Helder, Ricardo e Pazolini: esquerda, direita e direita
(flertando agora com a extrema-direita). Quem poderá defender o centro na
eleição ao Palácio Anchieta?
Ricardo Ferraço (MDB) é notoriamente, desde seu berço
político, um homem público de direita – com certa elasticidade, no máximo, de
centro-direita. Enfrenta sérias resistências junto àquela esquerda mais “raiz”.
Sem precisarmos nos alongar muito aqui, como senador, o
filho de Theodorico Ferraço votou a favor do impeachment de Dilma Rousseff (PT)
em 2016; no ano seguinte, relatou o projeto da reforma trabalhista do governo
Temer. Mesmo agora, como governador, a mútua rejeição nutrida entre ele e o PT
sobressai desde a montagem de sua equipe de governo – aliás, desde antes de ele
assumir oficialmente, no dia 2 de abril.
Votos de eleitores genuinamente esquerdistas, para Ricardo,
serão difíceis. Mas essa fatia do eleitorado, no Espírito Santo, é minoritária.
Perdeu força numérica nos últimos anos. E será representada no pleito pela
candidatura de Helder Salomão (PT).
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Agora, ideologia pessoal à parte, Ricardo poderia ser
naturalmente o candidato do centro, podendo varrer votos da centro-esquerda à
direita moderada.
É o candidato do MDB, o partido do centro por excelência,
cujo slogan atual é “Ponto de equilíbrio”. Lidera uma frente ampla que vai de
partidos de centro-esquerda (PDT e PSB) a outros de centro-direita (Federação
União Progressista, ainda com ele).
No entanto, desde que assumiu o governo no lugar de
Casagrande, Ricardo passou a fazer alguns acenos bem visíveis ao eleitorado não
só de direita, mas até da extrema-direita. São acenos até contraditórios com o
discurso que ele tem repetido: o de não querer entrar em “brigalhada
ideológica” que não gera resultados para os cidadãos no dia a dia.
No fim de maio, quando Lula esteve em Aracruz, para evento do
Ministério da Cultura, o governador limitou-se a receber o presidente da
República institucionalmente no Aeroporto de Vitória, mas nem sequer foi
divulgado um registro do brevíssimo encontro. Os dois se viram, mas não se
deixaram ver.
Já no início de julho, com o prefeito Arnaldinho Borgo (oficial da reserva do Exército que gosta de disparar em stands), Ricardo participou de um evento chamado “Café com Pólvora”, promovido regularmente pelo Clube de Tiro de Vila Velha. O governo Bolsonaro foi o da explosão dos CACs.
Presente, também estava ninguém menos que Wellington
Callegari, opositor ferrenho de Casagrande, pré-candidato a senador pelo DC e
um dos mais sanguíneos bolsonaristas no atual plenário da Assembleia, empatado
com Lucas Polese (PL). Na camiseta dele, a frase “Anistia Já”.
Segundo testemunhos, durante o encontro, Ricardo falou a
atiradores sobre questões como aborto e “ideologia de gênero”. São temas altamente
polêmicos, não raramente distorcidos, mas que tocam no fundo da alma de
bolsonaristas mais fervorosos.
Celebração da cultura armamentista, ênfase na agenda de
costumes com posicionamentos conservadores... um combo completo do
bolsonarismo. Só faltou Magno Malta (PL) aparecer de surpresa por ali para dar
também ele seus disparos...
A inclinação do centro para a direita também desponta de
algumas ações de governo, desde que Ricardo assumiu.
Exemplo mais bem-acabado foi o decreto pelo qual ele mudou a
composição da Comissão Estadual de Prevenção e Conciliação de Conflitos
Fundiários, encarregada de realizar a mediação entre as partes e garantir o
cumprimento de ordens de reintegração de posse.
Ricardo transferiu a coordenação da Secretaria de Direitos
Humanos para a de Segurança Pública (que nem sequer fazia parte da comissão),
excluindo a participação de outros órgãos e Poderes e tratando conflitos agrários, declaradamente, como “problema de segurança, não de direitos humanos” (conforme entrevista dada à colunista Vilmara Fernandes).
O governador
passou a fazer uma inflexão temerária
e, a meu ver, talvez tenha passado um pouco do ponto, sem necessidade. Uma
coisa é fazer um aceno; outra é agitar os braços. Tiro de pólvora no pé.
Exemplo mais emblemático: não ter feito nem um só registro de sua recepção a
Lula, mas ter feito questão de abraçar, ser fotografado e postar há cerca de 20 dias seu encontro efusivo com o “Véio da Havan”, ícone nacional do bolsonarismo
entre grandes empresários. Esse critério atrai quem dificilmente votará nele ou
repele quem poderia votar?
Talvez os gestos sejam fruto do receio de perder por inteiro
para Pazolini o vasto eleitorado bolsonarista no Espírito Santo e da
necessidade, captada por sua campanha, de não perder totalmente a aderência desse
público, mantendo pelo menos um pé bem firme nessa faixa. Não deixar de “falar”
aos bolsonaristas mais apaixonados, enquanto dialoga com os demais.
Mais ainda agora que Pazolini se tornou, oficialmente, o candidato
do PL, de Flávio e da família Bolsonaro, apoiando o primogênito de Jair para a
Presidência da República e sendo por ele apoiado para chegar ao Governo do
Estado. Pazolini, enfim, virou o candidato bolsonarista. Ganhou o carimbo no último
dia 18.
Antes de o PL fechar com o ex-prefeito de Vitória, em eventual
disputa polarizada entre este e Ricardo, alguns eleitores de esquerda até já
cogitavam fechar os olhos e optar por Pazolini, tamanha a inflexão feita por
Ricardo à direita – por entenderem que, entre dois candidatos direitistas,
Pazolini poderia revelar maior empatia com algumas causas sociais...
Agora, contudo, Pazolini fez a sua opção. Ao escolher caminhar com o PL, Magno etc., ele praticamente anula as próprias chances de atrair votos do eleitorado de esquerda e de centro-esquerda.
Também terá de
batalhar em dobro para obter os votos dos eleitores mais moderados, independentes,
de centro... É o risco assumido por ele. Seu alcance automaticamente fica muito
mais limitado a uma parcela específica do eleitorado – mas é uma parcela significativa.
Nesse cenário, tendo Helder bem postado à sua esquerda (como
o candidato do PT e do Lula) e Pazolini à sua direita (como o candidato do PL e
dos Bolsonaro), Ricardo poderia atrair, por gravidade, os votos dos eleitores
de centro que não se identificam de verdade nem com um nem com outro – e não
hão de ser poucos.
Não se pode jamais subestimar a quantidade de eleitores que
só votam em Lula porque sua rejeição a Bolsonaro é ainda maior, e vice-versa. De acordo com pesquisa da Quaest publicada por A Gazeta em maio, 30% dos eleitores capixabas declaram-se “independentes”.
Contudo, como dissemos, Ricardo pode estar errando a mão...
Se ele passar a se concentrar numa disputa com Pazolini
pelos votos da direita à extrema-direita, quem é que vai preencher esse campo
do centro para a esquerda? Criar-se-á um deserto, um vazio de representação e
de opções para o eleitorado desse grande segmento.
Helder atento a essa
brecha
Se isso realmente ocorrer, arrisco-me a dizer que há uma
chance de Helder Salomão crescer.
Até por falta de opções, poderá ser ele a preencher parcialmente
esse vácuo, apresentando-se como alternativa mais viável a esse eleitor de
centro que na certa não votará em Pazolini (agora, oficialmente, o candidato
bolsonarista) e que poderá pensar duas vezes antes de confiar seu voto a um
Ricardo que também tem se afastado do centro...
Até porque Helder, mesmo sendo do PT, ou melhor, mesmo
dentro do PT, sobressai justamente por ser dono de um perfil moderadíssimo.
O próprio Helder, aliás, parece já ter compreendido isso.
No discurso seminal de sua campanha, ao ser homologado
candidato na convenção do PT com o PV e o PCdoB, duas partes se destacaram.
Num primeiro momento, Helder tratou de tachar Pazolini e
Ricardo, em outras palavras, como “farinha do mesmo saco” (sem citar os
adversários).
“Nós estamos vivendo um momento no Espírito Santo em que os
nossos adversários brigam para saber quem é mais aliado das pautas da
extrema-direita. Eles estão buscando o mesmo nicho do eleitorado”, disse o
petista à militância, na noite da última quinta-feira (30).
Num segundo momento, o deputado petista exortou seus
apoiadores a fazerem com ele uma campanha que consiga ir além da própria bolha (bem
entendido: a da esquerda).
“Nós aqui somos a base principal. Mas nós teremos que
dialogar com gente que está fora da nossa bolha. Portanto, é preciso que nós, a
partir de hoje, ampliemos o diálogo com forças políticas que não compõem esta
aliança, mas que não querem a manutenção do que aí está.”
Segundo Helder, o ex-prefeito representa “um projeto
autoritário” e “se alia àquele que articulou o tarifaço contra o Espírito Santo”.
“Vamos mostrar que somos muito diferentes”, disse Helder,
que já havia declarado em 4 de julho: na sua concepção, Ricardo e Pazolini são “iguais”,
ou “muito parecidos”.
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