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Realidade brasileira

Quem terá a coragem de lutar contra a barbárie que se instalou no Brasil?

Em terras onde o presidente é capaz de dar uma banana para o povo, não há que se falar em brio, em gentileza, em honradez. Se não reagimos, somos todos coniventes

Publicado em 24 de Fevereiro de 2020 às 05:00

Públicado em 

24 fev 2020 às 05:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer Elda Bussinguer
Presidente Bolsonaro: dedo em riste Crédito: Divulgação

Evidências inequívocas de que vivemos a quebra do pacto civilizatório estão espalhadas por todos os lugares.

A Constituição, tão estratégica e civilmente tecida, alinhavada na luta dos movimentos sociais organizados e nos sonhos de tantos que acreditaram possível a construção de uma nação livre e democrática, foi sendo atacada de forma vigorosa e encontra-se hoje despedaçada, fissurada de tal forma a nos parecer impossível qualquer recomposição que seja capaz de fazê-la sobreviver aos ataques sofridos.

Estamos, todos, impassíveis e imobilizados, sem compreender como a barbárie se instalou em nosso país, desconstruindo o imaginário de uma nação robusta, pujante, com capacidade de enfrentar as grandes potencias mundiais que por tanto tempo nos mantiveram cativas de seu poder.

Na fantasia de um povo cordial e amável, a realidade de um povo brutalizado pela naturalização do ódio, na qual os formadores de opinião do momento se mostram truculentos, amantes das armas e da violência, não apenas simbólica, como dantes, mas agora expressa em toda a agressividade animalesca de homens brutalizados pelo desejo de poder.

Acreditaram alguns que a amizade com a nação mais poderosa do mundo poderia nos trazer ganhos e frutos advindos da proximidade com a “casa grande”. Na fantasia, ingênua, de que por afeição pessoal ao presidente, os EUA indicariam/ apoiariam a entrada do Brasil na OCDE, ofertou-se a honra, a riqueza e a soberania da nação. Tivemos, em troca, o que sempre sobra aos afilhados do patrão, do coronel, os favores de roupas usadas e das migalhas que caem da mesa.

Envergonhados, cabisbaixos e humilhados, usamos a fábula das uvas verdes e seguimos em frente. Humilhando, como fomos humilhados. Salivando gotículas contaminadas por micro-organismos virulentos tal qual nos inocularam.

Apresentamos ao mundo nossa face mais feia, mais suja, mais vergonhosa, mais mesquinha, mais pobre de espírito e de grandeza. Aqueles que deveriam servir de exemplo à nação com uma moralidade “superior”, ainda que maquiada em uma tentativa de esconder as mazelas, fazem a opção por apresentar-se como de fato são: sujos, desprovidos de conhecimento, de humanidade e de nobreza.

"Aqueles que deveriam servir de exemplo à nação com uma moralidade “superior”, ainda que maquiada em uma tentativa de esconder as mazelas, fazem a opção por apresentar-se como de fato são: sujos, desprovidos de conhecimento, de humanidade e de nobreza "
Elda Bussinguer - Articulista

Em terras onde o presidente é capaz de dar uma banana para o povo, não há que se falar em brio, em gentileza, em honradez. Se não reagimos, somos todos coniventes. Em terras nas quais o símbolo mais valorizado é o dedo em riste, em uma apologia ao ódio e à guerra, sustentada por uma massa de líderes religiosos, falsos apregoadores do amor de Deus, que se locupletam na miséria e na ignorância do povo, não há que se falar em civilização.

Assim, não há que se falar em organização e inteligência mínimas capazes de mudar a história. É barbárie!

Enquanto ignorância e impotência mantêm a todos imobilizados, os abutres se deliciam com a carniça dos corpos que ajudaram a matar, esquecidos de que quem se deleita com a carne apodrecida pela miséria com ela se macula e, ao final, a si mesmo se destrói.

Os que hoje ajudam a humilhar e a matar os sonhos de existência digna dos menos favorecidos, das mulheres, dos negros, dos pobres, dos que fogem ao padrão de “normalidade” aceita como detentora de direitos, poderão vir a ver seus próprios filhos serem mortos por aqueles que, revoltados, um dia se levantarem, conscientes, para recuperar seus direitos.

Talvez aí a cultura do ódio, que ajudaram a naturalizar, possa vir a lhes ser desfavorável, já que incontrolável pela ausência do Estado que ajudaram a destruir.

Elda Bussinguer

Elda Bussinguer Elda Bussinguer

Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitária

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