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Henrique Herkenhoff

Inteligência artificial na solução dos homicídios

O governo federal não acredita, sinceramente, que isso vai dar certo, quer apenas poder, como sempre, colocar a culpa nos governadores

Publicado em 31 de Maio de 2026 às 04:00

Públicado em 

31 mai 2026 às 04:00
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff

Continuemos falando (mal) do plano de segurança apresentado pelo governo federal. Tenho a impressão de que quem o redigiu não compreendeu bem o conceito de inteligência artificial... a União diz que pretende obter a ampliação da taxa de esclarecimento dos homicídios emprestando as moedas que sobraram no bolso para a qualificação e investimentos dos Institutos Médico-Legais (IMLs) e das polícias técnicas e científicas; compra de equipamentos como freezers científicos, viaturas refrigeradas para transportes de corpos e kits de comparação balística; fortalecimento da Rede Integrada de Bancos de Perfis Genéticos e a articulação do Sistema Nacional de Análise Balística (Sinab).


É claro que seria ótimo diminuir a impunidade de qualquer crime, especialmente a dos homicídios. Acontece que, em primeiro lugar, isso não se resolve apenas comprando umas máquinas. Além de precisar treinar quem vai operá-las, ambulância não substitui médico. 


O caro nunca foi construir e equipar os hospitais, mas a folha de pagamentos do pessoal de saúde. Além de irrisório, o valor proposto será apenas emprestado, e isso pelo presidente que será eleito em 2026. E nem toca no assunto sobre quem vai pagar o salário dos policiais e peritos necessários, muito menos fala em criar mais cargos de policiais federais, investir na perícia da Polícia Federal etc.

Deep fake, inteligência artificial
Inteligência artificial Rawpick/Freepick

Além de não coçar o bolso e se recusar a operar as atividades policiais diretamente de maneira significativa, a União não tem feito nem o básico de suas atribuições legais e constitucionais. 


Levou décadas para começar a cumprir a lei que determinava a criação de um documento de identidade único. O Sinarm é tão falho, que milhões de armas legalmente adquiridas ainda não estão nele; e é apenas um banco de dados, praticamente sem ações de fiscalização. O Infopen tem a tecnologia do milênio passado e funciona precariamente.


Aí querem que a gente acredite que vão avançar muito com um banco nacional de perfis genéticos, que inclusive enfrenta a oposição de quem vive do problema, não da solução, quando o correto e relativamente barato seria incluir o perfil genético em todas as novas emissões e renovações do documento nacional de identificação, até ter a população inteira cadastrada, e não apenas estupradores. 

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Assim, aumentaria muito a chance de identificação de pessoas assassinadas ou desaparecidas, de pessoas em situação de rua com problemas psiquiátricos ou inconscientes nos hospitais, pessoas com falsas identidades etc. Uma mão na roda não apenas para a segurança pública, mas para a saúde, para a assistência social, para evitar fraudes em geral e muito mais.


A União se propõe a ela mesma manter uma rede de laboratórios de balística forense à disposição dos estados? Não, ela quer que os estados trabalhem para a união, mediante uns empréstimos que só dá para ver com o uso de microscópio. 


O governo federal não acredita, sinceramente, que isso vai dar certo, quer apenas poder, como sempre, colocar a culpa nos governadores.


Em resumo, nenhuma ideia nova, nenhum dinheiro novo, nenhuma contribuição adicional, apenas um objetivo a ser alcançado pelos governos estaduais. Meu plano é que você trabalhe melhor. Vou fingir para a população que pretendo ajudar financeiramente, E eu, mesmo, nem chego perto dos presuntos.

Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

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