Estamos vivendo um tempo devastador, sinistro e caótico em todo o mundo com o advento do coronavírus. Entre mortos e infectados, uma nação rendida e amedrontada com tudo o que pode acontecer. Mas, em meio a esse cenário, temos um outro vírus infectando humanos e matando a esperança no humano. Trata-se do vírus da indiferença que ataca governos e tem como sintomas a histeria; ataca brasileiros que tem como sintomas o acúmulo exacerbado de coisas; e ataca o sentimento humano que gera o sintoma do “que ele se vire”.
É notório acompanhar nos depoimentos do presidente da República o seu comportamento enfadonho e, por vezes, arrogante, quando o assunto é coronavírus. Pra ele, o vírus que está danando tudo não é isso tudo. Tem interesses, tem estratégias, tem segundas intenções da imprensa, enfim.
A indiferença de quem deveria olhar com preocupação para a situação é gigante. Para ele, fazer uma selfie com manifestantes e superar as medidas que o seu próprio governo criou para conter o avanço da desgraça é mais importante porque alimenta o seu ideal político programático. Indiferença!
Mas, por outro lado, também temos pessoas com atitudes desumanas se dirigindo ao supermercado para estocar, lotar a dispensa e garantir a sobrevivência e, assim, sendo incapaz de pensar na comida que pode faltar para o outro. Aliás, para esses, o outro pode morrer de fome, o outro pode sofrer, o outro pode penar, meu bem-estar já foi garantido. Indiferença!
Por fim, temos os alheios aos sentimentos. Esses estão fundados na rocha do eu, do poder, da autossuficiência, parece que o coronavírus não chega lá, então se acham no direito de compartilhar a sua verdade, disseminar a falsidade, usufruir do momento para tirar benefícios próprios, ou ainda usar da desgraça para fazer graça. Indiferença.
A indiferença tem uma capacidade absurda de nos libertar, por exemplo, do julgamento do outro, do que ele acha de mim, mas ela também pode ter uma capacidade absurda de nos encarcerar em nosso "eu" e nos transformar em verdadeiros desumanos. A indiferença é um vírus que nos cura, mas é um vírus que nos mata por dentro. E, a partir dentro, mata os que estão fora, ao nosso lado, o nosso próximo e por isso gera o caos da insanidade.
Martin Luther King já dizia: “O que me assusta não são as ações e os gritos das pessoas más, mas a indiferença e o silêncio das pessoas boas”. Por isso, se a indiferença reina como um vírus maligno, uma voz bem levantada pode ser capaz de combater tal mal. Se o "Corona" mata pessoas, a indiferença assassina a esperança de quem luta para salvar a vida que esse vírus tanto esmorece.