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Violência contra a mulher

Feminicídios aumentam devido à política discursiva de ódio do atual governo

Ainda que o aumento das denúncias seja pela maior conscientização e empoderamento das mulheres, o grande fator alimentador dessa explosão de violência é a cultura machista e violenta do atual governo

Publicado em 23 de Dezembro de 2019 às 04:00

Públicado em 

23 dez 2019 às 04:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

Violência contra a mulher Crédito: Divulgação
Os números relevam, de forma contundente e impactante, os resultados da apologia à violência materializados em discursos de ódio do atual governo.
Em apenas dez meses de atuação, o governo conseguiu a proeza de alimentar, com sua política beligerante, de incentivo ao uso de armas e ao machismo, o aumento, em cerca de 300%, dos feminicídios e das tentativas de assassinato de mulheres no país.
Os dados são oficiais, originados do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, tendo como base os números fornecidos pela Central de Atendimento à Mulher, o popularmente conhecido Ligue 180.
Não fosse a Lei de Acesso à Informação, que obriga os órgãos públicos a fornecer os dados oficiais, talvez esses resultados jamais seriam disponibilizados. Eles comprovam, estatisticamente, as críticas feitas à política de ódio implantada no Brasil a partir de janeiro de 2019 com a ascensão ao poder de um governo ultraconservador, que se sustenta em símbolos ligados a armas, violência de todas as naturezas, apologia a um militarismo de matriz ditatorial e antidemocrático, bem como a práticas religiosas de cooptação de fiéis e de cerceamento de liberdade feminina. Práticas essas sustentadas na ideia de uma submissão da mulher ao homem em nada compatível com os ensinos de igualdade que subverteram a ordem judaica quando se passou a ensinar que “portanto não há mais homem ou mulher, escravo ou liberto, judeu ou grego”.
Registre-se, ainda, que esses números não representam a totalidade das tentativas de assassinato de mulheres e feminicídios, tendo em vista que as denúncias são tímidas em razão dos medos e da falta de políticas de apoio às mulheres que denunciam seus agressores. Os números reais dificilmente serão conhecidos.
O silêncio é obtido com estratégias biopolíticas de controle dos corpos das mulheres que se veem impotentes diante das condições adversas que se impõe a elas por falta de serviços de apoio em casos de denúncia dos companheiros agressores.
O recente episódio envolvendo o goleiro Jean que agrediu sua esposa retrata essa perversa condição a que estão submetidas as mulheres. Ao tentar coibi-la, evitando ser denunciado, o jogador se refere aos riscos que ela estaria impondo à sua carreira e, consequentemente, ao futuro econômico das filhas. Em nenhum momento a dignidade da mulher é considerada. A lista de jogadores famosos acusados de violência contra mulheres é enorme e indicativa dessa cultura que precisa ser questionada e revertida.
Ainda que possamos associar um possível aumento das denúncias a uma maior conscientização e empoderamento das mulheres, o grande fator alimentador dessa explosão de violência em 2019 é, indubitavelmente, a cultura machista e violenta, sustentáculo do discurso de ódio que constitui o atual governo.
O Ligue 180, com a garantia de anonimato, ainda que seja uma estratégica ferramenta para que tenhamos uma melhor dimensão do problema, por si só não tem o condão de interferir, isoladamente, de forma positiva, nessa condição tão adversa, cruel e injusta que revela a desigualdade de gênero em nosso país.
Ter um espaço de denúncia não possibilita à mulher agredida o apoio logístico necessário à tomada de decisão de romper com a condição de vulnerabilidade que lhe é imposta e que, de modo geral, está condicionada a situações de dependência econômica, de responsáveis maiores, ou únicas, pela proteção dos filhos e por toda uma carga cultural machista de proteção aos homens ainda que reconhecidamente violentos.
As delegacias especializadas em violência contra as mulheres, apesar de terem representado um avanço importante, continuam a ser apenas uma ação pontual, inicial, para dar conta de um problema complexo e multifacetado.
A efetivação de uma Rede de Atendimento a Mulheres Vítimas de Violência implica ações conjugadas de vários setores que aproximem o Estado e a Sociedade Civil sem as hierarquizações e burocracias pautadas em um Estado tantas vezes violador dos Direitos das Mulheres.
A sociedade como um todo, que apoia e se alimenta do mesmo ódio discursivo, e os cristãos verdadeiros, em especial os que se deixaram encantar com a esperança de um presidente que se afirma cristão, deveriam confrontar os reais princípios doutrinários do cristianismo se perguntando se eles são compatíveis com práticas que ampliam a violência e submetem pessoas a morrer pelo simples fato de serem mulheres.
A impotência masculina, diante do avanço das mulheres e das conquistas que foram alcançadas ao longo da história, precisa ser enfrentada pelos homens a partir de práticas mais dialógicas e reconhecidas da necessidade de se submeterem à igualdade que se impõe como condição necessária ao avanço civilizatório.
O recrudecimento do machismo e da violência, como tentativa de enfrentamento do avanço feminino, é empobrecedor e mais desqualifica a inteligência e a capacidade masculina do que reforça sua potência e suposta superioridade.
Homens machos, duros e violentos estão cada vez mais distantes do ideal feminino de um companheiro. Correm os homens o risco da solidão e da perda de espaços de compartilhamento de amores e dos sabores de uma vida a dois que pode ser rica e plena de possibilidades de felicidade.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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