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Enfermeira debochou de vacina

O ethos da enfermagem e o exercício profissional moralmente responsável

Profissões de caráter humanitário como a enfermagem não estão livres das moléstias de caráter que assolam profissionais de todas as áreas, indistintamente

Publicado em 26 de Janeiro de 2021 às 02:00

Públicado em 

26 jan 2021 às 02:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

Enfermeira do ES debocha de vacina em vídeo
Enfermeira debochou de vacina em vídeo Crédito: Reprodução/Instagram
Assisti com pesar ao vídeo no qual a enfermeira Nathana Ceschim, com irresponsabilidade e o escárnio típico dos pobres de espírito, expõe sua fragilidade moral e sua juvenil inconsequência, marcando definitivamente sua trajetória profissional, associando a si uma marca da qual dificilmente irá se libertar.
Nathana Ceschim envergonha e entristece toda uma classe de trabalhadores e trabalhadoras que incansavelmente vêm dedicando suas vidas de forma digna, profissional, competente e nobre, enfrentando as adversidades naturais da profissão, sem fugirem de suas responsabilidades, a despeito de terem todas as razões para fazê-lo.
Assisti ao vídeo mais de uma vez, descrente de que alguém pudesse, em plena crise na qual pessoas morrem aos milhares, sem terem um mínimo de chance de sobreviver, agir de forma tão cruel, fria e inconsequente.
Infelizmente era verdade! A figura deplorável daquela moça se penteando, com sua roupa e escova rosas e um discurso carregado de boçalidade, como uma típica Barbie capixaba, que não consegue manifestar um pouco que seja de lucidez e compaixão, me fez pensar em como profissões de caráter humanitário como a enfermagem não estão livres das moléstias de caráter que assolam profissionais de todas as áreas, indistintamente.
O ethos da enfermagem, o cuidado do outro, em sua dimensão ética, estética e científica, aquilo que ontologicamente representa a profissão, o ser profissional, nada tem a ver com o que assistimos. A enfermagem capixaba, com toda a sua nobreza e profissionalismo, não merecia tamanho desgosto.
A Santa Casa de Misericórdia de Vitória, lugar de formação de tantos profissionais médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, assistentes sociais, que têm contribuído com a saúde púbica do Espírito Santo, administrada com competência e zelo, não merecia ser exposta da forma que foi.
Minha solidariedade, portanto, à enfermagem capixaba e à Santa Casa de Misericórdia. Não se sintam depreciadas pela pequenez de apenas um de seus membros. Em todos os ambientes, por mais zelo e rigor ético e jurídico que se tenha, surgirão aqueles que por não suportarem o conhecimento e grandeza de espírito, expõem suas próprias mazelas, maculando, por vezes, suas profissões, suas famílias e os serviços nos quais atuam.
Ainda que nem sempre atitudes dessa natureza sejam fruto de um processo educacional deficitário, já que pessoas sem caráter ou com fragilidades éticas ou incompetências técnicas possam ter se formado em instituições de ensino respeitadas e respeitáveis, é necessário que os responsáveis pela formação profissional dos trabalhadores da saúde, ou de qualquer outra profissão, busquem fortalecer a dimensão ética de seu processo pedagógico.
A preocupação exclusiva, ou prioritária, com as disciplinas técnicas, instrumentais, certificadoras, tem muitas vezes ocupado lugar privilegiado no planejamento educacional.
Disciplinas propedêuticas, que permitem uma formação mais reflexiva, crítica e humanística, como filosofia, sociologia, ciência política, ética, essenciais à formação de qualquer profissional, e dos da saúde em especial, são muitas vezes relegadas a um plano secundário e ofertadas simplesmente em cumprimento às exigências do MEC.
Nas profissões da saúde, com destaque para a enfermagem e a medicina, disciplinas como a Bioética, dentre as já citadas, constituem espaço privilegiado para o desenvolvimento de reflexões sobre a eticidade do fazer profissional e a formação de uma identidade capaz de contribuir para o exercício moralmente responsável dos trabalhadores.
A reflexão dialógica desenvolvida na sala de aula ou nos campos de prática, acerca dos princípios éticos reguladores do comportamento humano e do fazer profissional, é fundamental como prevenção a práticas e discursos moralmente reprováveis como observamos nos vídeos de Nathana Ceschim.
A Bioética pode constituir-se em instrumental protetivo de condutas que sejam ética e juridicamente passíveis de reprovação social, de sanções profissionais decorrentes do vínculo laboral, bem como éticas impetradas pelos conselhos profissionais ou judiciais em decorrência de processos na justiça.
A sanção da sociedade, de dimensão incalculável, nesse caso em especial, em razão da forte capilarização das redes sociais, pode significar uma exposição capaz de provocar consequências dramáticas na vida da profissional em tela.
A dor e o arrependimento diante da exposição pública na televisão, nos jornais, e nas redes virtuais, de sua imagem e do vexame sofrido, podem assumir papel pedagógico, ou não, para Nathana. Se a vergonha servir como um convite à reflexão e reposicionamento na vida, talvez possa haver mudança real e positiva. Se a vergonha se organizar como revolta, as consequências poderão ser ainda mais nefastas.
Os vídeos de Nathana são um convite a todos nós para que reflitamos sobre nossas próprias condutas pessoais e profissionais, nos alertando a como devemos nos abster de manifestações impróprias, que exponham nossa ignorância sobre alguns assuntos, nossos conhecimentos superficiais sobre outros ou nossa vileza moral, fruto de um caráter distorcido pelo egoísmo, autocentrado e autorreferente, que desvela nossa incompetência para uma existência ética e um agir moralmente relevante e responsável.
A enfermagem, profissão do cuidado por excelência, do encontro em uma dimensão ética, estética, constitutiva da beleza e da singularidade de estar com o outro em uma relação empática, não pode ser vivenciada por pessoas que não compreendem a grandeza de ser e estar com o outro no mundo da vida.
Florence Nightingale, a precursora da enfermagem moderna, científica, pesquisadora de primeira linha nos estudos de controle de infecção hospitalar e da concepção das modernas UTIs, é reconhecida internacionalmente pelo símbolo de uma lâmpada, simbolicamente representando aquela que ilumina a vida do outro na medida em que, utilizando-se da ciência, é capaz de convidar à vida e à saúde.
Todas as honras à enfermagem.
O descrédito e a desonra de um de seus exercentes não pode atingir a grandeza de uma profissão que se constitui como o ofício de que mais dependemos na atualidade.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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