Era fim de noite quando o policial militar aposentado Cleilton dos Reis, o Ninja, entrou em uma hamburgueria e matou um ex-colega de farda com tiros de fuzil. O crime aconteceu na Grande São Pedro, em Vitória, em outubro de 2024.
Kleber Gonçalves, de 47 anos, estava em uma mesa com o filho e o sócio, quando foi atingido. Chegou a ser socorrido mas morreu horas depois. Ele era ex-policial militar e já tinha sido alvo de um outro ataque a tiros em maio do mesmo ano.
A motivação do crime foi a disputa pelo controle de atividades criminosas relacionadas ao tráfico de drogas e armas, pistolagem, extorsão e agiotagem na região metropolitana de Vitória, comandada por Kleber.
O relato está em denúncia do Ministério Público do Espírito Santo (MPES), onde é descrito que Cleilton, de 56 anos, recebeu um carro — uma Toyota Hilux/SW4 blindada —, que foi transferido para o nome de sua esposa, como pagamento ou como parte da recompensa pela execução do crime.
“Em contexto incompatível com a renda declarada do casal e sem lastro financeiro idôneo, evidenciando que o bem constituiu proveito econômico da execução homicida”, relata o órgão ministerial.
Ele contou com o apoio de Rodolfo da Silva Mercier, 35 anos, acusado de garantir a logística e a fuga.
Ao aceitar a denúncia e tornar os dois réus, o Juízo da Primeira Vara Criminal de Vitória, responsável pelo Tribunal do Júri, também decidiu manter as prisões preventivas, destacando a gravidade das condutas.
“Crime praticado mediante emboscada, com uso de fuzil calibre 5.56mm em via pública e estabelecimento comercial, gerando perigo comum. Ademais, há indícios de profissionalismo na atividade de pistolagem, evidenciado pelo uso de veículos clonados, queima de evidências e planejamento prévio”, é dito na decisão.
Foi acrescentado ainda que havia risco do cometimento de outros crimes, fato revelado em dados extraídos de aparelhos celulares que indicavam o planejamento de novos homicídios.
A dinâmica
Segundo a denúncia do MP, Cleilton utilizou para chegar a hamburgueria um Etios prata clonado, com placa adulterada de Teresina, no Piauí. O carro foi incendiado minutos após o crime, no fim de uma rua no bairro Joana D’Arc, em Vitória.
A rota feita pelo executor até a Grande São Pedro e a fuga foram registradas em câmeras de videomonitoramento. Logo após incendiar o carro, por exemplo, foi identificado que ele estava encapuzado.
Mas durante o trajeto ele retirou o capuz, o que permitiu a visualização de seu rosto pelas câmeras de videomonitoramento. Posteriormente, laudo de comparação facial confeccionado pelo Instituto de Identificação da Polícia Civil do Distrito Federal reforçou a sua identificação como executor, aponta o MP.
A investigação relatada na denúncia revelou que Cleilton veio de sua casa na Hilux que recebeu como pagamento pelo crime até um posto de gasolina na BR 262, em Jardim América, Cariacica.
Em uma rua lateral encontrou Rodolfo com um Onix preto e seguiram para a Grande São Pedro, onde Cleilton mudou de carro, lançando mão de um Etios, que foi posteriormente incendiado.
Após o crime, voltou para o Onix, e junto com Rodolfo seguiram para Cariacica. Lá pegou a Hilux e foi em direção à Vila Velha. E seu parceiro retornou para Vitória.
À Justiça foi dito que Kleber foi morto em uma emboscada, atacado de surpresa por disparos de arma de fogo de uso restrito, quando estava dentro de seu próprio estabelecimento, sentado à mesa com seu filho e seu sócio, em momento de aparentemente descontração.
Os advogados de defesa de Cleilton e Rodolfo não foram localizados, mas o espaço segue aberto à manifestação.