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História

Abertura de arquivos de Pio XII ajudará a explicar relação com o nazismo

Papa Francisco prometeu que em março deste ano serão abertos os arquivos secretos referentes ao pontificado de Pio XII, que se iniciou em 1939 e terminou em 1958

Publicado em 03 de Fevereiro de 2020 às 04:00

Públicado em 

03 fev 2020 às 04:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer Elda Bussinguer
O papa Pio XII Crédito: Michael Pitcairn

A continuidade da discussão do tema nazismo e cristianismo, tratado em meu artigo da semana passada, justifica-se por razões diversas. Em primeiro lugar, porque o limite do texto semanal, ao qual estamos submetidos, impede que o tema seja tratado de forma a ser esgotado. Por essa razão, o articulista precisa fazer opções, dando destaque a elementos que possam suscitar o debate, convidando para uma reflexão crítica sobre o assunto.

Nesse sentido, dados os limites espaciais da coluna, optei por destacar, no artigo anterior, apenas algumas questões provocativas que pudessem causar o incômodo necessário capaz de levar os leitores a pensar nos problemas abordados e, a partir daí, fomentar diálogos produtivos de forma a ampliar o escopo reflexivo.

A estratégia se mostrou bastante exitosa. O tema foi amplamente debatido nas redes sociais, provocando controvérsias, manifestações múltiplas de reconhecimento e valorização da importância da abordagem feita, ao mesmo tempo em que algumas declarações contundentes de insatisfação com a abordagem feita, em razão de uma possível exposição das instituições religiosas de matriz cristã, em especial, a católica e a protestante.

As questões levantadas pelos leitores, todas elas extremamente relevantes, ainda que havendo algumas discordância com o pensamento da autora, são, nesse sentido, a razão maior da continuidade temática, não apenas neste artigo, mas também em outros que ainda virão, especialmente considerando a promessa feita pelo papa Francisco de que em 2020 serão abertos os arquivos secretos referentes ao Pontificado de Pio XII, que se iniciou em 1939 e terminou em 1958.

Certamente, ao serem conhecidos, esses conteúdos nos possibilitarão uma releitura de informações que hoje podem estar sendo feitas de forma parcial, considerando a falta de alguns dados de extrema relevância histórica que permanecem guardados como arquivos secretos no Vaticano. É de todos conhecido que a canonização do papa Pio XII há muito vem sendo adiada em razão de sua conhecida conivência/cumplicidade com os regimes nazista alemão e fascista italiano.

Dando continuidade ao debate iniciado no primeiro artigo, optei, ainda considerando os limites espaciais da coluna, por destacar hoje duas questões complementares ao texto anterior.

Ressalto que, não sendo minha formação original de historiadora, o texto se faz a partir do olhar de uma pesquisadora do Direito e da Bioética, em uma perspectiva crítica que a ciência oferece como ferramenta. Destaco, assim, que a ciência não se alimenta de certezas, mas, fundamentalmente, de dúvidas.

A FÉ E A CIÊNCIA

Não são os dogmas que alimentam a história e a ciência. Os dogmas são do campo da fé. As verdades, na ciência, são temporárias, frágeis, questionáveis, suscetíveis a mudanças.

O pesquisador, por excelência, se alimenta da dúvida; a fé se alimenta das certezas.

São as dúvidas e os questionamentos que permitem o avanço da ciência. Propostas de silenciar o pesquisador ou qualquer outra pessoa, em nome da preservação de uma instituição, é condenar a verdade, alimentando a hipocrisia e a falsa religiosidade.

"Todos nós conhecemos as consequências do ocultamento/silenciamento conivente da Cúria Romana nos casos de pedofilia da Igreja Católica que hoje são de conhecimento público"
Elda Bussinguer - Colunista

Alguns questionamentos recebidos, especialmente feitos de forma particular, por amigos queridos, vinculados às instituições referidas, Igreja Católica e igrejas protestantes, foram no sentido de que fiz uma exposição desnecessária do cristianismo, descortinando de forma dura as mazelas de um passado que precisa ser esquecido, já que não representa a realidade de nosso tempo.

Portanto, incoerente o pedido de silêncio vindo de cristãos que conhecem as Escrituras. O adultério e o assassinato cometidos por Davi não foram excluídos do texto bíblico. Foram mantidos como exercício pedagógico para os cristãos.

Todos nós conhecemos as consequências do ocultamento/silenciamento conivente da Cúria Romana nos casos de pedofilia da Igreja Católica que hoje são de conhecimento público. Expurgar nossos tumores e vergonhas faz parte de nossa libertação.

Longe de esconder a história que nos envergonha, deveríamos estudá-la todos os dias. Não superamos o nazismo. Ele está presente hoje, não apenas na fala do secretário exonerado pelo Presidente da República, mas, também, nas atitudes e discursos cotidianos de exclusão dos que pensam diferente de nós.

O gérmen do nazismo está presente, forte, potente e preparado para eclodir. Em alguns, ainda em estado latente, adormecido pela vergonha do passado, mas pronto para explodir, como tem acontecido, desavergonhadamente, em muitos, inclusive lideranças cristãs.

Não é hora de silenciar. É hora de lembrar e trazer à memória nossa triste e vergonhosa natureza humana.

Essa é a primeira razão a justificar a continuidade do tema, em alguns artigos.

A VERGONHA DO PASSADO

A segunda razão é que, ainda que tenhamos vergonha de nosso passado, há lembranças boas a nos encher de esperança e fé no futuro, na humanidade e até, por que não dizer, nas instituições.

Da mesma forma que registra a vergonha das igrejas Católica e Protestante no submundo nazista, a história nos lega o exemplo de resistência das Testemunhas de Jeová, segmento religioso que tentou se impor, sofrendo perseguições para a manutenção de suas crenças e pressupostos religiosos.

Esse segmento religioso, conhecido por ter recusado o cumprimento do serviço militar, agiu com coerência ao não aceitar promover alianças com Hitler e seu regime.

Ao recusarem-se a negar a fé que professavam, foram banidos e perseguidos pelo nazismo. Conquanto não haja unanimidade entre os historiadores quanto ao grau de resistência das testemunhas de Jeová, o certo é que não sucumbiram, como instituição, ao regime totalitário.

A controvérsia acerca de sua real resistência ao regime nazista está ligada ao fato levantado por alguns historiadores de que a grande maioria das acusações contra eles resultaram em absolvições ou sentenças leves. Não nos debruçamos sobre esses estudos.

Por outro lado, historiadores há que afirmam que a resistência ao nazismo, por parte das testemunhas de Jeová, estava ligada à existência de uma matriz comum entre eles, qual seja, a estrutura autoritária e, por que não dizer, totalitária, tendo em vista a crença de ambos de serem os únicos detentores da verdade.

Aos interessados, sugiro a leitura de historiadores que se debruçaram sobre o tema, o que não cabe no bojo e nos limites deste texto.

No próximo artigo abordaremos um pouco mais a relação da Igreja Católica com o Nazismo, a partir da chegada de Pio XII ao Papado, dando continuidade à relação iniciada com Pio XI, já tratada no primeiro artigo. As resistências de alguns pequenos grupos católicos e protestantes alemães também serão abordadas no próximo texto.

Elda Bussinguer

Elda Bussinguer Elda Bussinguer

Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitária

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