No dia 14 do corrente mês, o embaixador brasileiro Roberto Carvalho de Azevêdo anunciou que deixará o honroso e elevado cargo de diretor-geral da OMC – Organização Mundial do Comércio -, um ano antes do término do seu mandato. Azevêdo ocupa o cargo desde 2013 e realizou um trabalho excepcional à frente da instituição.
Concluiu o Acordo de Tecnologia da Informação, o Acordo de Facilitação do Comércio e participou de decisões fundamentais sobre segurança alimentar. Também foi decisivo na redução de subsídios a produtos agrícolas e na promoção das exportações de bens e serviços dos países menos desenvolvidos.
A tentativa, segundo o próprio embaixador, sempre foi evitar que prevalecesse a “lei da selva” no que diz respeito ao comércio. Tudo isto só foi possível porque Azevêdo é, literalmente, um diplomata. Excelente comunicador (inclusive em outros idiomas), de voz firme e serena, capaz de passar horas discutindo um tema e avaliando os diversos ângulos de visão. Um especialista na aproximação dos mais diversos matizes e interesses atinentes às relações comerciais entre países.
Com a sua saída, o multilateralismo, já tão combalido, perde ainda mais. No momento em que acompanhamos a tentativa de enfraquecimento da OMS – Organização Mundial da Saúde - e de outros organismos multilaterais, além do recrudescimento de um nacionalismo tacanho, precisamos salvar da extinção os moderados.
Chegamos a um momento tão agudo, especialmente na “Terra de Santa Cruz”, em que “ser radical” virou condição para ter voz na política, nas redes sociais ou na mesa de jantar. E aí pouco importa se situação ou oposição. A unidade de medida é decibel mesmo! Quanto mais volume, agressões verbais e posições extremadas, mais atenção e seguidores. Sendo oposição, se não for irascível e totalmente intransigente, “não sabe fazer oposição”.
Sendo situação, se não for radicalmente afinado com as sandices do presidente, não serve para ficar no governo, é traidor e comunista. A política, tão esquecida pela população e pelos próprios políticos, é a arte da linguagem e da aproximação dos extremos. É preciso, argumentar, ponderar, explicar, negociar e convencer (não vencer).
Tem que ficar claro que não há ideia ou projeto que possa ser implantado tendo a resistência de mais da metade da população (nacional ou mundial). Então, não há méritos em ser um brigão acompanhado de um séquito de 30% da população. Pois as realizações, que interessam, serão nulas.
Precisamos criar consensos em torno do possível e construir pontes entre os terrenos inconciliáveis. Foi o que Azevêdo fez e que sentiremos tanta falta. Conviver com o diferente é um custo (módico) do processo democrático. Essa estória de “conhecereis a verdade e a verdade vós libertará”... Há muitos filtros da verdade, como reconheceu o poeta espanhol Ramón de Campoamor: “en este mundo traidor nada es verdad ni mentira, todo tiene el color del cristal com que se mira”. Vamos aceitar as diferenças e avançar na construção dos consensos possíveis. O resto é perda de energia e tempo!