Na última terça-feira (4), circulou diante da frágil saúde de Pedro Casaldáliga, bispo católico de São Félix do Araguaia, que Dom Pedro havia morrido. Então foi noticiado: “Morre dom Pedro Casaldáliga”. Logo depois, a notícia foi desmentida. Mas, por ora, a fake news pode servir para nós como uma reflexão profunda sobre a vida e o legado desse homem que gastou a vida defendendo os indígenas, os pobres e as causas da vida. Quem se dedica a emprestar as mãos para cuidar do outro não morre.
O título desse artigo parece assustar e até soa como petulante, porque crescemos sabendo que todos vamos morrer. Na verdade, não são todos os que morrem, mas todos terão o corpo falecido. Nesse conceito, reside formas de se pensar a eternidade: o amor que distribuímos aqui tem condições de nos eternizar tanto aqui quanto na outra dimensão da vida que se projeta após o falecimento do corpo.
Pedro Casaldáliga já nos ensina isso. A sua voz está embargada, os pulmões precisam de ajuda para cumprir com o processo respiratório, as mãos trêmulas do Parkinson sinalizam a fragilidade acentuada. Hoje, Pedro é uma vela que vai se consumindo, mas nunca se apagará.
Pedro, desde que chegou ao Brasil, ao lado dos padres espanhóis, se envolveu com a defesa de povos indígenas, ameaçados pela violência dos conflitos agrários e pela expansão dos latifúndios na região. Além da atuação pastoral, Casaldáliga é conhecido pela produção literária, tanto de poesias quanto de manifestos, artigos, cartas circulares e obras com cunho político ou de temas ligados à espiritualidade, editadas e publicadas no Brasil e no exterior.
Pedro, que também teve sua vida ameaçada muitas vezes, já diz com envergadura e poeticamente: “Tenho fé de guerrilheiro e amor de revolução e entre Evangelho e canção sofro e digo o que quero. Se escandalizo, primeiro queimei o próprio coração ao fogo desta Paixão, cruz de eu mesmo Madeiro”. E por fim ele mesmo realça: “No final do meu caminho, me dirão: E tu, viveste? Amaste? E eu, sem dizer nada, abrirei o coração cheio de nomes”.
O bispo dos índios, dos pobres, da democracia, já fragilizado no leito de um hospital, nos recorda que quem faz a opção pela defesa da vida não morre nunca; Quem faz a opção que leve ao corpo correr risco de vida, não morre nunca; Quem escolhe levantar a voz diante da injustiça, não morre nunca. Podemos receber em algum momento uma nota de falecimento do corpo de Pedro Casaldáliga, mas jamais teremos uma nota da morte desse homem que viveu deixando rastros de vida e, por isso, não morrerá!