes elegante, pareciam respeitar as regras do jogo civilizatório, jurídico e democrático.
Os segundos, os neopentecostais, criticavam duramente os primeiros, acusando-os de serem frios e de terem abandonado o carisma, a graça divina, o Espírito Santo, vivendo um cristianismo asséptico, almofadinha, e pregado para pessoas bem sucedidas ou que buscavam parecer de tal forma aos olhos da sociedade.
Com sua linguagem compreendida pelo homem comum do povo, e que guardava sintonia com as necessidades humanas e as lutas enfrentadas no cotidiano, a miséria, as doenças, o desemprego, a exclusão social, o tratamento injusto por parte dos patrões, os líderes neopentecostais, perceberam que o modus operandi deveria ser outro .
Ofereceram cura para agora, hoje, e não para o futuro distante, milagres, emprego, casamento, livramento do sofrimento terreno e não apenas livramento para as dores no céu.
O aqui e agora, prático, em cultos alegres com muita música, manifestações corporais, abraços, danças, liberdade para os oprimidos. Dentro dessa linha de raciocínio, de nada adiantam as pregações profundas que não encontram eco na vida do sujeito que sofre. Crescer é condição necessária. Quantidade de membros é valor cultivado e alimentado nas estratégias institucionais.
Narrativas e objetivos distintos, procedimento apropriado para cada grupo que se almeja alcançar com suas pregações. Para os segundos, o crescimento quantitativo desejado por todos. Para os primeiros a aceitação tácita de que em razão da opção pela defendida qualidade doutrinária, sobreviveriam com um crescimento pequeno e, às vezes, até negativo.
Vivendo assim ao longo das décadas, apontando os erros e os ciscos nos olhos uns dos outros, sem enxergar as próprias traves em seus olhos, algumas lideranças protestantes tradicionais e neopentecostais, foram construindo trajetórias distintas, que os colocavam no imaginário social, a uns como elegantes, civilizados e estudados e a outros como charlatães da fé.
O certo é que, independente das instituições ou da boa ou má fé de suas lideranças, homens e mulheres íntegros, sérios e comprometidos estiveram a vivenciar um cristianismo autêntico, caracterizado pelo distintivo do afeto e da amizade ao próximo e ao amor incondicional ao Deus cuja fé professavam.
Mas o cristianismo legítimo, marcado pelo amor, pela compaixão, pelos ternos afetos de um Deus amoroso e de um Cristo disposto a morrer pelo outro, foram sendo substituídos, por alguns, especialmente por algumas lideranças, por um cristianismo cruel, perverso, duro, discriminatório, que exclui ao invés de convidar ao aconchego.
De um cristianismo verdadeiro, que investe no outro, que busca oferecer as condições de sobrevivência àqueles menos favorecidos, que respeita as diferenças e acolhe os oprimidos, vivenciamos no Brasil de hoje, a um cristianismo que se associa aos opressores para tirar direitos dos pobres e dos trabalhadores.
De um cristianismo que liberta escravos, mulheres e pessoas de todas as raças e classes, que apazigua os conflitos e cura os feridos, a um cristianismo alimentado por lideranças que silenciam diante das violências contra mulheres, sob o argumento falacioso de que a submissão feminina – que defendem com maior veemência do que a própria cruz de Cristo – é uma condição obrigatória para o alcance dos céus.
De um cristianismo marcado pela distribuição dos bens aos mais necessitados, pobres, em uma diaconia individual e coletiva como serviço que se presta a Deus, não como condição forçosa e obrigatória para o alcance dos céus, mas como manifestação identitária do amor de Cristo na vida do cristão, vivenciamos lideranças evangélicas apoiando governos, independente de serem de direita ou de esquerda, que retiram dos pobres para alimentar a sanha incontrolável dos ricos por mais acúmulo de riquezas.
De um cristianismo marcado pelos gentis modos do Cristo neotestamentário, respeitoso e amoroso, capaz de chorar a morte de seu amigo Lázaro, vemos lideranças evangélicas, defendendo e se subordinando a políticas e a políticos de morte, que não se sensibilizam com a dor alheia e não valorizam as milhares de vidas perdidas, apenas para sustentar o gozo de alguém que se delicia doentiamente com a morte alheia e por isso se justifica com a defesa de medicamentos sem qualquer respaldo científico e de um movimento antivacina, criminoso e perverso.
De um cristianismo dependente apenas dos mandamentos de Cristo, todos eles de respeito à vida e à dignidade humana, a um cristianismo subserviente, bajulador, servil, incapaz de apontar os erros e os crimes dos governantes porque a eles se associa, por interesses espúrios, maquiados de defesa da família, da moral e da propriedade.
De um cristianismo respeitador das leis a um cristianismo violador de toda e qualquer norma que conflite com seus ilegítimos interesses.
De um cristianismo defensor da laicidade quando a Igreja Católica dominava o Estado a um cristianismo que desrespeita a liberdade religiosa e massacra os que pensam diferente, defendendo uma política que distribua os bens da terra somente para os irmãos ou para os iluminados pastores, e que destine ao fogo do inferno na terra os que consideram incrédulos.
De um cristianismo que defende uma ética moral ilibada como marca dos cristãos a um cristianismo que, utilizando-se do bode expiatório do comunismo, sacam do alforje todas as vezes que desejam alcançar seus escusos propósitos de colocar no poder políticos aos quais venderam sua própria dignidade, distorce a verdade associando os fiéis discordantes, à marcas que afirmam ser do “inimigo de nossas almas”.
Sob o discurso de que tem a Bíblia como sua fonte maior de fé e prática temos assistido a uma inversão absoluta da chamada ética cristã que foi tão importante na construção histórica de tantos documentos e normativas éticas e jurídicas conhecidas em todo o mundo.
Adeptos, os protestantes tradicionais, de uma ética aparentemente respeitosa e alinhada com a linguagem culta e sem uso de palavras de baixo calão, estão, muitos deles, em sua defesa inconteste de Bolsonaro, seu ídolo, mito adorado , associados a discursos de ódio e a um linguajar incompatível com a moralidade cristã.
O discurso do presidente, recentemente proferido em uma churrascaria, que faria corar de vergonha qualquer cidadão de respeito, e antes incompatíveis com o linguajar cristão, é aceito com naturalidade tendo sido incorporado, inclusive, ao linguajar de muitos que o consideram o “melhor presidente que o Brasil já teve”.
A destruição da Amazônia, com queimadas autorizadas e o uso de agrotóxicos que destroem a saúde humana, adoecendo o corpo antes considerado templo do Espírito Santo, é aceita e defendida por lideranças evangélicas que deveriam denunciar os desmandos e as injustiças perpetradas, sempre que o dinheiro, deus do nosso tempo, sobrepõe-se aos propósitos do Deus o qual professam.
Por amor ao poder e à suas falsas pautas moralistas, algumas lideranças evangélicas parecem ter vendido suas almas a outro deus que não aquele que dizem professar.
As homéricas dívidas de algumas igrejas com o fisco e as negociatas para manterem os privilégios de alguns poucos que se locupletam com o dinheiro dos fiéis, precisa ser objeto de denúncia e de irresignação dos evangélicos, tradicionais ou neopentecostais, que têm exercido uma fé genuína, verdadeira e alicerçada no amor de Cristo.
Cristãos sem Cristo e moralistas sem moral não podem continuar a macular a história de um cristianismo real, verdadeiro e de um protestantismo que denunciou os desvios da então Igreja Católica, convidando a todos a exercerem uma fé digna e respeitada, capaz de servir e de paradigma para o mundo.
Talvez seja hora de alguns cristãos evangélicos e cristãos pertencentes a outras denominações não protestantes como os católicos romanos, unirem suas forças aos não cristãos, praticantes de uma ética moral, de matriz democrática e justa, para denunciar o uso indevido do nome de Deus para o exercício de práticas imorais e incompatíveis, seja com a fé cristã, seja com qualquer outro sistema de crenças que se professe.
Por uma necessária aproximação entre ortodoxia e ortopraxia no meio evangélico brasileiro. O discurso e a prática dos evangélicos no Brasil precisam guardar coerência com a fé que dizem professar.