A humanidade já viveu intensos momentos de pandemia. Estudamos nos livros de história: gripe espanhola, “peste negra”, “peste bubônica”, “cólera”, entre outras. A cada evento desse, a humanidade viveu ou teve que se ajustar ao pós. Assim também será com o coronavírus. Mas a pergunta que perpassa nossas mentes todos os dias é: como será depois disso tudo?
Pode parecer uma pergunta futurista, ou até ansiosa, mas não tem como fugir da questão. Isso não é novidade. Eu lia no "El País", nos últimas dias, que as mudanças não estão pré-definidas, mas estão em disputa: pode ser Gênesis ou Apocalipse (ou apenas mais da mesma brutalidade), escreve Eliane Brum. Eu acrescentaria aí: também um Êxodo.
O Gênesis é sempre uma possibilidade de recriar, de recomeçar, de sentir de novo em nossas narinas o “hálito da vida”. Aliás, pelas poucas notícias que estamos vendo, sobretudo na Itália, a natureza já vive um gênese, afinal, águas estão mais cristalinas, o ar está mais limpo na Europa, tudo porque o homem que fora criado para cuidar da natureza, ou se preferir Paraíso, está “preso” em isolamento social. Há quem diga que a natureza está se refazendo.
Por outro lado, temos o Êxodo. A palavra sempre expressa uma saída, mas uma saída depois de um exílio. Mas nosso exílio não faz jus à realidade nua e crua da palavra (exílio, do latim exilium, é o estado de estar longe da própria casa), mas totalmente o contrário: é isolamento dentro da própria casa.
O vírus colocou uma parte importante do mundo em isolamento. Um exílio em suas casas, um exílio do contato social. Mas o exílio é sempre uma oportunidade única para a sociedade, trancada, olhar para si mesma, se examinar e reaproximar do que ficara distante e, além disso, valorizar mais o sentido do presente.
Já o Apocalipse insinua revelar o fim do mundo. Talvez seja mesmo. Para alguns, a Covid-19 está longe de o infectar, mas esses já foram infectado pelo vírus do pessimismo, da impotência, da politicagem, da morte, e se encarregam de proliferar isso para seu ciclo. Esses acham que o coronavírus não veio para recriar nada, apenas para matar, destruir, descarrilhar a economia, gerar miséria. E mais: que o "corona" é uma “praga rogada por Deus” porque a humanidade não reza mais e por aí segue.
Uns se reeditam, outra continuam escrevendo, outros se deletam. Uns acreditam no Gênesis, outros vivem o Êxodo e outros certificam o Apocalipse. Uns caminham para reviverem, outros para morrerem pelo vírus da desesperança. Não temos uma resposta exata para o pós, temos uma nova visão e comportamento em construção.
A única coisa que sabemos é que o vírus nos mostra que não somos os “senhores do mundo”; há seres menores do que nós, e com uma capacidade gigante de nos trucidar. “Toda a ilusão de que o mundo é controlado pelos humanos se desfez em tempo recorde” (Eliane Brum).
Se o novo formato de mundo for reconfigurado nos algoritmos dessa expressão de verdade, acredite: sairemos dessa pandemia mais humanos do que entramos e, literalmente, mais imunizados do que antes da Covid-19, mesmo sem sermos infectados. Quanto ao que virá, depende somente do modo como estamos vivendo tudo isso!