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Rodrigo Medeiros

Reformas não bastam para o desenvolvimento

A provocação central do professor da Universidade de Brasília é pertinente: crescer exige estratégia, não apenas correção de distorções

Publicado em 27 de Abril de 2026 às 03:30

Públicado em 

27 abr 2026 às 03:30
Rodrigo Medeiros

Colunista

Rodrigo Medeiros

O artigo de opinião de Jorge Arbache, publicado no jornal Valor Econômico, de 17 de abril, abordou algo que o debate econômico brasileiro insiste em contornar. Reformas, por si só, não produzem desenvolvimento. Essa constatação já deveria ser óbvia, porém temos repetido há décadas a crença de que basta “arrumar a casa” para que o desenvolvimento floresça espontaneamente.


A história recente mostra o contrário. O Brasil estabilizou a partir de meados da década de 1990 com o Plano Real, abriu sua economia, privatizou, desnacionalizou setores, “modernizou” para o capital os seus marcos regulatórios e ainda assim permaneceu preso aos voos de galinha.


Nesse sentido, a provocação central do professor da Universidade de Brasília é pertinente: crescer exige estratégia, não apenas correção de distorções. Estratégia, neste século, significa compreender o lugar de um país no mundo que se reorganiza em torno da transição energética, da disputa geopolítica em curso e da busca por segurança produtiva.

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Recursos naturais não se convertem, por sua vez, automaticamente em riqueza. Energia limpa abundante, biodiversidade, potencial para biocombustíveis, minerais críticos e agroindústria sofisticada compõem um conjunto diferenciado de vantagens comparativas do Brasil.


O problema é que não sabemos o que fazer com elas. Segundo Arbache, o Brasil continua preso a uma visão de política econômica que separa artificialmente o “macro” do “micro”. Como consequência, os investimentos produtivos não se materializam acima de 20% do PIB e as oportunidades no mercado de trabalho estruturalmente precário são de baixa qualidade.


Arbache citou que, nos anos 1990, o país fez reformas sem a coordenação com a competitividade produtiva. O resultado foi uma abertura que expôs as fragilidades nacionais sem criar as condições para superá-las. Há risco de repetirmos esses erros, ignorando as lições que eles deixaram.


Reformas não são um fim em si mesmas. O ajuste fiscal, por exemplo, não pode ser pensado isoladamente. Ele precisa caminhar junto com uma agenda de expansão econômica, sob o risco de se tornar um freio permanente ao investimento produtivo.

Data: 07/04/2017 - Notas de Dinheiro - Real - Governo propõe salário mínimo de R$ 979 em 2018 - Salário: reajuste será igual ao índice da inflação - Editoria: Economia - Foto: ARQUIVO - GZ
Economia  Arquivo/A Gazeta

Caso continuemos a acreditar que basta “arrumar a casa” para que o desenvolvimento aconteça naturalmente, perderemos mais uma janela histórica. Crescer sustentadamente exige visão, coordenação e coragem política, três elementos que têm sido escassos.


Um dos pontos mais relevantes do artigo de Arbache é a defesa de um Estado que organiza, e não que substitui o mercado. Isso significa, segundo o acadêmico, direcionar recursos escassos para setores com alto potencial de retorno socioeconômico e inserção internacional, reduzir riscos, destravar gargalos e criar previsibilidade.


O mundo está demandando novamente aquilo que o Brasil pode oferecer: alimentos sustentáveis, energia limpa, minerais críticos, soluções baseadas na natureza, combustíveis de baixo carbono. As oportunidades históricas requerem uma estratégia de inserção externa altiva.


O Brasil deve decidir se quer ser um protagonista da economia verde ou apenas mais um fornecedor de commodities de baixo valor agregado. Queremos ser formuladores de estratégias próprias, ou ficaremos bem como espectadores das estratégias alheias?


Sabemos que o Brasil foi construído a partir de uma lógica de exclusão que se reproduz no tempo. As suas reformas regressivas são feitas de acordo com a “fórmula de Lampedusa”, revelando como as elites políticas e econômicas operam em sociedades marcadas por desigualdade estrutural.

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De acordo com o Relatório da Desigualdade Mundial 2026, a renda concentrada no topo cresceu no Brasil, que recorrentemente aparece entre os países mais desiguais do mundo nos principais levantamentos internacionais sobre distribuição de renda. Os 10% mais ricos detêm aproximadamente 59% dos rendimentos nacionais, enquanto os 50% mais pobres recebem somente 9%.


Eduardo Galeano, em seu clássico "As veias abertas da América Latina" (1971), nos alertou para a “lei de ferro”, ou seja, “quanto mais cobiçado pelo mercado mundial, maior é a desgraça que um produto traz consigo ao povo latino-americano que, com seu sacrifício, o cria”. 


Não podemos ficar presos à “jaula do subdesenvolvimento” das cadeias de valor planejadas do exterior. Precisamos de estratégias altivas de desenvolvimento.

Rodrigo Medeiros

E professor do Instituto Federal do Espirito Santo. Em seus artigos, trata principalmente dos desafios estruturais para um desenvolvimento pleno da sociedade.

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