Formado em Química antes que as leis raciais de Mussolini proibissem a judeus como ele o acesso a universidades, exímio conhecedor do latim e da obra de Dante Alighieri, o italiano Primo Levi* tinha 24 anos quando foi capturado por uma milícia fascista, nas montanhas do Piemonte, sua terra natal, no noroeste da bota (quase fronteira com a Suíça). Era dezembro de 1943.
Cheio de ideais, mas sem o menor treinamento militar, Levi havia se juntado à resistência contra o nazifascismo e a ocupação alemã no norte da Itália, em um grupo de guerrilheiros ligado ao movimento “Giustizia e Libertà” (os partigiani). Ao ser preso, declarou-se judeu, achando, ingenuamente, que assim teria mais chances de sobreviver do que um preso político. Estamos no auge Segunda Guerra Mundial. O resto do mundo então não fazia ideia da existência dos campos de concentração e extermínio mantidos pelos nazistas, sobretudo na Polônia.
Dois meses depois, Levi foi deportado em um trem de carga, com 650 “peças” – como os alemães se referiam aos prisioneiros. Seu destino foi um dos campos do complexo de Auschwitz-Birkenau. Desses 650 judeus italianos enviados para a morte com Levi, apenas vinte sobreviveram. “Das 45 pessoas do meu vagão, só quatro tornaram a ver as suas casas; e o meu vagão foi, de longe, o mais afortunado”, relata o próprio Levi, em uma passagem de “É isto um homem?”.
No original “Se questo è un uomo”, a obra do químico piemontês é um dos mais importantes testemunhos escritos por um sobrevivente do Holocausto – o genocídio do povo judeu levado a cabo, com rigor científico e método industrial, pelos comandados de Adolf Hitler durante a Segunda Grande Guerra, com base na ideologia da “supremacia da raça ariana”.
O livro é um das mais belas, pungentes e impactantes narrativas testemunhais sobre as atrocidades que o homem foi capaz de cometer contra seu semelhante nos campos de concentração e de extermínio criados pelos nazistas - “campos de morte onde ela, afinal, era o menor dos males”.
Mas talvez o mais marcante fragmento da obra-prima de Levi – publicada pela primeira vez em 1947, por um pequeno editor, um ano depois de seu retorno a Turim – venha antes do relato propriamente dito. Encontra-se no prefácio, escrito pelo autor especialmente para a aclamada editora Einaudi, sediada na mesma cidade, que relançou a obra em 1959, conferindo-lhe a devida dimensão e transformando-a em um clássico mundial.
Tomo licença hoje para reproduzir o alerta feito por Levi à sua geração e, principalmente, às futuras, no prefácio de “É isto um homem?”: enquanto subsistir em algumas mentes a ideia de que o “estrangeiro” é um inimigo a aniquilar, o fantasma do nazismo seguirá pairando sobre os povos. E, para voltar a se manifestar, basta que encontre as condições históricas propícias para isso em determinadas nações.
***
Por minha sorte, fui deportado para Auschwitz só em 1944, depois que o governo alemão, em vista da crescente escassez de mão de obra, resolveu prolongar a vida média dos prisioneiros a serem eliminados, concedendo sensíveis melhoras em seu nível de vida e suspendendo temporariamente as matanças arbitrárias.
Este meu livro, portanto, nada acrescenta, quanto a detalhes atrozes, ao que já é bem conhecido dos leitores de todo o mundo com referência ao tema doloroso dos campos de extermínio. Ele não foi escrito para fazer novas denúncias; poderá, antes, fornecer documentos para um sereno estudo de certos aspectos da alma humana.
Muitos, pessoas ou povos, podem chegar a pensar, conscientemente ou não, que “todo estrangeiro é um inimigo”. Em geral, essa convicção jaz no fundo das almas como uma infecção latente; manifesta-se apenas em ações esporádicas e não coordenadas; não fica na origem de um sistema de pensamento. Quando isso acontece, porém, quando o dogma não enunciado se torna premissa maior de um silogismo, então, como último elo da corrente, está o Campo de Extermínio.
Este é o produto de uma concepção do mundo levada às suas últimas consequências com uma lógica rigorosa. Enquanto a concepção subsistir, suas consequências nos ameaçam. A histórias dos campos de extermínio deveria ser compreendida por todos como sinistro sinal de perigo.
(...)
Acho desnecessário acrescentar que nenhum dos episódios foi fruto de imaginação.”
***
Levi morreu em 1987, aos 67 anos, após cair no vão central das escadas do prédio de três andares onde vivia, em Turim. Deixou uma das mais valiosas obras memorialísticas sobre o genocídio de milhões de judeus produzido pelo nazismo, quando levado às últimas consequências. As circusntâncias de sua morte são incertas. Para muitos, como muitos dos poucos sobreviventes, o autor cometeu suicídio, por não suportar mais o trauma da terrível experiência e da dor de ter... sobrevivido. Disse então Elie Wisel, outro escritor sobrevivente do Holocausto, “Primo Levi morreu em Auschwitz há quarenta anos”.
Pensem que isto aconteceu:
eu lhes mando estas palavras.
Gravem-nas em seus corações,
estando em casa, andando na rua,
ao deitar, ao levantar;
repitam-nas a seus filhos.
(Trecho do poema homônimo que abre “É isto um homem?”)
***
* Pronuncia-se Lévi