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Entenda

Álcool, drogas e motos: mapa traz perfil das mortes no trânsito do Espírito Santo

Painel da Polícia Científica mostra que maioria das vítimas fatais é formada por homens jovens que conduziam motocicletas; quatro em cada dez tinham álcool ou drogas no organismo

Publicado em 12 de Junho de 2026 às 07:42

Jaciele Simoura

Publicado em 

12 jun 2026 às 07:42
Motociclista morre em acidente na BR 262
As motocicletas aparecem como os veículos mais envolvidos nos acidentes fatais Leitor A Gazeta

A Polícia Científica do Espírito Santo lançou dois painéis com dados inéditos sobre mortes registradas no trânsito no Estado. Os dados compilados pelo painel abrangem o período de 2013 a 2025. As ferramentas reúnem informações sobre os locais onde ocorreram os acidentes fatais e traçam o perfil das vítimas, incluindo o tipo de veículo envolvido, a participação no sinistro e a presença de álcool ou outras drogas no organismo.


Em 2025, por exemplo, ano mais recente do painel (dados de 2026 ainda não constam), o levantamento mostra que a maior parte das vítimas fatais era formada por homens jovens, principalmente na faixa etária entre 18 e 34 anos. Os condutores representam a maior parcela dos mortos, com 164 registros, seguidos por pedestres (41), passageiros (22) e ciclistas (15).


As motocicletas aparecem como os veículos mais envolvidos nos acidentes fatais. Dos casos analisados, 144 envolveram motos, número superior ao de carros (69), caminhões (14), bicicletas (13) e ônibus (2).


As colisões foram o tipo de ocorrência mais frequente, com 135 registros. Em seguida aparecem os atropelamentos (42), tombamentos (27) e quedas (13).


Segundo o perito oficial-geral da Polícia Científica do Espírito Santo, Carlos Alberto Dal Cin, a expectativa é que as informações auxiliem órgãos públicos na elaboração de estratégias voltadas à redução dos acidentes e mortes no trânsito.


Além dos dados toxicológicos, um dos painéis disponibiliza um mapa que permite visualizar os locais onde ocorreram mortes no trânsito desde 2013. A ferramenta reúne informações inéditas sobre os atendimentos periciais realizados em locais de acidentes fatais, incluindo dados por município, regionais da perícia, dias da semana e mapa georreferenciado das ocorrências.


Para Carlos Alberto Dal Cin, o aprofundamento desses dados ajuda a compreender melhor a dinâmica dos acidentes registrados no Estado.


"Esses dados estão qualificados, pautados em evidências e em informação científica e visam realmente subsidiar políticas públicas voltadas para a mitigação dos sinistros de trânsito", destacou o perito.


O painel também permite identificar diferenças entre os municípios e regiões do Espírito Santo. Segundo o chefe da Seção de Perícias em Acidentes, Incêndios e Explosões (Sepaie), Marcelo Brandão, cidades como Serra, Linhares, Vila Velha, São Mateus e Cariacica concentram grande número de ocorrências, enquanto as regiões Norte e Noroeste do Estado também chamam a atenção.


De acordo com Brandão, os dados mostram características próprias de cada localidade. Enquanto na Região Metropolitana os acidentes fatais tendem a se concentrar nos fins de semana, especialmente entre sexta-feira e domingo, outros municípios apresentam maior incidência em dias específicos da semana. Para o perito, essas informações ajudam a compreender melhor a dinâmica dos sinistros e permitem direcionar ações de prevenção de forma mais eficiente.


A próxima etapa do trabalho será cruzar as informações dos mapas com os laudos periciais elaborados após cada ocorrência. A intenção é identificar pontos de reincidência e compreender as causas dos acidentes registrados nesses locais. 


"Diante do laudo pericial, que reconstrói o evento, a dinâmica do sinistro de trânsito, como as suas causas imediatas, causas raiz e causas contributivas, tentar identificar nesse ponto, nesse mapa, os locais de reincidência, por que aqueles eventos estão acontecendo de maneira repetida?", explicou Brandão.

Marcelo Brandão, Carlos Alberto Dal-Cin e Mariana Dadalto explicam dados do painel da Polícia Científica
Marcelo Brandão, Carlos Alberto Dal-Cin e Mariana Dadalto explicam dados do painel da Polícia Científica Polícia Civil

Drogas e álcool

Outro dado que chamou a atenção dos peritos foi o resultado dos exames toxicológicos. Entre as 242 vítimas fatais submetidas à análise, 108 apresentaram resultado positivo para álcool ou algum tipo de droga, o equivalente a 44,6% dos casos. Os demais 134 exames tiveram resultado negativo.


Entre as substâncias identificadas, o álcool foi a mais recorrente. Cerca de 30,2% das vítimas apresentaram resultado positivo para consumo de bebida alcoólica. Também foram detectados canabinoides (compostos químicos ligados à maconha) em 15,9% dos exames e cocaína em 12,4%. Os resultados positivos para anfetaminas representaram menos de 2% das análises.


A chefe do Laboratório de Toxicologia Forense (Labtox), Mariana Dadalto, destacou que o levantamento é fundamental para direcionar campanhas de conscientização e outras políticas públicas voltadas à segurança no trânsito. Segundo ela, a definição de estratégias eficazes depende do conhecimento sobre quem são as principais vítimas e quais fatores estão relacionados aos acidentes fatais.


Os dados apontam que entre os condutores que morreram e foram submetidos a exames toxicológicos, 44% apresentaram resultado positivo para álcool ou drogas, como cocaína, maconha e metanfetaminas. Em 2025, esse índice chegou a 45%, de acordo com a especialista.


Mariana Dadalto chamou atenção para uma mudança observada no perfil das substâncias identificadas. Embora o álcool continue aparecendo com frequência nos exames, houve redução dos resultados positivos para bebida alcoólica e aumento da presença de drogas, principalmente canabinoides. 


"O álcool continua sendo uma coisa importante, mas houve uma pequena diminuição e um aumento no uso de outras drogas. É uma coisa a se levar em consideração, porque hoje as políticas estão se baseando muito em álcool. Mas a gente deve sempre ampliar a informação de que dirigir e usar droga também pode causar acidente", afirmou.

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