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Brasil não está preparado para coronavírus, mas SUS é nossa maior arma

Há algo para se orgulhar: apenas o SUS tem a capacidade de prestar atendimento a um número de pessoas adoecidas que talvez alcance patamares nunca vistos

Publicado em 18/03/2020 às 14h00
Atualizado em 18/03/2020 às 15h09
É no sistema público de saúde que temos a maior força de trabalho em saúde do país. Crédito: Freepik
É no sistema público de saúde que temos a maior força de trabalho em saúde do país. Crédito: Freepik

Provavelmente o Brasil viverá nas próximas semanas um dos maiores desafios em termos de saúde pública de sua história. Que essa crise sirva, ao menos, para que nossa população não caia mais em discursos falaciosos que buscam deslegitimar o SUS como um dos pilares de nosso projeto civilizatório.

Os brasileiros sabem bem o que é viver sob a ameaça de doenças que teimam em mostrar a cara diante de nossos fracassos civilizatórios. É difícil encontrar alguém que não saiba minimamente o que é malária, febre amarela, doença de Chagas, dengue, tuberculose e tantas outras doenças que, em alguma medida, afetam a todos e deixam cicatrizes profundas na vida dos mais vulneráveis.

Agora bate à nossa porta um novo vírus. Na maioria dos casos, sua repercussão na saúde é leve. Mas sua elevada capacidade de transmissão de pessoa a pessoa faz com que o número de acometidos seja grande o suficiente para produzir um curto-circuito social. O drama é de tal magnitude que, esperamos não se concretizar, a Itália cogita recusar atendimento a pessoas com mais de 80 anos.

Até agora, os países que apresentaram os melhores resultados no combate ao Covid-19 foram aqueles que adotaram medidas intensivas de testagem em massa das pessoas e restrições ao convívio social, fechando escolas e serviços não essenciais e impedindo a livre circulação de pessoas.

Tais medidas não são isentas de críticas, devido ao seu caráter autoritário que pode dar margem a abusos de poder, exclusões e estigmas que afetam grupos sociais que poderão sofrer de forma mais aguda as consequências da epidemia.

E o Brasil? A pergunta que não quer calar é a se estamos preparados para enfrentar o problema. A respostas me parece óbvia: não, não estamos preparados. Ninguém no mundo está. E nossas mazelas sociais colocam ainda mais dúvidas sobre o comportamento do vírus nestes trópicos e nossa capacidade de resposta.

Estratégias de lockdown aqui não são mais complexas que em Hong Kong. Mas há algo do qual o Brasil precisa se orgulhar e que será nossa principal estratégia de combate: nosso tão combalido SUS. Cronicamente sucateado, o SUS é a principal política de proteção social deste país.

Já passou da hora de entendermos que, em um país tão desigual, a ausência de um sistema público de saúde universal é sinônimo de caos e barbárie. Apenas o SUS tem a capacidade de prestar atendimento a um número de pessoas adoecidas que talvez alcance patamares nunca visto. Se precisarmos de testes diagnósticos, é o SUS que os produzirá.

Há algo que será central nessa epidemia e que o SUS traz como seu pilar. É no sistema público de saúde que temos a maior força de trabalho em saúde do país. Estão em Unidades Básicas de Saúde, hospitais e laboratórios públicos as pessoas que, mesmo com baixos salários, segurarão o rojão.

Veremos em breve que, mesmo nas condições mais adversas, será nas pessoas que constroem diariamente nosso sistema público de saúde que encontraremos as principais respostas para a epidemia. É nosso dever valorizá-las.

* O autor é médico e professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes)

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