Não falo palavrões, não recomendo que falem, não gosto de ouvir e meus filhos não falam. Não votei no Bolsonaro, jamais votarei e sugiro que não votem. Dito isto, chega a ser ridículo o “choque” demonstrado por muitos, em relação à quantidade (e qualidade) dos palavrões pronunciados pelo presidente na fatídica reunião ministerial.
É preciso ser justo, naquela reunião Bolsonaro pode ser acusado de muitas coisas, menos de falta de originalidade. Sempre reclamamos quando um político se comporta de uma forma durante a campanha e muda imediatamente depois de eleito. Bolsonaro foi Bolsonaro antes, durante e depois da campanha. Quem votou nele não pode reclamar e quem não votou precisa entender que houve uma “opção” do povo por “isto” que está aí.
Explico: Bolsonaro foi eleito sem pauta e falando palavrões. Então, realizou uma reunião ministerial “sem pauta” e “falando palavrões”. Pode haver algo mais original e coerente do que isto?! Confesso que fiquei até tomado de certa “simpatia”. Gosto de originalidade e coerência! Os críticos argumentaram que seria recomendável o mínimo de liturgia em uma reunião formal com elevadas autoridades e fizeram até contabilidade dos impropérios.
É evidente que a “forma” escolhida não foi a mais elegante e nem poderia (por incapacidade dos agentes). Entretanto, pornográfico mesmo foi o conteúdo (ou a falta dele). Nesse aspecto, um verdadeiro trem fantasma. A cada nova fala uma caveira, um espantalho, uma múmia, um Frankenstein e a “escuridão”...
Precisamos de uma reunião para discutir como salvar empresas/empregos, administrar o caos social que já se avizinha e equacionar a retomada pós pandemia. Necessitamos de planejamento, coordenação, gerenciamento, direção, controle e execução. Tudo o que está faltando. É exaustivo e improdutivo politizar todos os temas. Vírus não tem corrente ideológica, não é de direita nem de esquerda. Operações da polícia federal não podem pertencer ao partido “A” ou “B”. Leitos do SUS e respiradores não são liberais nem socialistas, o PIB não é conservador nem progressista e o índice de desemprego não é pessimista nem otimista.
Urge passarmos a enxergar os dados de realidade, abstrairmos as subjetividades e preferências pessoais. Em um momento tão agudo, também não consegui ver qualquer utilidade da divulgação de uma reunião tão irrelevante. Alguns dizem que a divulgação era imprescindível pois houve falas da mais alta gravidade. Não me pareceu... O que vi foi um ajuntamento de “coleguinhas” no churrasco pós “pelada”, falando as besteiras típicas desse tipo de evento.
O erro foi “apenas” utilizar as instalações do Palácio do Planalto para um encontro tão comezinho. Com mais churrascos assim, acabaremos por validar a frase erroneamente atribuída a Charles de Gaulle e que, na verdade, foi dita pelo diplomata brasileiro Carlos Alves de Souza Filho (Embaixador do Brasil na França): Le Bréxil n’est pas un pays sérieux”. Ah, só está em francês para parecer mais elegante!