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Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e coordenadora do doutorado em Direito da FDV

Adiar o Enem: uma questão de saúde pública e responsabilidade social

Mesmo com a pandemia fora de controle no país, Exame Nacional do Ensino Médio está programado para acontecer nos próximos dias 17 e 24 de janeiro

Publicado em 12/01/2021 às 02h00
Estudante fazendo prova
Enem: quase 6 milhões de jovens se inscreveram para as provas. Crédito: jannoon028/Freepik

Se alguma medida urgente não for tomada que obrigue o governo a adiar o Exame Nacional do Ensino Médio ( Enem)programado para acontecer nos próximos dias 17 e 24 de janeiro, teremos um dos maiores crimes cometidos pelo poder público, facilmente comparado com um genocídio em massa da juventude brasileira.

Esperar bom senso, racionalidade, competência, humanidade ou qualquer outra virtude nobre de representantes deste governo é acreditar em utopia contra todas as evidências e estatísticas que nos deixam demonstrado o projeto cruel que nesses 2 anos levou o país à destruição de sua credibilidade e à morte de duas centenas de milhares de pessoas.

Alimentados pelo sonho de conquistar um lugar nas universidades, os quase 6 milhões de jovens inscritos no Enem se encaminharão, no dia 17 de janeiro, para um encontro que poderá ser determinante para seu próprio futuro e para o futuro de suas famílias, com impactos incalculáveis.

Aglomeração capitaneada pelo governo federal, o Enem poderá provocar um extermínio comparado com os maiores crimes da humanidade. 

Esses jovens, conduzidos ao Enem, como Isaque foi conduzido por seu pai Abraão ao local onde seria sacrificado, ao retornarem às suas casas, na sua maioria pobres e sem qualquer condição de salubridade, estarão levando, talvez, o vírus, disseminando uma doença que já se encontra fora do controle das autoridades sanitárias.

Não temos como avaliar as consequências dessa trágica decisão governamental, mas estamos todos, ou quase todos, convencidos de que quem nos governa o faz fora de qualquer projeto de justiça, de busca do bem comum e de responsabilidade com a vida e com a saúde das pessoas.

Milhares de jovens aglomerados nos transportes públicos se deslocarão para os locais de provas, carregando consigo o projeto de vida com que tanto sonharam, suas esperanças e seus devaneios, frustrados pela desigualdade resultante do acesso a um ensino fundamental e médio de qualidade.

Conscientes da importância do Enem para suas vidas, não conseguirão opor resistência ou deliberadamente faltar ao certame. Sabem o que cada ano perdido significa para seu futuro e não têm, portanto, condições para a tomada de uma decisão autônoma.

Preferirão correr o risco sem condições de pensar em todos aqueles que junto com eles poderão sofrer as consequências da irresponsabilidade e do crime perpetrado pelos representantes do governo federal, notadamente o presidente da República, o ministro da Educação e o presidente do Inep.

Estarmos vivenciando o período mais crítico da pandemia, com os resultados das festas de final de ano e do período de férias, com milhares de pessoas aglomeradas pelas praias do nosso extenso litoral, com os leitos de UTI sobrecarregados e os profissionais de saúde com suas energias esgotadas, sua moral devastada ao perceberem a falta de civilidade de tantos que, deliberadamente, optam por colocar suas vidas e as vidas dos outros em risco, já seria, por si só, motivo mais do que suficiente o adiamento do Enem.

Mais de 200 mil mortos a nos lembrar a tragédia que se abateu sobre nós e ainda temos que nos lamentar por nossa incapacidade de nos movermos contra um governo fascista, negacionista, conduzido por falsos cristãos, com suas pautas comportamentais, mas, na realidade, pouco afeitos à verdadeira moralidade e justiça.

Como se haverá de se justificar o pastor Milton Ribeiro, ministro da Educação, suposto arauto do amor divino pela humanidade, quando se encontrar com o seu Deus e for por Ele cobrado pelas milhares de vidas que ajudou a conduzir à morte no Enem que se recusou a adiar? Seja por moto próprio, seja por submissão a Bolsonaro, o ministro foi irresponsável e conivente com o projeto presidencial.

Que moralidade sustentará qualquer pedido para que jovens com sintomas ou com exames positivos para Covid-19 permaneçam em suas casas sem se dirigirem aos locais de provas, quando aqueles que deveriam dar o exemplo decidem seus destinos protegidos em suas casas, tomando decisões por videoconferência e com assinaturas eletrônicas emitidas por suas assistentes, algumas delas também seguras nas sofisticadas redomas dos gabinetes ministeriais?

Como decidirão os juízes quando confrontados com os argumentos da Defensoria Pública da União com seu pedido de adiamento do Enem, todo ele baseado em fundamentos jurídicos e científicos sólidos e que agridem a nossa consciência, tantas vezes acomodada e já cauterizada pelas seguidas e sistemáticas medidas criminosas de um governo que tem conduzido à morte milhares de pessoas sem que oponham resistência para além dos discursos indignados?

Adiar o Enem é medida sanitária e preventiva contra um crime anunciado, gozo de tantos que têm demonstrado absoluto prazer em ver morrer a tantos.

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