Um novo Cristianismo parece se desenhar a partir do advento do bolsonarismo.
Dentro dessa qualificação religiosa, ecumênica por natureza, tendo em vista a capacidade de abrigar os mais diferentes valores, crenças e religiosidades, o cristianismo entra apenas com sua ampliada base estrutural, capilarizada e aparelhada em todas as cidades e recantos de nosso país, capaz de dar sustentação a projetos dos mais diferentes interesses.
Com sua alta capacidade de aglutinar pessoas, muitas vezes sofridas e abandonadas pelo poder público, que encontram nas igrejas acolhimento e lugar onde são recebidas de braços abertos, desde que tragam parcela de seus salários duramente conquistados com o suor do rosto, as igrejas se tornam instrumentos eficazes para o alcance de projetos políticos capitaneados por grupos inescrupulosos que objetivam alavancar projetos não compatíveis com os desígnios bíblicos nos quais estão claramente definidos os padrões éticos e morais que deveriam sustentar a fé cristã.
Dentro desse contexto de religiosidade alargada, os padrões éticos e morais do cristianismo original, de raiz, baseados no amor cristão em que o outro deve ser visto e considerado como o próprio Cristo, voltado para a solidariedade, para a busca da paz e do perdão, não mais se apresentam como determinantes para a qualificação ou inclusão no chamado grupo cristão.
O que passa a ter valor nesse novo cristianismo de alicerce bolsonarista é a capacidade de obter cargos, poder e recursos para o atendimento de interesses pessoais e de suas lideranças e não mais voltados às necessidades dos mais pobres e dos doentes, conforme missão indicada no texto bíblico.
Não que essa ética situacional seja uma novidade no meio político brasileiro. A história é pródiga em nos apresentar como as bancadas evangélicas, em diferentes legislaturas, votaram e apoiaram projetos que sacrificavam os mais pobres em troca de favores e concessões.
O fundamento é o mesmo, mas as estratégias são diferentes. Antes, negociava-se nos bastidores, buscando vender uma imagem de dignidade na qual os valores cristãos pareciam preservados. Uma perspectiva hipócrita, sem dúvida, mas que não expunha as sujidades das denominações e não tentava construir um novo arcabouço ético.
No modelo atual, essa estrutura principiológica, construída ao longo dos séculos e mantida pelas igrejas católicas e evangélicas tradicionais, foi fissurada de tal forma que uma nova base, não mais comprometida com os autênticos valores cristãos, foi surgindo e se estruturando.
Nem mesmo as tradicionais igrejas cristãs, em especial as protestantes, resistiram a esse novo formato. Sucumbiram muitas aos novos modelos e princípios éticos do cristianismo contemporâneo.
A vida não tem mais o mesmo valor para os cristãos como já teve no passado. Matar faz parte do cotidiano. Para muitos, armar a sociedade é necessário, dentro desse novo formato.
O símbolo do dedo em riste é valorizado. Difamar o outro, discordante de sua nova modelagem ética, é defesa do Direito à liberdade de expressão da fé.
Cultuar novos messias, valorizar homicidas, estupradores, violadores de mulheres, milícias, ditaduras, tudo isso passou a se constituir o novo modelo operante de muitos cristãos.
Por um cargo em ministério se vende a fé. Para sustentar um modelo econômico de interesse de alguns líderes religiosos se convoca os cristãos para exercerem a sua fé votando nesse ou naquele candidato, em um típico processo de curral eleitoral.
Valoriza-se mais o dinheiro do que a vida humana e a dignidade. Rompe-se com famílias, amigos e os antes considerados irmãos em Cristo, para apoiar um líder político que defende valores indefensáveis dentro da perspectiva cristã.
O desamor passa a ser tolerado e assim se vai construindo uma nova ética cristã, de base não apenas bolsonarista, porque esta é temporária e irá desaparecer em breve, mas de base sórdida e perversa, destrutiva de valores, capaz, talvez, de colocar em risco não o cristianismo autêntico, mais sólido do que uma rocha, indestrutível, mas as instituições ditas cristãs que se venderam a forças ocultas, com as quais não gostaríamos de nos haver nessa terra e nem no porvir.