Na última terça-feira (28), a "Folha de S. Paulo" noticiou que as lives no Brasil estão perdendo audiência, segundo as análises do Google Trends. Segundo o mesmo jornal, o interesse pela atividade está quatro vezes menor. Marília Mendonça chegou a compartilhar na rede social que a culpa da queda na audiência se deve à mudança de comportamento das pessoas para com a quarentena. E agora: saturação ou mudança de comportamento para com a quarentena? O que podemos tirar disso?
Há um tempo, escrevíamos sobre o novo normal, as mudanças e os cenários que a pandemia seria capaz de desenhar no discorrer da nossa história. Aqui, já podemos perceber alguns sinais. Tivemos um inflação e até congestionamento no ambiente virtual, mas agora chegamos a um começo de dispersão. O movimento está sendo contrário. Mas será um movimento em direção a um novo normal ou ao antigo normal?
Parece que esse queda de audiência revela aquilo que conversávamos a umas quintas-feiras atrás: estar no ambiente virtual foi a forma que encontramos de estar junto quando não podíamos estar perto, mas o sentimento que completa o humano é sempre o de estar humanamente junto. Somos seres de relação e não somos capazes de nos transformamos em digital por muito tempo. Somos humanos “encarnados”.
Por outro lado, vivemos sim a saturação ou, se preferir, já sentimos os efeitos narcotizantes das lives, como diria a teoria da comunicação. Tudo o que narcotiza, desencanta e nos leva a uma busca do diferente, de novas experiências. As lives evidenciaram isso: num dado momento da pandemia, elas encantaram e detiveram atenção; agora, não mais. E isso não significa que as lives deixaram de ser estratégias ou ferramentas. Elas simplesmente revelaram a sua potência e que, em outro momento, podem continuar a ser útil na comunicação.
Sem dúvida, o rumo que estamos tomando não é outro senão em direção a esse novo normal que passa pela busca de novas experiências ainda que sob os limites do distanciamento. Mas somos todos sedentos de novidades e novas frequências. O mundo digital, ao oferecer tantas variedades nesse mundo moderno, também criou um comportamento de busca por experiências sempre novas, novas dinâmicas, novos jeitos. Talvez, eu diria, o mundo digital tenha criado reações até contra si mesmo. Mas e agora?
Agora é hora de inventar e criar novas formas de relacionamento e de audiência. Já ficou claro que nem tudo consegue permanecer digital, embora nesse momento tenha ganhado relevância. Talvez a pandemia tenha nos levado ao nosso limite digital. Como humanos, o show presencial, a missa ou o culto, a terapia, o café, tudo o que envolve presença envolve um dos nossos maiores sentidos, o tato.
Somos carentes de tatos, de tocar, de sentir o outro através da sua presença, logo parece que essa queda de lives já deve despertar os segmentos comerciais para a criação de dinâmicas novas, do estar junto na presença do outro quando a pandemia passar. Quanto à rede social, existirá e se encarregará de ser espaços de postagens que evidenciam o abraço, o sorriso, a presença do outro.