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Política

A narrativa do presidente que só conversa com “Bolsonaros da sociedade”

Temos um governo que só conversa com os dele, só governa para os dele, só troca verbos com os que conjugam sua política de uma ilusão de “Brasil acima de tudo”

Publicado em 04 de Junho de 2020 às 05:00

Públicado em 

04 jun 2020 às 05:00
Vinicius Figueira

Colunista

Vinicius Figueira

Presidente da República, Jair Bolsonaro
Presidente da República, Jair Bolsonaro Crédito: Marcos Correa
Estamos vivendo um tempo único na saúde, na sociedade e na política. Com um olhar de cidadão, talvez eu diria que estamos vivendo um momento intenso de um suprassumo da arrogância e da prepotência que nenhum brasileiro, por pior que seja, mereça. Por outro lado, a pandemia foi uma espécie de espremedor, capaz de trucidar um governo e, de gota a gota, percebemos a essência de quem nos governa.
Por uma visão mais publicitária, marqueteira, comunicóloga, eu diria que a narrativa do presidente Bolsonaro evidenciou quantos Bolsonaros existem na sociedade, quantos Bolsonaros, literalmente, nos serpenteiam, destilando ódio, vingança, detrações e carências.
Temos um governo que só conversa com os deles, só governa para os deles, só troca verbos com os que conjugam sua política de uma ilusão de “Brasil acima de tudo”. Bolsonaro mostrou que há 30% (Levantamento XP/Ipespe) de brasileiros que precisam se conhecer mais para se livrarem de um sistema opressor, no qual foram cativados, e hoje são reféns.
As atitudes do presidente que “governa” o Brasil mostrou que 30% dos brasileiros padecem de uma carência absurda, e convivem com um buraco abismático, e que tentam colocar poder, aparência, status, matéria, para tapar a cratera e, assim, são incapazes de gerir os sentimentos volta e meia atacados. O mesmo tanto, procura usar fantasia, fakes, maquiagem para cobrir o sentimento ou marcas indeléveis da história.
O que impressiona é que a narrativa diz tudo sobre quem é o presidente. Se pararmos para analisar, temos um presidente que se incomoda mais do que governa. O que esses incômodos podem dizer para nós brasileiros? O interior do Bolsonaro foi evidenciado no privado e na intimidade de uma reunião berrada e rejuntada com palavrões horríveis.
Nunca vimos isso de um presidente. Talvez Lula, alguma vez. A podridão, os gritos, o desequilíbrio com que o presidente convive internamente foi visto nu e cruamente. Fiquei imaginando, depois da reunião, como o presidente foi dormir. Acredito que o sentimento seja o de nudez, e ao mesmo tempo de cansaço, de desgaste, de desidratação. Um sentimento de “a casa caiu”?!
Mas, reiteramos: assim como o presidente, temos estimado 30% de brasileiros com um perfil similar. Hoje, só desfila com o presidente quem como ele é: necessitados de autoritarismo, capitalistas, materialistas e moralistas. Uma outra grande parcela ficou no caminho, vendo os demais seguirem, porque entenderam que o projeto era diferente, que o “Reino do Messias” era outro.
Agora, quem poderá nos defender? Bom, não sei se essa é a pergunta, mas eu diria que há muitos que precisam se cuidar, descobrir as carências para serem mais humanos. Deste modo, estamos assistindo que poder não é remédio para a carência extrema, e quem é carente demais não pode governar, antes, precisa se tratar.
Talvez, você que está aí lendo se pergunte: por que um publicitário falando de carências? Isso não seria coisa de psicólogo ou terapeuta? Bom, aprendi na carteira da faculdade que só podemos fazer comunicação eficaz entendendo o público e, por isso, hoje, foi dia de entender o presidente e os Bolsonaros da sociedade.

Vinicius Figueira

É publicitário. Uma visão mais humanizada dos avanços tecnológicos e das próprias relações sociais tem destaque neste espaço. Escreve às quintas

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