No último mês, 94 pessoas perderam as suas vidas nas estradas que cortam o Espírito Santo, fazendo deste o abril com maior mortalidade no trânsito desde 2017. Foi o mês em que o total de assassinatos (43) não alcançou nem a metade das fatalidades ocorridas nas vias.
O cenário também se reflete no acumulado do primeiro quadrimestre, onde as 314 fatalidades já superam em 26% o total de homicídios (249) no Estado.
A tendência confirma uma inversão iniciada em 2024, quando as estradas passaram a matar mais que o crime. Naquele ano, foram 986 vítimas em acidentes contra 856 assassinatos — disparidade que aumentou em 2025, com 1.015 mortes nas vias frente a 761 homicídios.
A concentração dessas ocorrências de janeiro a abril deste ano mostra que mais da metade dos acidentes (57,32%) ocorreu em vias municipais e estaduais. E das onze cidades que registraram acima de dez mortes, seis estão no interior:
Linhares - 22
Colatina - 20
Cachoeiro - 17
São Mateus - 15
Aracruz - 14
Conceição da Barra - 12
São Mateus foi a que registrou mais mortes no mês de abril, com 9 casos.
A maioria dos acidentes ocorreu à noite (48,09%), em sábados (17,20%) e domingos (20,06%). E como resultado de colisões (41,49%).
Tem sido uma rotina que envolve imprudência, alta velocidade e ultrapassagens em locais proibidos. Foi o que registrou a fiscalização da Polícia Rodoviária Federal (PRF) no feriado prolongado com o final de semana.
Só no dia 1º de maio, 495 condutores foram autuados por excesso de velocidade, com registros de casos acima de 134 km/h e um deles a 166 km/h. Foram ainda flagrados 155 motoristas em ultrapassagens proibidas.
O custo social
O especialista em Direito de Trânsito, o advogado Fábio Marçal, considera o cenário grave e que sem mudanças efetivas essas mortes vão continuar acontecendo.
Avalia que é preciso ter um olhar para a estrutura das vias, sobretudo no interior. “As vias estão em condições adequadas, existem pontos críticos que precisam de intervenção, falta fiscalização, é necessário ampliar o uso de radares para coibir imprudências?”.
E atenção com outros pontos e seus impactos, como a flexibilização nas regras para obtenção da carteira de habilitação. “O recado que o governo federal deu com a mudança para tirar a carteira de habilitação foi muito irresponsável. E com isso mais pessoas podem perder suas vidas por falta de habilidades e de noções do contexto do trânsito”, observa.
A violência no trânsito não é apenas uma questão de segurança, observa Marçal. Ela causa reflexos na saúde pública e na economia capixaba. “Muitas vítimas sobrevivem com sequelas graves e passam a depender do sistema de saúde. Em diversos casos, há ainda impactos econômicos, com afastamentos e aposentadorias por invalidez”.
Assinala que um dos caminhos para mudar esta realidade passa pela educação no trânsito, que precisa ser incorporada às primeiras séries, como prevê a Constituição Federal. E com ações de prevenção: “Existe um grupo, liderado pelo governo, voltado à prevenção, mas é preciso avançar com mais rapidez e efetividade”.
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