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Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes e da ANDHEP

Não restam dúvidas, a humanidade não deu certo no Brasil

Dizem que depois de todas as grandes crises pelas quais passou a humanidade, o planeta ressurgiu melhor, mais solidário, mais disposto à ajuda mútua entre as nações. Talvez seja realmente isso o que vai acontecer nos próximos anos...

Publicado em 06/05/2020 às 05h00
Atualizado em 06/05/2020 às 05h03
O presidente da República,Jair Bolsonaro, participa do lançamento da nova linha de crédito imobiliário com taxa fixa da Caixa Econômica Federal
Presidente da República, Jair Bolsonaro. Crédito: Antonio Cruz/Agência Brasil

Lembro-me como se fosse hoje daquela segunda-feira seguinte ao primeiro turno das eleições presidenciais no Brasil, em outubro de 2018. Cheguei cedo na Ufes para dar aula às sete horas da manhã e me encontrei com o querido professor Thiago Fabres. Ele estava muito triste, disse que tinha chorado desde a divulgação do resultado. Sua mãe e ele tinham chorado muito, ele me contou.

Ando pensando muito nesse momento da minha vida, lá em 2018, e fico tentando imaginar, principalmente, o que o saudoso Thiago Fabres estaria pensando hoje. Jovem com raciocínio aguçado, intelectual crítico e professor de Direito Penal da Ufes, faleceu precocemente no início deste ano, numa triste Quarta-feira de Cinzas que nos marcou a todos que o conhecíamos.

Certamente ele estaria chorando de ver que um professor da Ufes, como ele, acredita numa teoria da conspiração em plena pandemia de Covid-19 e espalha boatos infundados em cima de um carro de som, em praça pública, na cidade mais afetada pelo novo coronavírus no Espírito Santo: Vila Velha.

Conversando com um outro amigo hoje, também professor da Ufes, ele me contava que sempre se perguntou o que leva as pessoas a acreditarem em teorias da conspiração. Desacreditar de todas as evidências, de todas as pesquisas científicas e provas forenses, para acreditar, por exemplo, que o ser humano nunca pisou na lua, que John Lennon está vivo, e que ambulâncias circulam vazias com as sirenes ligadas pelas ruas de Vila Velha só para que nós acreditemos que estamos em meio a uma crise de saúde pública.

Façamos um experimento mental e imaginemos ambulâncias circulando vazias pelas ruas da cidade. Quanta morbidade é exigida de um motorista de ambulância e paramédicos para em plena crise se deixar convencer a fazer um trabalho desse. Seria realmente a derrocada da humanidade, como disse em sua carta despedida o ator Flavio Migliaccio. Ou, nas últimas palavras que ele nos deixou: “a humanidade não deu certo”.

Certamente, se existe vida após a morte, estarão ele, Thiago Fabres e tantos outros que se foram deste país em crise, em algum lugar do infinito olhando para Brasília e chorando, porque de fato por terras brasileiras a humanidade anda de mal a pior.

Dizem que depois de todas as grandes crises pelas quais passou a humanidade, o planeta ressurgiu melhor, mais solidário, mais disposto à ajuda mútua entre as nações. Talvez seja realmente isso o que vai acontecer nos próximos anos... Veremos, quem sabe, a repactuação de uma nova ordem mundial, novas instituições globais, oxalá até uma ONU mais fortalecida.

Brunela Vincenzi

Articulista

"Os que tiverem forças para continuar, olharão para trás, e seguirão adiante, na tentativa de reconstruir os ideias alcançados nos 30 anos de democracia que vivemos sob a égide da Constituição de 1988 até o dia da eleição de Jair Bolsonaro, o homem que terá apagado todos os avanços democráticos e humanitários de um país cheio de sonhos e esperanças de ser menos desigual, racista e misógino"

Mas, queridas leitoras e leitores, depois de tantas violações de direitos humanos, de distrações disfarçadas de teorias da conspiração, de quebras de regras democráticas, de homenagens a torturadores, de comemorações de golpe militar renomeado de revolução, de destruição de reservas indígenas para plantar soja e criar gado, sim, depois de tudo isso, os que restarem de nós que não se esvaírem em lágrimas de tanta tristeza, que não tiverem sido perseguidos, mortos ou destruídos pela extrema direita que resolveu ditar a ordem política no Brasil, esses verão um país destruído pela ganância, pelo egoísmo, pelo clientelismo, pelo patriarcalismo, pelo machismo latente que nos ataca a todas dia após dia.

Daí em diante, os que tiverem forças para continuar, olharão para trás, e seguirão adiante, na tentativa de reconstruir os ideias alcançados nos 30 anos de democracia que vivemos sob a égide da Constituição Cidadã de 1988 até o dia da eleição de Jair Bolsonaro, o homem que terá apagado todos os avanços democráticos e humanitários de um país cheio de sonhos e esperanças de ser menos desigual, racista e misógino.

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