Sair
Assine
Sair
Entrar

Recuperar senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Cadastrar nova senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Vitor Vogas

O primeiro grande erro político de Cris Samorini. E seu maior desafio

Politicamente, ao buscar a cassação de vereador do PT, o tiro saiu pela culatra. Agora, será preciso administrar os danos políticos e reconstruir a base numa relação que já vinha esgarçada com o Câmara de Vitória

Publicado em 24 de Julho de 2026 às 05:00

Públicado em 

24 jul 2026 às 05:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas
Acima, Cris Samorini e Professor Jocelino; abaixo, os 16 vereadores unidos no "G16"
Acima, Cris Samorini e Professor Jocelino; abaixo, os 16 vereadores unidos no "G16" Fotomontagem

Entre vereadores de Vitória, inclusive integrantes da base, a avaliação é unânime: a prefeita Cris Samorini (PP) cometeu um grave erro de cálculo político, ao pedir ao presidente da Câmara, Anderson Goggi (Republicanos), para pedir à Corregedoria da Casa a instauração de um processo que poderia culminar com a cassação do vereador Professor Jocelino (PT). Isso porque, em postagem e discurso, o petista insinuou que a Prefeitura de Vitória poderia ter vinculação com um esquema de fraudes licitatórias investigado pela Operação Colossus.

> Quer receber as publicações da Coluna Vitor Vogas pelo Whatsapp? É só clicar aqui


A própria assessoria da Câmara pesquisou em seus arquivos e confirmou o ineditismo da medida. Não há precedente de um prefeito que tenha requerido a cassação de um vereador, por intermédio do presidente da Casa.


Pazolini, Luciano Rezende, João Coser e daí para trás... todos, naturalmente, enfrentaram sérios atritos com vereadores de oposição. Nenhum deles chegou a propor o que propôs a atual prefeita com pouco mais de 100 dias no cargo. E é difícil encontrar um precedente em qualquer outro município capixaba.  


Na avaliação da coluna, a medida de Cris foi extrema e desproporcional ao ato praticado pelo parlamentar de oposição.


A inédita iniciativa gerou mal-estar geral e uma reação contrária do plenário, incluindo a base da prefeita. Alguns falaram em “ataque ao Poder Legislativo”. Por espírito de autopreservação, vereadores se uniram contra a tentativa do Executivo de cassar o mandato de um membro do Parlamento, eleito pelo povo de Vitória.


Não por amor ao colega, mas para evitar a criação de um temerário precedente que poderia instaurar na Casa um clima de terror político e, em tese, cercear o exercício dos próprios mandatos parlamentares: “Hoje Jocelino, amanhã quem?”. Fosse aberto tal precedente, qualquer um pensaria duas vezes antes de subir à tribuna para fazer uma crítica mais severa à gestão municipal.


Em meio a fortíssima pressão – materializada nos xingamentos que proferiu logo após a sessão de terça-feira (21) –, o presidente Anderson Goggi botou o pau na mesa. Disse nã-nã-ni-nã-não. Como aqui mostrou a colunista Letícia Gonçalves, mesmo sendo aliado de Cris e correligionário de Pazolini, o presidente recusou-se a dar andamento ao pedido da prefeitura.


Em vez disso, Goggi engavetou o pedido, o qual, basicamente, não deu em nada. Jocelino seguirá tocando normalmente seu mandato – talvez ainda mais encorajado a elevar o tom contra a gestão municipal. Foi transformado numa vítima. De concreto mesmo, estabeleceu-se um novo paradigma no relacionamento político da prefeitura com a Câmara Municipal.


Mas agora, será a prefeitura quem deverá pensar duas vezes antes de tomar medida similar. Após a derrota política no episódio envolvendo Jocelino, é improvável que a gestão de Cris volte a pedir a cassação desse ou daquele parlamentar em caso análogo, sob o risco de passar novamente por um constrangimento dessa ordem.


O presidente Goggi também estabeleceu o seu padrão (“vou até aqui”). Por mais que seja aliado – e dependa do apoio da prefeitura para se eleger deputado estadual em outubro –, passou a mensagem de que é mais que um “pau mandado”. Peço vênia pelo uso da expressão vulgar, mas creio estar desculpado depois que o próprio Goggi usou, em outra acepção, o monossílabo de três letras... O que cresceu, no fim das contas, foi sua autoridade entre os colegas.


Mas, acima de tudo, cresceu o clima de tensão que já vem dominando a Câmara nos últimos meses. O episódio agravou o estresse no relacionamento político entre a prefeitura e os vereadores, o qual vem se aprofundando desde meados de março, quando Cris ainda era vice-prefeita.


O timing também foi ruim. A Câmara já vivia dias de turbulência, agravados pela tensão pré-eleitoral (nove dos 21 disputarão mandato em outubro) e, mais ainda, pelo recente episódio relacionado ao vereador Baiano do Salão (Podemos), condenado em 1º grau por estupro de vulnerável e lesão corporal qualificada e agora alvo de processo por quebra de decoro na Corregedoria.


Além disso, o pedido enviado ao presidente pelo procurador-geral da prefeitura, Tárek Moussalem, coincidiu com o período em que a Câmara precisa votar um dos projetos mais importantes para os munícipes de Vitória e, notadamente, para a própria prefeitura: a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO).


Encaminhado à Casa de Leis pela prefeita, o projeto dá a base necessária para a elaboração do orçamento municipal para 2027. Atenção: é o primeiro orçamento que será inteiramente formulado e executado pela gestão Samorini.


Por coincidência (ou não, já que é o presidente quem prepara a pauta), o pedido da prefeitura contra Jocelino foi lido por Goggi no expediente da mesma sessão em que estava pautada a votação da LDO, na terça-feira (21). Pegos de surpresa, em meio a termos como “loucura” e “absurdo”, os vereadores em peso derrubaram a sessão por falta de quórum.


No dia seguinte, com a batata quente nas mãos, Goggi já chegou ao plenário avisando aos colegas que arquivaria o pedido. Mesmo assim, vereadores repetiram o protesto: esvaziaram o plenário, e a sessão novamente caiu. Por dois dias consecutivos, boicotaram a votação da LDO, que assim virou sigla para “Levante dos Opositores”.


Mas não só dos opositores.


E aqui reside, na certa, a maior dificuldade de Cris neste início de mandato e seu maior desafio pela frente como prefeita.

O maior desafio de Cris

Basicamente, a prefeita hoje não possui uma base parlamentar consistente. A maioria vota com ela, mas é um plenário volúvel.

Dos 21 atuais vereadores, só cinco podem ser considerados, no momento, aliados incondicionais da prefeitura: Goggi, Luiz Emanuel (Republicanos), Davi Esmael (Republicanos), Armandinho Fontoura (PL) e Leonardo Monjardim (Novo), o líder do governo em plenário.

O resto está reunido no chamado G-16, um grupo que reúne opositores declarados à esquerda e à direita, críticos à prefeitura e vereadores do Centrão municipal, não necessariamente alinhados à gestão da ex-presidente da Findes.

A bem da verdade, Cris assumiu a prefeitura, no dia 4 de abril, no lugar de Pazolini, em circunstâncias políticas difíceis.

Em primeiro lugar, como era vice-prefeita, não foi ela quem pessoalmente construiu nos últimos anos uma base parlamentar na Câmara.

Segundo e mais importante: ela herdou o cargo de Pazolini justamente no momento em que este vivia seu momento mais crítico no relacionamento com a Casa desde sua chegada ao cargo, em janeiro de 2021. O rojão ficou nas mãos de Cris. 

Eleição da Mesa

O pano de fundo da crise foi a sucessão da presidência da Mesa Diretora. Inicialmente, a eleição interna estava marcada para a primeira quinzena de agosto (pouco antes da campanha eleitoral, que terá início oficialmente no próximo dia 16). Essa data é altamente questionável (no mérito, não concordo com ela). Mas era o que previa, expressamente, o Regimento Interno da Câmara.


Tendo isso em mente, um grupo de 16 vereadores, incluindo alguns membros da base, organizou-se e lançou a candidatura de Dalto Neves (SD) para suceder Anderson Goggi e presidir a Câmara no segundo biênio do atual mandato (2027-2028).


Vitória tem 21 edis. Matematicamente, a candidatura de Dalto já nasceu com maioria para ser vitoriosa em agosto. Isso à revelia de Pazolini, cujos planos eram diferentes.


Numa crise com direito a vazamento de áudio, o então prefeito entrou em campo e buscou negociar politicamente com Dalto. Preferia que a eleição da Câmara fosse realizada só no fim do ano – após as eleições gerais de outubro, nas quais ele concorrerá a governador do Estado. Não houve acordo político.


Os cinco mais leais à prefeitura, citados acima, chegaram a ensaiar a proposição de um projeto de resolução para mudar a data da eleição interna no Regimento Interno. O texto nem chegou a ser protocolado.


Os 16 “rebelados” bateram o pé, firmaram o movimento “Dalto em agosto” e chegaram a fazer foto em frente ao plenário, em demonstração de unidade. Na imagem, veem-se da vereadora do PSol (Ana Paula Rocha) ao vereador mais bolsonarista (Dárcio Bracarense). 

Grupo de 16 vereadores reunido em frente à sede da CMV em março para expressar apoio a Dalto Neves
Grupo de 16 vereadores reunido em frente à sede da CMV em março para expressar apoio a Dalto Neves Reprodução do Instagram de Camillo Neves

O grupo de Pazolini, então, recorreu à via judicial, por intermédio de Anderson Goggi. A Procuradoria-Geral da Câmara ajuizou uma ação diretamente no STF. No dia 17 de abril, o ministro Gilmar Mendes acolheu o argumento, reconheceu a inconstitucionalidade daquele trecho do Regimento Interno e determinou que a eleição interna só seja realizada a partir de outubro.

Foi uma vitória jurídica para o grupo de Pazolini (por conseguinte, de Cris). Mas o G-16 se manteve coeso em torno da candidatura de Dalto.


Foi nesse clima belicoso que Cris assumiu a prefeitura, precisando reconstituir uma base parlamentar.

Para ampliar o clima de tensão, estamos aí com uma eleição geral batendo à porta. Dos 21 vereadores, seis são pré-candidatos a deputado estadual. Ana Paula Rocha concorrerá a federal. Dárcio, a princípio, também. Monjardim já foi homologado em convenção do novo como candidato a senador.


Além disso, o vereador Camillo Neves (PP), um dos articuladores de Dalto, é cotado para ser candidato a vice-governador de Ricardo Ferraço (MDB). 

A eleição para o Governo do Estado

A propósito, a principal camada de tensão é a eleição para o Governo do Estado, colocando frente a frente Pazolini (apoiado por Cris) e o governador Ricardo Ferraço, que tem muitos aliados na Câmara.


Dos 21 vereadores, oito já declararam apoio a Ricardo – incluindo o agora licenciado Baiano do Salão e vereadores eleitos pela base de Pazolini e até com a ajuda dele, como Aylton Dadalto (Republicanos), do partido do prefeito.


Outros dois são do PT (e apoiam Helder Salomão). Ana Paula Rocha é do PSol. Dárcio é opositor de Pazolini. Restam nove vereadores, no máximo, que poderão apoiar o ex-prefeito.


“Isso dá muito o que pensar. Pela primeira vez na história, temos um prefeito de Vitória que renuncia no meio do mandato para se candidatar a governador e enfrentar nas urnas o governo atual. Mas é um prefeito que, ao deixar o cargo, não consegue reunir o apoio da maioria dos vereadores da cidade que ele mesmo governou por mais de cinco anos”, avalia, sob anonimato, um vereador da base.


A explicação para isso, para alguns, seria a alegada “falta de diálogo de Pazolini com os vereadores”, ou “falta de diálogo com a classe política”, citada por parlamentares ouvidos nesta apuração.


Reservadamente, quando houve a passagem de bastão de Pazolini para Cris, muitos expressaram a expectativa de que “o diálogo com a Câmara mudasse de patamar”.


Com a tentativa frustrada de pedir a cassação de Jocelino, o patamar pode mesmo ter mudado. Mas não do jeito que muitos vereadores gostariam... 

A volta por cima necessária

Agora, após muitos anos de experiência como gestora na iniciativa privada, presidente da Findes e referência no movimento empresarial capixaba, Cris tem a primeira oportunidade de se provar como gestora pública. Carece da experiência política que só pode ser adquirida com a prática. Mas empresários e políticos capixabas não se cansam de celebrar suas qualidades provadas na Findes, como a capacidade de liderança.


O primeiro passo, sine qua non, para o sucesso de todo governo, é não perder o controle do Parlamento. De Collor a Dilma, a antologia política brasileira prova a veracidade dessa lição, haja vista o destino de todos que a subestimaram...


Mas o sucesso de Cris em recompor uma base parlamentar não passa somente por ela. Também dependerá diretamente do desfecho da iminente eleição estadual.


Se Pazolini chegar ao governo, certamente a missão de sua sucessora em Vitória tende a ser facilitada. Por atração natural do poder e pensando nas próprias reeleições (em 2028), muitos dos que tiverem migrado para o polo de Ricardo poderão rapidamente se realinhar a Pazolini e Cris.


Por outro lado, se Ricardo se mantiver no cargo, os próximos dois anos de mandato de Cris, candidata natural à reeleição em 2028, podem ser ainda mais complicados nesse relacionamento com a Câmara.


Uma raposa política do plenário condensa o raciocínio:


“O movimento da Câmara é político. O da prefeitura também. Tudo isso envolto na teia dessa eleição que vai acontecer daqui a pouco. É um cenário de permanente ebulição que vai explodir em janeiro, dependendo do que vai acontecer nas urnas em outubro. Se Pazolini ganhar, essa relação tende a se pacificar. Se der Ricardo, Cris poderá se preparar para enfrentar uma tempestade política perfeita”. 

Em tempo...

O próprio Pazolini chegou a interpelar opositores em razão de postagens e discursos que ele considerou caluniosos, mas pela via judicial, tendo inclusive obtido vitórias jurídicas contra Karla Coser (PT) e Dárcio Bracarense (PL), para ficarmos em dois exemplos. 

Em tempo 2... 

A prefeita Cris Samorini vinha, sim, trabalhando para recompor sua base. Afora Aylton Dadalto – que virou persona non grata no grupo de Pazolini –, convidou e recebeu, um por um, os vereadores de Vitória, inclusive os de oposição.

Em sua prestação de contas à Câmara, na semana passada, a prefeita foi tratada com cordialidade e respeito até pelos oposicionistas.

Na avaliação de vereadores, o último episódio a faz regredir algumas casas nesse jogo da vida política. 

Em tempo 3... 

Dalto Neves e seu grupo não se deram por satisfeitos. No dia 14 deste mês, com 15 assinaturas, protocolaram projeto que visa fixar no dia 1º de outubro a data da próxima eleição da Mesa Diretora – antes, portanto, do 1º turno da eleição geral, em 4 de outubro. 

Vitor Vogas

Vitor Vogas Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
São Tiago: por que 1º mártir do cristianismo se tornou símbolo de peregrinação
Imagem de destaque
Flávio Bolsonaro está isolado após sucessão de crises na campanha à Presidência?
Urna eletrônica
Uma chance a mais para o cumprimento de um dever

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados