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Política e Saúde

Doria x Bolsonaro: a arrogância como política e a humilhação como castigo

Com a Coronavac, João Doria humilhou Bolsonaro e fez o lançamento de sua campanha à Presidência da República utilizando-se da vulnerabilidade do cidadão comum diante da pandemia

Públicado em 

19 jan 2021 às 02:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

O governador João Dória em coletiva sobre a aprovação da vacina da Covid-19
O governador João Doria em coletiva sobre a aprovação da vacina da Covid-19, em São Paulo Crédito: Romeo Campos/Futura Press/Folhapress
O espetáculo montado pelo governo de São Paulo para a cerimônia de vacinação da primeira pessoa a ser imunizada contra a Covid-19 no Brasil tem muito a nos dizer acerca do caráter dos nossos governantes e da crença esperançosa que tão bem parece caracterizar o cidadão brasileiro.
São emblemáticas a emoção e a alegria que tomaram conta dos brasileiros no domingo 17 de janeiro, com a chegada da vacina ao braço de uma mulher negra em um país machista e racista, de uma enfermeira em um país que hierarquiza profissões dando a elas menor ou maior valor social dependendo dos estereótipos que sobre elas recaem e de uma mulher de condição econômica menos favorecida em uma realidade altamente discriminatória de classe.
Escolhida, certamente a dedo, com competência e técnica mercadológica primorosa, Mônica Calazans, enfermeira do Hospital Emilio Ribas, encarna muito bem a lógica que irá sustentar a manipulação e o jogo político nas eleições de 2022.
João Doria faz o lançamento de sua campanha à Presidência da República utilizando-se da vulnerabilidade do cidadão comum diante de uma pandemia tão cruelmente potencializada por Bolsonaro e sua trupe. Queremos vacina e quem se apresenta como tendo competência para gerenciar de forma objetiva e efetiva o processo, parece ser Doria, o salvador da Pátria, nosso super-herói que com destemor vence o bandido e nos traz a salvação, a possibilidade da vida, que se não é eterna como a ofertada por Deus no paraíso é, pelo menos, mais longa do que a morte anunciada com alegria e frieza pelo atual presidente.
À gratidão com o retorno da esperança se pagará com votos em 2022 a quem parece nos indicar que ainda há tempo para viver e que poderemos não engrossar a lista dos mais de 200 mil mortos que já ocuparam os cemitérios das cidades.
Viva Doria cantarolam alguns, parecendo se esquecer do histórico pregresso do político que até então governou para uns poucos, deixando a ver navios a grande massa de despossuídos do Estado de São Paulo.
Viva Doria que, com esperteza, vivacidade e astúcia, conseguiu driblar Bolsonaro e vacinar a primeira pessoa no Brasil contra Covid-19 tirando o brilho e os holofotes que o presidente e o ministro queriam para si.
E o presidente da República que sempre consegue reverter tudo que era negativo em suas manifestações, tornando-as em algo positivo, jogando com as palavras de forma a manipular a inteligência de seus adoradores e dos mais desavisados, nesse caso, ficou como um menino de quem tiraram o doce e desmascararam a fraude, a tramoia e a tentativa de transformar o mal que se deseja em aparente bem que, no fundo, esconde a crueldade que se desejava cometer.
A arrogância precede a vergonha, a humilhação e o opróbrio. A altivez, o orgulho ostensivo, o desprezo pela inteligência alheia, são caminhos pavimentados para o rebaixamento.
A presunção, visão que alguém tem sobre si mesmo e sua capacidade, para além do que é real, constitui-se caminho certo para a desonra pública, o vexame e o demérito.
Talvez tenha chegado a hora de Bolsonaro provar o sabor amargo de se sentir anátema, o orgulho ferido, o brio comprometido, a incompetência exposta ao mundo, a crueldade desnudada e o embaraço de ser humilhado por seu maior opositor da atualidade, João Doria.
Cabe a nós a prudência de não nos tornarmos nem ingênuos, enamorados de um anti-herói como Doria, com poucos predicados reais a qualificá-lo a conduzir os destinos do país, e nem arrogantes o suficiente para acharmos que nos livramos do salteador que tomou de assalto a nação e que hoje nos parece vencido.
O melhor mesmo é não menosprezar o vencido. Poderá ele renascer das cinzas com todos os seus tentáculos, fortalecido pela força da caneta que nomeia para os cargos os desejosos de poder ou que libera recursos para os sedentos dos recursos públicos, que nunca existem para suprir as necessidades dos que de fato deles dependem mas que sobejam para encher os cofres dos sanguessugas do Estado que se alimentam da miséria, da dor e da vida daqueles que não consideram dignos de viver.

Elda Bussinguer

Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitária

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