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Como encaramos a pandemia?

Estamos mesmo preparados para a sociedade da empatia?

Não sairemos mais empáticos deste período se não estivermos agora, neste momento, right now, incomodados com as desigualdades que a pandemia escancarou

Públicado em 

26 abr 2020 às 05:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

Empatia em meio ao coronavírus
Empatia em meio ao coronavírus Crédito: Divulgação
A ideia de empatia está por todo lado nestes dias de isolamento social imposto pelo coronavírus. Na maioria das campanhas publicitárias, na profusão de lives, nas postagens, diários de bordo, happy hours virtuais e projeções para o futuro, por todo lado há registros de que sairemos da pandemia mais compreensivos, solidários e afeitos ao que é coletivo.
Mas será que estamos mesmo preparados para nos colocar no lugar do outro?
Empatia pressupõe um significativo grau de generosidade diante das coisas. Para praticá-la como manda o figurino, precisamos deixar o umbigo de lado, ouvir verdadeiramente, valorizar a diversidade, batalhar pela igualdade, refutar os preconceitos, brigar com as nossas próprias antipatias para tentar, sinceramente, compreender o que vem de fora.
Estaremos mesmo prontos para olhar mais do que exibir?
A pandemia expôs com tudo o quanto somos vulneráveis. O mesmo século que viu a tecnologia atingir níveis incríveis de inteligência e interação não conseguiu reagir com rapidez à proliferação de um vírus que mata indiscriminadamente. Temos máquinas quase perfeitas, mas não a vacina que neste momento nos salvaria. Temos canais virtuais para diferentes gostos, mas não comida e esgoto para todos.
Voltamos às formas de prevenção mais básicas. Lavar as mãos com água e sabão e evitar contato físico com outras pessoas é o que pode nos salvar. Se você tem a opção de ficar em casa, fique, para proteger a si e aos mais vulneráveis, dizem as autoridades com o mínimo de discernimento. Mas por quem realmente estamos trancados em casa? Estamos confinados também pelos mais vulneráveis ou apenas por nós mesmos?
Se os vizinhos do bairro ao lado não estão bem, porque faltam os ingredientes mais elementares para que vivam com dignidade, como obter paz e equilíbrio durante a quarentena e depois dela? Como dormir bem, cuidar da pele, praticar meditação, fazer cursos online, aprender a produzir o próprio pão, se não temos paz e equilíbrio com os nossos botões e com os que nos são mais próximos?
Não sairemos mais empáticos deste período se não estivermos agora, neste momento, right now, incomodados com as desigualdades que a pandemia escancarou. Não sairemos mais empáticos do isolamento se não estivermos agora, neste momento, right now, aprendendo a conviver com o que nos é estranho, resolvendo rusgas ao invés de criar desavenças, investindo no que nos une e não no que afasta. Agora, neste momento, right now.

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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