Conhecido nas redes sociais como Casão, pelo público em geral
como Casagrande e por todos os políticos apenas como Renato, o ex-governador na
verdade tem nome de batismo composto: José Renato.
Diante de sua
declaração explícita de apoio à reeleição do presidente Lula (PT), no último
sábado (25), poderíamos lhe perguntar, como no célebre poema de Carlos
Drummond de Andrade: “E agora, José?”
Ou “e agora, José Renato?!?”
“Meu candidato à Presidência é o Lula”, disse ele.
Sua tomada de posição faz sentido e é até certo ponto
natural, principalmente do ponto de vista partidário (o do PT de Lula e o do
seu PSB). Mas coloca o ex-governador em uma encruzilhada eleitoral: até que
ponto, desta vez, ele se engajará de verdade, pessoalmente, na campanha de Lula
contra o bolsonarismo?
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O PT o pressiona por isso. No Espírito Santo, o partido de
Lula prioriza a reeleição do senador Fabiano Contarato. A Federação Brasil da
Esperança (PT, PV e PCdoB) também tem candidato próprio a governador, o
deputado federal Helder Salomão, adversário do governador Ricardo Ferraço (MDB)
– por sua vez, apoiado por Casagrande.
Tanto Helder quanto Contarato foram oficialmente lançados na
noite de quinta-feira (30), na convenção estadual do PT, realizada no Clube
Álvares Cabral.
Apesar de Casagrande não apoiar Helder para o governo, o
partido de Lula tende a apoiar informalmente o retorno de Casagrande ao Senado,
pedindo para ele o segundo voto para o cargo.
A relação entre eles é boa. O PT apoiou formalmente a
reeleição de Casagrande em 2022, integrando a sua coligação, numa aliança
tática para ajudar a derrotar no Estado o bolsonarismo então encarnado por
Carlos Manato.
O PT participou do último governo de Casagrande. Ele tem no
partido de Lula alguns velhos aliados, como os deputados estaduais João Coser e
Iriny Lopes. Por acaso, os dois são hoje os principais dirigentes do partido de
Lula no Espírito Santo.
Mas o PT, desta vez, espera reciprocidade. Quer participação
real de Casagrande na campanha de Lula, no lugar da postura passiva que ele
assumiu quatro anos atrás, quando disputava um terceiro mandato no Palácio
Anchieta.
O próprio João Coser,
presidente estadual do PT, verbalizou essa expectativa logo após a convenção da
Federação Brasil da Esperança. Segundo ele, muita gente no partido deseja e
aposta numa dobradinha informal entre o ex-governador e Contarato.
“Tem um
desejo, mas precisamos ajustar uma conversa ainda com o Renato. Tem muita gente
do partido que deseja apoiar Renato, mas ainda não tem uma deliberação do
partido. Já declarei publicamente que torço pelo apoio a Renato.”
Nós confiamos no Renato. Ele tem muito
a contribuir o segundo voto com o Contarato. Prefeitos, lideranças
empresariais, sociais e políticas... Eu estou apostando nisso, mas não tem
deliberação formal.”
João Coser, deputado e presidente estadual do PT
Coser disse esperar que desta vez a
atitude Casagrande em relação a Lula “seja diferente”, isto é, que ele entre de
verdade na campanha.
“Nós esperamos que ele entre na
campanha. Ele já declarou voto, já declarou apoio, o PSB tem declarado apoio.
Agora, essa pergunta tem que ser feita para ele. Eu não posso falar por ele. O
meu desejo é que ele faça campanha para o Lula por diversas razões, mas
principalmente porque o Lula é o melhor presidente, o melhor candidato, e
também porque o PSB está na vice do Lula, com o Alckmin, então não tem lógica
não fazer campanha. Espero que seja diferente.”
Já a deputada federal Jack Rocha,
antecessora de Coser na presidência estadual do PT, opina que “foi muito
importante a declaração do Renato, dizendo que vai votar no Lula”. Foi um passo
importante para que, em breve, o PT consolide o apoio informal a Casagrande.
“O PT segue a orientação nacional. E,
nacionalmente, estamos também numa aliança formal com o PSB. Uma das
reivindicações era o Casagrande se posicionar ao lado do palanque do Lula, e
isso aconteceu.”
Coligados nacionalmente, PT e PSB não
estarão na mesma coligação no Espírito Santo, já que o PSB apoia Ricardo
Ferraço e faz parte da coligação do atual governador.
A postura de
Casagrande em 2022
Em 2022, mesmo com o PT em sua coligação estadual e com seu
PSB na coligação nacional de Lula, Casagrande limitou-se a fazer manifestações
protocolares de apoio ao petista para a Presidência, em uma ou outra
entrevista. No período de campanha, não pediu votos para Lula, nem nas ruas nem
na propaganda eleitoral.
Por estratégia, no segundo turno, ele acolheu o “voto
Casanaro”, derrotando Carlos Manato. Também por estratégia, Lula nem sequer
pisou no Espírito Santo durante aquela campanha.
Desta vez, a sinuca de bico em que se encontra Casagrande é
ainda maior… Como é que ele, mesmo apoiado informalmente pelo PT, poderá pedir
votos para Lula, se ele mesmo e o PSB aqui estarão com Ricardo Ferraço,
político mais simpático à direita?
A relação de Ricardo
com o PT
Ricardo, pessoalmente, é tão refratário ao PT que assinou, em
março, com outros 16 presidentes estaduais do MDB, manifesto entregue ao
presidente nacional da sigla, Baleia Rossi, pedindo que o MDB não se coligasse com ninguém na disputa presidencial,
ou seja, que o partido não apoiasse Lula, liberando os diretórios regionais
para se posicionarem livremente em cada estado.
De fato, há poucos dias, a direção nacional do MDB oficializou
a neutralidade na eleição para a Presidência.
Pouco antes de Ricardo assumir o governo, em 2 de abril, o
PT, que estava com Casagrande, decidiu não participar do governo do emedebista.
Secretária de Recuperação do Rio Doce no início do governo de
Ricardo, Margareth Saraiva Coelho foi filiada ao PT por quase 40 anos, mas se
desfiliou em 26 de março, poucos dias antes de Ricardo tomar posse. Em junho,
foi exonerada.
Para onde marchará
José Renato?
Para aumentar a sinuca de bico, há a segunda candidatura ao
Senado, hoje ocupada por Rose de Freitas (MDB), na coligação que terá Ricardo a
governador e Casagrande a senador.
Como Casagrande poderá pedir votos para Contarato, se o
segundo candidato de sua coligação com Ricardo será outra aliada?
O risco está em um dos versos quase esquecidos lá no meio do consagrado poema de Drummond (o
penúltimo da terceira estrofe), o qual poderão lhe apontar:
sua incoerência,
Na eleição estadual deste ano, dois caminhos estão muito bem definidos
na mente do José Renato: seu candidato ao governo é Ricardo e sua marcha
pessoal é mesmo em direção a Brasília: marcha de retorno ao Senado, 16 anos
depois.
Quanto ao resto, marchará desta vez José Renato com Luiz
Inácio? Ficamos com os dois versos derradeiros do icônico poema de Drummond:
você marcha, José!
José, para onde?
Adendo: ainda há o candidato do PSol
Os dirigentes petistas também mostram cuidado em não desrespeitar
um quarto candidato ao Senado nesta história, o Professor Carlos Fabian,
lançado pelo PSol.
O Professor Fabian até compareceu à convenção da Federação
Brasil da Esperança.
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