Pois é, a gente acaba esquecendo que trânsito também é segurança pública e que as mortes acidentais tendem a se tornar muito mais numerosas, no longo prazo, do que os homicídios. E não é possível exagerar a importância gerencial do relatório apresentado pela Polícia Técnica e Científica.
Talvez alguém ache que não trouxe nenhuma novidade, que já sabemos dos fatores de risco: juventude e sua inconsequência, álcool, motocicletas em um trânsito selvagem. Acontece que eles quantificaram, localizaram e cruzaram informações. Não basta uma ideia na cabeça e uma caneta na mão: o que não for medido não pode ser administrado.
Para começo de conversa esses estudos, embora comprovem o risco de misturar bebida e direção, colocam em xeque a eficácia das medidas até agora tomadas: criminalizar a conduta, punir como homicídio doloso em vez de culposo e muitas blitze estão reduzindo os acidentes ou, pelo menos, a quantidade de pessoas alcoolizadas envolvidas em acidentes? Ou apenas gastando verbas públicas, satanizando alguns poucos azarados e deixando o problema do mesmo tamanho.
Porém, o mais importante, o que deveria saltar aos olhos, é o explosivo aumento do número de motocicletas e, ultimamente, bikes elétricas aliado ao seu crescente envolvimento em sinistros de maior ou menor gravidade. Para variar, a solução para a segurança pública raramente está ao alcance dos respectivos secretários.
Os governos federal, estaduais e municipais, cada um a seu modo, vêm sistematicamente incentivando a troca dos ônibus por veículos de duas rodas. Acontece que é o transporte público coletivo que dá vazão, fluidez e segurança ao deslocamento das pessoas, além de ajudar o meio ambiente. Todo e qualquer modal individual deveria ser entendido como complementar e pontual.
A aquisição deveria ser livre de impostos e a operação de qualquer modal público coletivo, até subsidiada, quando não gratuita. Qualidade, comodidade, rapidez e frequência, disponibilidade e variedade deveriam tornar metrô, ônibus, VLT e qualquer outro similar uma alternativa muito mais interessante do que o transporte individual. Mas fazem tudo ao contrário. Ninguém quer adotar medidas impopulares, como pedágios urbanos, seguro (de verdade) obrigatório, inspeção veicular periódica para valer.
Transformaram o automóvel em um símbolo de status e liberdade, tornaram as motocicletas mais baratas que os ônibus, além de mais rápidas. Até mesmo se omitem em licitar as linhas, ninguém fala em ampliar a gratuidade, quase não há pistas exclusivas. A frase obviamente não é minha, mas precisa ser repetida à exaustão: país desenvolvido não é aquele em que o pobre tem acesso ao automóvel, mas onde o rico anda de ônibus.