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Rodrigo Medeiros

O trabalho está sendo esvaziado

O real drama do trabalho contemporâneo não é a ameaça de sua extinção, mas o seu esvaziamento contínuo

Publicado em 11 de Maio de 2026 às 02:00

Públicado em 

11 mai 2026 às 02:00
Rodrigo Medeiros

Colunista

Rodrigo Medeiros Rodrigo Medeiros

O livro de Aaron Benanav, ‘Automação e o futuro do trabalho’ (2025), editado pela Boitempo, ilumina algo que costuma ficar escondido no debate sobre automação. O real drama do trabalho contemporâneo não é a ameaça de sua extinção, mas o seu esvaziamento contínuo. Farei algumas breves reflexões sobre o assunto.


Jornadas mais longas e intensas, tarefas mais fragmentadas, salários achatados e o sentimento crescente de que o trabalho perdeu o sentido integram os dramas do tempo presente. Benanav desmontou a fantasia tecnocrática que domina o imaginário público. A tecnologia não irá resolver tudo.


O progresso técnico é relevante para os processos produtivos, porém ele não está substituindo integralmente o trabalho humano. A tecnologia está reorganizando o trabalho humano para aumentar o controle e reduzir a autonomia laboral. Em síntese, a automação contemporânea não libera tempo; ela intensifica a vigilância e o controle.


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Nesse sentido, a precarização laboral vivida em diversos países não é fruto de máquinas mais eficientes. Ela deriva de um mercado de trabalho cronicamente inseguro, no qual os trabalhadores têm pouco poder de barganha. O problema é que as decisões estão concentradas nas mãos de acionistas e gestores, cujo principal critério é a maximização dos lucros.


Para os trabalhadores, democratizar o ambiente de trabalho é urgente. Devemos buscar criar ambientes nos quais a autonomia, a confiança e o sentido sejam parte da organização laboral cotidiana. Experiências de autogestão mostram que, quando os trabalhadores têm voz real, eles não pedem apenas melhores salários.


Trabalhadores pedem tempo, segurança, cooperação, sustentabilidade e vínculos comunitários. Em um tempo no qual a inteligência artificial alimenta utopias ou distopias, Benanav nos lembra que o futuro do trabalho não será decidido por máquinas ou algoritmos. A tecnologia não é neutra; ela é moldada por interesses.

Imagem BBC Brasil
Trabalho e automação
Getty Images

O que está em curso é o empobrecimento do trabalho. Enquanto tecnólogos vendem promessas messiânicas de uma automação que libertará a humanidade, o que se impõe é um processo político de empobrecimento do trabalho, ou seja, menos autonomia, mais vigilância, menos sentido, mais precariedade.


Quem espera que a tecnologia e a qualificação laboral resolvam a crise do trabalho está apostando na benevolência de empresas que lucram com os baixos salários. A alternativa para os trabalhadores é clara: organizar, disputar o poder sobre os rumos das tecnologias e lutar por regras que priorizem a vida, o tempo e a dignidade humana.


Segundo Benanav, até mesmo a desindustrialização não deve ser explicada pela automação. Desde o final do século XX, era possível falar em uma onda de desindustrialização global. Afinal, à medida em que as taxas de crescimento da produção caíam mais do que as taxas de crescimento da produtividade, a desindustrialização se espalhou pelo mundo.


A automação teve um impacto ainda menor nos serviços. Benanav destacou que o principal mecanismo de desaceleração do setor manufatureiro para a economia foi a redução do nível de investimento, configurando um caráter estrutural de sobrecapacidade e subinvestimento. 


Com a queda nas taxas de crescimento da indústria de transformação, trabalhadores migraram para ocupações de baixa produtividade, principalmente nos serviços, e testemunhamos o acúmulo de capital financeirizado e suas bolhas de “efeito riqueza”.


De acordo com o Relatório da Desigualdade Mundial 2026, a renda concentrada no topo cresceu no Brasil, que recorrentemente aparece entre os países mais desiguais do mundo nos principais levantamentos internacionais sobre distribuição de renda. Os 10% mais ricos detêm aproximadamente 59% dos rendimentos nacionais, enquanto os 50% mais pobres recebem somente 9%.

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O Índice de Qualidade da Elite (EQx, em inglês), por sua vez, é uma medida comparativa das elites dos países. A metodologia empregada entende que as elites têm uma capacidade crítica de coordenação dos recursos da economia.


No relatório de 2025, o ranking do EQx foi composto por 151 países. O Brasil ocupou a posição de número 72, em um nítido contraste com o seu peso econômico mundial. Como pode um país estar entre as dez maiores economias e a qualidade de suas elites ser relativamente tão ruim?


Segundo o EQx, as elites brasileiras são vistas como altamente extrativas, ou seja, elas extraem mais valor da sociedade do que criam. Tal perspectiva nos ajuda a compreender a lógica do reformismo regressivo e concentrador de rendas e patrimônios.  


O Brasil foi construído historicamente a partir de uma lógica de exclusão que se reproduziu no tempo. Portanto, devemos tomar muito cuidado para não ficarmos eternamente presos a versões atualizadas da “jaula do subdesenvolvimento” das cadeias globais de valor.

Rodrigo Medeiros

Rodrigo Medeiros Rodrigo Medeiros

É professor do Instituto Federal do Espírito Santo. Em seus artigos, trata principalmente dos desafios estruturais para um desenvolvimento pleno da sociedade

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