Essa é a pergunta que volta e meia estamos nos fazendo aqui em casa. Só para contextualizar, eu e a minha esposa Fernanda moramos em Iconha, no Sul do Espírito Santo. Sim, moramos na cidade mais atingida pelas enchentes no último janeiro. Ah, e depois em março tivemos uma outra. Sobrevivemos! Logo em seguida, somos surpreendidos com a pandemia. Esta semana, ligamos a TV e vimos o Sul do país arrasado por um furacão.
Acredito que este ano não assume um caráter ou característica apocalíptica, como muitos estão dizendo. Nem acredito que Jesus está voltando, aliás, não consigo imaginar alguém que ama tanto a gente voltando ou querendo nos destruir com uma tragédia. Isso é só um pensamento, capaz de respeitar o seu que pensa desse jeito. Por ora, acredito que 2020 será um ano autor de muitas ruínas, mas, ao mesmo tempo, de muita reconstrução.
Quando veio a enchente, atingindo tão fortemente nosso Estado, a princípio, parecia que a água também havia levado nossa esperança, mas não! Ela ficou e nos deu força para reconstruir. Depois, em março, uma outra enchente nos atingiu por aqui e levou muitas reconstruções. Mas também não conseguiu levar nossa esperança. Reconstruimos tudo de novo e seguimos reconstruindo. Acreditem que nosso Iconha aos poucos está tomando formas até melhores que antes.
Veio o vírus, baixou as portas do comércio, trancou as portas de nossas casas, e passamos a ver o mundo lá fora pela janela. Há os que acreditam no vírus, se cuidam e têm medo de contaminar as pessoas; já outros não acreditam e, por isso, não aceitam o novo normal, querem levar o normal de antes e, assim, são autores da arrogância capaz de infectar a muitos e trucidar outros.
Agora, do Sul ao Sudeste, um furacão bem estranho nos visita. Arranca casas, destrói cidades, assassina pessoas. Como o próprio nome nos diz, furacão faz nascer o termo fúria, que não precisa de muitos minutos para também arruinar um cenário de cidade, uma vida humana, uma empresa, e por aí segue. Não tá fácil. E continuamos a não entender esses sinais, por isso transferimos a responsabilidade para o apocalipse.
Em cada pedaço do país há um sinal. No Sudeste, a enchente alagou cidades inteiras e, assim, fomos convidados a tirar uma lição da lama. No Norte, a pandemia evidenciou uma ausência de estrutura mínima na sociedade, por isso, criou trincheiras de mortos pela Covid-19, e assim fomos convidados a pensar que a política precisa ser diferente e precisa superar desafios essenciais. No Sul, um furão chega com tudo e arrebenta cidades, quase que inteiras, causa mortes e deixa um cenário avassalador, e assim somos convidados a tirar lição do vento.
Estamos apenas em julho, e já entendemos que a lama, o vírus e o vento são sinais - não apocalípticos -, que nos permitem compreender, ou nos fazem compreender que somos, puramente, frágeis e não podemos tratar tudo que vira pó como eterno. Pode ser que até dezembro essa narrativa ganhe mais formas, mas pelo menos três lições já temos para contar aos nossos filhos sobre 2020.