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Religião

Temos que abandonar o modo como endeusamos nossos líderes religiosos

Padre  Robson ensinou como pregador e deve nos ensinar com suas fraquezas, assim também a pastora Flordelis. O que eles fizeram não deve nos fazer menos religiosos, menos crentes, mas eles devem transformar a nossa maneira de sentir o divino

Públicado em 

27 ago 2020 às 05:00
Vinicius Figueira

Colunista

Vinicius Figueira

A deputada Flordelis e o marido Anderson do Carmo
A deputada Flordelis é acusada de mandar matar o marido Anderson do armo Crédito: Reprodução/Instagram
Há quase uma semana, um padre católico vem ganhando as manchetes dos jornais, gerando escândalo para alguns e “diminuindo a fé” de outros. O padre Robson de Oliveira quem vem sendo acusado e investigado por uma série de problemas que vai do próprio comportamento à insuficiência de gestão dos recursos recebidos dos devotos do Pai Eterno.
Na última semana, o religioso foi invadido pelo Ministério Público e teve todos os seus pertences confiscados. Ainda assim, há uma pastora que também está em evidência nas pautas dos jornais por arquitetar o assassinato do marido. Ela se chama Flordelis. A pregadora também se esqueceu da sua função e agiu com o que havia de pior na sua humanidade.
Bom, de lá pra cá, as redes sociais ficaram empesteadas de juízes, para variar, capazes de sentenciar a atitude do padre e da pastora. Uns não se importando com as manchas da suas respectivas imagens, e outros manchando mais. Por outro lado, temos um grupo de pessoas decepcionadas com o sacerdote e com a pastora, outros atrelando isso ao motivo pelo qual não vão a Igreja. Em meio a essa trincheira de opiniões, e em meio ao silêncio que impera entra os achismos e as provas, podemos nos perguntar: o que o padre  Robson e a pastora Flordelis podem nos ensinar?
Nossa fé precisa crescer muito. Não faz sentido ser cristão e seguir um padre, um pastor. Não faz sentido ser cristão e transformar padres e pastores em salvadores da pátria. É urgente mudar a nossa forma de experimentar e exprimir a fé. Quanto mais materializarmos em pessoas o motivo da nossa crença, mais seremos escandalizados, porque as pessoas sempre decepcionam.
Daí a necessidade de seguir menos os líderes e perseguir mais a espiritualidade. Frei Betto ousa dizer: “A religião é uma instituição; a espiritualidade, uma vivência. Na religião, há disputa de poder, hierarquia, excomunhões e acusações de heresia. Na espiritualidade, predominam a disposição de serviço, a tolerância para com a crença (ou a descrença) alheia, a sabedoria de não transformar o diferente em divergente”.
Precisamos separar as coisas para não nos decepcionarmos. “A religião culpabiliza; a espiritualidade induz a aprender com o erro. A religião ameaça; a espiritualidade encoraja. A religião reforça o medo; a espiritualidade, a confiança. A religião traz respostas; a espiritualidade suscita perguntas. As religiões são causas de divisões e guerras; as espiritualidades, de aproximação e respeito”, afirma Frei Betto.
Talvez você esteja se perguntando: então, tenho que abandonar a religião? A resposta é não. Nós precisamos da religião porque ela nos faz pertencentes a uma ligação (religare) com o sagrado. Talvez, sozinhos, não daríamos conta de transcender. O que precisamos abandonar é a maneira como lidamos com a religião e o modo como endeusamos os nossos líderes religiosos. Pe. Robson ensinou como pregador e deve nos ensinar com suas fraquezas, assim também a pastora. O que eles fizeram não deve nos fazer menos religiosos, menos crentes, mas eles devem transformar a nossa maneira de sentir o divino.

Vinicius Figueira

É publicitário. Uma visão mais humanizada dos avanços tecnológicos e das próprias relações sociais tem destaque neste espaço. Escreve às quintas

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