MP vai apurar caso de enfermeira do ES que debochou da vacina contra Covid

Ministério Público estadual afirmou que vai acompanhar encaminhamento das investigações junto ao hospital e Conselho de Enfermagem. Profissional pode perder o registro

Vitória
Publicado em 25/01/2021 às 11h27
Atualizado em 25/01/2021 às 14h46
Enfermeira do ES debocha de vacina em vídeo
Em vídeo, Nathana Ceschim publicado nas redes sociais debocha da vacina . Crédito: Reprodução/Instagram

O Ministério Público do Espírito Santo (MPES) anunciou que irá acompanhar e instaurar os devidos procedimentos administrativos no caso da enfermeira Nathana Ceschim, que publicou, na última sexta-feira (22) nas redes sociais, vídeos em que aparece sem máscara no local de trabalho e debochando da vacina contra a Covid-19.

Durante entrevista à reportagem da TV Gazeta nesta segunda-feira (25), a coordenadora do gabinete de acompanhamento da pandemia do MPES, promotora Inês Thomé afirmou que o Ministério Público repudia as atitudes da enfermeira e que a vacina que combate o coronavírus é uma vitória da Ciência. A coordenadora reiterou a necessidade de imunização da população para "resguardar a vida" e para reduzir a circulação do vírus.

"O Ministério Público irá adotar providências, instaurará procedimento administrativo, até mesmo para acompanhar tanto o que está sendo feito no âmbito do hospital onde essa enfermeira trabalha, tanto no que o Conselho Regional de Enfermagem (Coren) está apurando em relação ao caso", disse.

A coordenadora lembrou também que a Santa Casa de Misericórdia de Vitória, hospital no qual a enfermeira trabalha, é filantrópico, porém presta também atendimento ao Sistema Único de Saúde (SUS). Inês Thomé ressaltou que Nathana Ceschim estava prestando atendimento público à população capixaba, o que deve ser levado em consideração na investigação do MPES.

ENTENDA O CASO

O Hospital da Santa Casa de Misericórdia de Vitória abriu uma investigação para apurar a conduta de uma enfermeira que publicou nas redes sociais um vídeo em que aparece sem máscara no posto de trabalho, durante o expediente. O uso de máscara é obrigatório na unidade. 

A publicação foi feita na noite desta sexta-feira (22) e mostra Nathana Ceschim de touca cirúrgica, em frente a um computador da unidade. O hospital não informou em que área a gravação foi feita. No vídeo, ela brinca com um colega, que aparece na porta da sala com touca, luvas e máscara.

Horas antes, a mesma enfermeira publicou um vídeo em que desdenhava da aplicação da vacina Coronavac. Um comprovante exibido na rede social mostra que a imunização dela contra a Covid-19 aconteceu na terça (19), em Vitória.

"Tomei por conta (sic) que eu quero viajar, não para me sentir mais segura. Porque uma vacina que dá 50% de segurança, para mim, não é uma vacina. Tomei foi água", disse no vídeo.

Desde o último sábado (23), a reportagem de A Gazeta tentou contato diariamente com Nathana, no entanto, mas só obteve retorno da enfermeira na tarde desta segunda-feira (25). Em áudio enviado por WhastApp, ela disse que nos vídeos apenas expressou sua opinião, mas não fez campanha contra a vacina.

"Os meus vídeos foram apenas exercendo o meu direito de liberdade de expressão como um cidadã. Eu fiz um vídeo caseiro, dentro da minha casa, sem expor ninguém, dando apenas o meu ponto de vista. Por quê? Porque, sim, eu acho a vacina importante, mas não acho que seja a salvação do problema. Foi um ponto de vista meu, eu não fiz campanha contra a vacina, não falei paras pessoas não se vacinarem, eu não fiz nada disso. Foi um ponto de vista meu, tanto que eu falo no vídeo, ‘pra mim, essa vacina não tem segurança, eu não tomei ela pra me sentir mais segura’, foi um ponto de vista meu", afirmou.

Sobre o não uso de máscara no local de trabalho, a enfermeira explicou que tirou o Equipamento de Proteção Individual (EPI) após o fim do plantão, próximo das 19h, para tomar água.

"Foi um plantão bastante tumultuado que eu tive, que eu passei o dia todo de máscara e não bebi uma gota d'água. Foi o momento que eu parei em frente do computador, respirei, tirei a máscara para poder tomar um pouco de água e fiz aquela brincadeirinha com o técnico lá da equipe de Enfermagem, que não teve relação em nada com a vacina", afirmou.

O QUE DISSE A SANTA CASA DE VITÓRIA

Em nota, a Santa Casa informou que a falta da máscara no ambiente é uma prática proibida desde o início da pandemia e que todos os colaboradores têm conhecimento sobre essa regra. O hospital ainda disse que “irá tomar as medidas necessárias para garantir a segurança de seus pacientes e a manutenção das normas e condutas fundamentais para o bom atendimento assistencial”.

Sobre a fala da enfermeira sobre a vacina, a Santa Casa esclareceu que, em hipótese alguma, compactua com este tipo de pensamento e que sempre defendeu a ciência. “Não seria agora que mudaria sua postura, em um momento tão difícil que todos estamos enfrentando. Acreditamos sim na vacina e esperamos que, em breve, não só os funcionários, mas toda a sociedade possa ser imunizada”, diz a nota enviada pelo hospital.

O QUE DISSE O COREN-ES

O Conselho Regional de Enfermagem do Espírito Santo (Coren-ES) repudiou a atitude da enfermeira e alegou que Nathana Ceschim pode até ter o o registro profissional cassado e ficar impedida de exercer a profissão. Em nota, o Conselho disse ser “lamentável que o papel social da enfermagem e a nossa contribuição incansável em defesa da vida, após meses de sofrimento e exaustão, caiam no descrédito por declarações irresponsáveis e inconsequentes como essa”. Confira a nota da íntegra: 

“A Enfermagem é uma ciência, arte e uma prática social, indispensável à organização e ao funcionamento dos serviços de saúde; está fundamentada no respeito aos direitos humanos, inerente ao exercício da profissão, o que inclui os direitos da pessoa à vida, à saúde, à liberdade, à igualdade, à segurança pessoal, à livre escolha, à dignidade e a ser tratada sem distinção de classe social, geração, etnia, cor, crença religiosa, cultura, incapacidade, deficiência, doença, identidade de gênero, orientação sexual, nacionalidade, convicção política, raça ou condição social.

Lamentável que o papel social da enfermagem e a nossa contribuição incansável em defesa da vida, após meses de sofrimento e exaustão caiam no descrédito por declarações irresponsáveis e inconsequentes como essa.

O Conselho Regional de Enfermagem repudia tal conduta e informa que já determinou abertura de procedimento ético para apurar o caso. É inaceitável que, após onze meses de enfrentamento à pandemia e em defesa da vida, um profissional de Enfermagem se posicione nas redes sociais de forma irresponsável e inconsequente, comprometendo a ciência, a saúde e a vida das pessoas.

A apuração, com amplo direito de defesa, será com base no Código de Ética da Enfermagem. As penalidades previstas vão de advertência à cassação do registro profissional.”

O QUE DISSE A SESA

A Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) do Espírito Santo informou que "lamenta o posicionamento de qualquer profissional da saúde que desacredite da ciência em prol da vida".

Atualização

25 de Janeiro de 2021 às 14:45

A enfermeira Nathana Ceschim respondeu aos questionamentos de A Gazeta nesta segunda-feira (25).  Ela explicou porquê gravou os vídeos e apareceu sem máscara no local de trabalho. Por isso, a reportagem foi atualizada.

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.