Após semanas de deliberações, a “esquerda mais esquerdista” no Espírito Santo, representada pela Federação Rede/PSol, definiu o que fará na eleição majoritária (para o Governo do Estado e o Senado). É uma solução
complexa, com o intuito de agradar a todo mundo.
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Os dois partidos não têm tanto em comum assim no Estado, mas
estão amarrados eleitoralmente por força da federação. No fim das contas, se
entenderam, mas convergiram em muito pouco.
A federação de esquerda virá sem coligação na majoritária,
lançando unicamente a candidatura ao Senado do Professor Fabian (PSol) como
candidato ao Senado, mas com apoio real só do PSol. Tecnicamente, ele será o
candidato da federação, o que também inclui a Rede Sustentabilidade, mas na
prática a Rede não o apoiará.
A Rede fica liberada para, informalmente, apoiar Renato Casagrande
(PSB) e Fabiano Contarato (PSB) ao Senado, e Ricardo Ferraço (MDB) ao governo.
Enquanto isso, o PSol fica liberado para, informalmente,
apoiar Contarato ao Senado (além do Professor Fabian) e Helder Salomão (PT) ao
governo.
Assim, os dois parceiros na federação só estarão juntos no
apoio a Lula (PT) para a Presidência da República e no apoio a Contarato para o
Senado.
Embora estejam na mesma federação, as duas agremiações de
esquerda apoiarão candidatos diferentes na corrida ao Palácio Anchieta e um
segundo candidato diferente na disputa pelo Senado.
O PSol estará no palanque de Contarato e de Helder, mas não
pode estar, formalmente, na coligação do PT (isto é, da Federação Brasil da
Esperança). Para isso, teria de levar junto a Rede, que não queria estar nesse
palanque, porque apoia Casagrande e Ricardo.
A Rede, por sua vez, estará no palanque de Casagrande e
Ricardo, mas não pode estar, formalmente, na coligação de PSB e MDB. Para
tanto, teria de arrastar consigo o PSol, que não queria estar nesse palanque,
porque apoia Helder Salomão para o governo.
Mesmo não apoiando na prática o professor Fabian para o
Senado, a Rede aceitou o lançamento dele pala federação Rede/PSol, para não
inviabilizar a candidatura do nome do PSol.
Se você não conseguiu compreender na plenitude o arranjo,
não se preocupe: é complicado mesmo. Talvez se formos por outro caminho,
focando nos personagens em vez dos partidos, fique mais fácil de entender:
ELEIÇÃO AO SENADO
Professor Fabian (PSol): tecnicamente, será o único
candidato da Federação Rede/PSol. Na prática, será o primeiro candidato do PSol,
ao qual é filiado, e só terá o apoio do partido.
Renato Casagrande (PSB): na prática, será um dos dois
candidatos apoiados pela Rede ao Senado (mas não pelo PSol).
Fabiano Contarato (PT): na prática, terá o apoio da Rede e
do PSol, mesmo sem essa federação formalmente presente em sua coligação.
ELEIÇÃO AO GOVERNO DO
ESTADO
Helder Salomão (PT): Na prática, terá o apoio do PSol (mas
não da Rede), mesmo sem essa federação de esquerda coligada ao PT.
Ricardo Ferraço (MDB): Na prática, terá o apoio da Rede (mas
não do PSol), mesmo sem a federação formalmente integrada à sua coligação.
Conclusão
Na realidade, essa é mais uma amostra de como o dispositivo
da “federação” é uma certa anomalia que dá ensejo a situações anômalas como
essa. É uma espécie de meio-termo entre a autonomia dos partidos envolvidos e uma
fusão completa.
Oficialmente, cada partido envolvido na federação não perde
por completo a autonomia: preserva seu estatuto, seu programa, seus próprios
quadros partidários. Mas, em termos práticos, tanto em processos eleitorais
como na atuação parlamentar, as siglas integrantes funcionam como se fossem um
partido só.
A ligação é temporária, mas longa: quatro anos de duração. E,
enquanto estiver valendo, a união é insolúvel. Nas eleições, necessariamente, as
siglas deverão caminhar juntas. A regra é vertical: vale tanto nacionalmente (na
eleição presidencial) como nas disputas estaduais.
Só que, quando se desce para os estados, a federação
fatalmente esbarra em uma série de dificuldades e discordâncias regionais: cada
partido tem interesses, estratégias eleitorais e, não raro, candidatos preferidos
diferentes.
Vira um casamento forçado, no qual os dois cônjuges não queriam
estar juntos. São obrigados a viver sob o mesmo teto, mas cada um mantém seus
relacionamentos políticos paralelos. Não podem se divorciar, mas a união
conjugal é de fachada.
A história se repete
Para viabilizar os planos de cada um, é comum que se criem “soluções
criativas”, ou mirabolantes mesmo, como essa agora encontrada por PSol e Rede
no Espírito Santo.
Na eleição estadual passada, em 2022, ocorreu algo até parecido.
Em mais uma prova de como a união do PSol com a Rede nunca funcionou tão bem, a
federação teve a candidatura a governador de Audifax Barcelos, que então
controlava a Rede no Espírito Santo.
O PSol não queria nada com ele e lançou a candidatura ao
Senado do historiador Gilbertinho.
Tecnicamente, Audifax era o candidato da federação
(portanto, também o do PSol), mas não tinha o apoio do partido de Camila
Valadão.
Já Gilbertinho, tecnicamente, também era o candidato da
Rede, embora não tivesse o apoio nem de Audifax nem do partido do ex-prefeito
da Serra.
Agora, assim como há quatro anos, a Rede e o PSol estão
juntos, mas não estão. Unidos, porém separados...
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