Desde que se filiou, em maio do ano passado, Paulo Hartung virou
metonímia do Partido Social Democrático (PSD). É aquela figura de linguagem em
que o todo é tomado pela parte. No Espírito Santo, o PSD se tornou “o partido
de Paulo Hartung”. Embora tecnicamente o ex-governador não tenha cargo de
comando, é impossível pensar no partido sem se remeter a ele. Da mesma forma,
no meio político, quando se fala em Hartung, remete-se ao PSD.
Agora, pelas mãos de seu presidente estadual de direito, Renzo
Vasconcelos, “o partido de Paulo Hartung” está flertando com a coligação
eleitoral liderada pelo governador Ricardo Ferraço (MDB), pré-candidato à reeleição,
e pelo ex-governador Renato Casagrande (PSB), pré-candidato ao Senado.
Na última segunda-feira (20), revendo sua posição inicial de apoiar Lorenzo Pazolini (Republicanos), o PSD decidiu abrir conversas com outros pré-candidatos a governador, incluindo Helder Salomão (PT) e Ricardo.
Com Helder, não há chance de acordo. Com Ricardo, sim. Mas, de novo: é “o partido
do Paulo”.
Como isso seria equacionado, considerando-se a inimizade histórica
que separa o ex-governador de Casagrande e, principalmente, do atual inquilino
da Residência Oficial da Praia da Costa? Como conciliar o irreconciliável, tendo
em conta não só essa animosidade que remonta ao “abril sangrento” de 2010 e escoa no recente histórico de alfinetadas de parte a parte?
Na manhã de quarta-feira (22), Renzo reuniu-se a sós com Ricardo Ferraço, na Residência Oficial. Manifestou-lhe o interesse do PSD em entrar na coligação encabeçada pelo governador – mas o partido já quer chegar ocupando espaços
de destaque na chapa, como a segunda candidatura ao Senado (com Sérgio Meneguelli)
e/ou a de vice-governadora (com Lívia Vasconcelos, esposa de Renzo).
Ricardo ficou de avaliar e levar a proposta para discussão no
coletivo de líderes dos partidos que já estão reunidos em seu bloco.
As primeiras dificuldades práticas para viabilização do ingresso
do PSD são justamente as resistências das forças que lá já se encontram e que não
hão de querer perder espaço para o PSD e para um “ferracista de última hora”.
Mas, pragmaticamente, também pode interessar muito a Ricardo atrair “o partido do Paulo” para sua coligação. E aqui é preciso fazer uma
distinção: “o partido do Paulo”. Não o Paulo.
Não duvido inteiramente que o PSD possa mesmo subir nesse
palanque, mas duvido que Hartung iria junto. Quer dizer, Ricardo pode até levar
o PSD para sua coligação, mas nesse caso Hartung passaria longe da campanha.
A esta coluna, Renzo chegou até a dizer ter certeza de que Hartung pode se reconciliar com Ricardo e Casagrande. Mas, com todo o respeito, não há como. São como água é óleo.
Sim, na política o adversário de hoje pode ser seu aliado de
amanhã. Quantas vezes já não vimos isso, não é mesmo? Mas há coisas que nem a
política é capaz de reverter.
Nos bastidores políticos capixabas, é sabido que Hartung entrou neste
processo eleitoral, a uma distância controlada, com o objetivo maior de ajudar
a impor uma derrota nas urnas a Casagrande e, principalmente, a Ricardo,
retirando do poder o grupo político que governa o Estado há oito anos, desde
que ele mesmo encerrou seu último mandato, em 2018.
O próprio Hartung não esconde esse objetivo, depreendido de
algumas de suas declarações em entrevistas recentes e rodadas de conversas com
empresários capixabas.
A trocação
Frequentemente, Hartung tem apontado os riscos inerentes à perpetuação de um mesmo grupo no poder, indicando que esse grupo começa a se sentir o dono da coisa pública e a praticar atos indevidos, lesivos ao erário. Sem citar nomes nem casos concretos, ele já falou em “desvios”. São indiretas que miram Casagrande e seu sucessor no cargo.
Às vésperas de se filiar ao PSD, em maio do ano passado, Hartung
me concedeu uma entrevista (à época, em outro veículo de imprensa). Disse o
seguinte:
“Se tem um ponto forte na
democracia, é a alternância. Você vê um grupo que vai ficando no poder, aquilo
vai virando um condomínio de poder. Você vê que o olhar para aquilo já parece
que é uma coisa pessoal, de propriedade pessoal. Então seria muito bom que esse
movimento de alternância ocorresse no Espírito Santo”.
Para dar só mais um exemplo, em meados de maio deste ano, durante
uma palestra a empresários do Sul do Estado, em corte postado pelo próprio, o
ex-governador afirmou:
“Quando você larga um grupo tempo demais no poder, seja ele
qualquer grupo, aquele grupo começa a se sentir dono do poder. E aí começa a
ter desvios, coisas erradas… independente do grupo político. Tá na hora de dar
uma sacudidela e botar gente que levante a cabeça e olhe o futuro: o que nós
vamos fazer para olhar para a frente, o que nós vamos fazer para manter o
dinamismo da economia do Espírito Santo?”
Enquanto isso, um dos principais aliados remanescentes de Hartung,
o empresário Aridelmo Teixeira, tem feito uma enxurrada de posts com críticas ácidas (para dizer o mínimo) a Ricardo Ferraço e
seu governo. Aridelmo filiou-se ao PSD no ano passado, na esteira de Hartung, a
convite do próprio.
Por sua vez, Casagrande e Ricardo não têm só ouvido calados.
No dia 2 de fevereiro, Casagrande falou aos deputados estaduais, em seu último discurso como governador no plenário da Assembleia Legislativa.
No mesmo dia, em outra
entrevista para mim, Hartung havia explicitado seu apoio a Pazolini, sem titubear: “Se depender de mim, nós vamos eleger o nosso prefeito governador
do Estado, que é a mesma trajetória que eu fiz”. Em 2002, Hartung chegou ao
Palácio Anchieta após ter governado Vitória de 1993 a 1996.
Casagrande, então, mandou um recado da tribuna:
“Ninguém quer um retorno ao passado, em que a gente tinha
autoritarismo e força para manter o controle das instituições. As instituições
hoje têm liberdade de conversar, dialogar, expor os seus problemas, e a gente
junto encontrar um caminho. Esse é o segredo do nosso estado.”
Casagrande chamou a atenção para a postura “arrogante”, “prepotente”
e “violenta” de alguns governantes pelo Brasil e pelo mundo. E desferiu:
“Você pode governar com autoridade sendo humilde e tendo
capacidade de diálogo. Para você ter autoridade, você não precisa ser
arrogante, prepotente e autoritário, achar que o governo é vertical, de cima
para baixo. A gente tem que compreender que este é o momento de ter uma
sociedade que seja horizontal, que o governante tem que estar aberto a dialogar
com todo mundo, porque isso é o que a sociedade deseja hoje.”
Por sua vez, o próprio Ricardo, desde o ano passado, como
vice-governador, e de igual modo desde abril, como governador, tem entoado o
mantra de que o controle das contas públicas não pode ser um fim em si mesmo,
mas aquilo que permite que se façam investimentos sociais.
No dia 23 de março, no auditório do Palácio do Café, ao receber o
anúncio de apoio da Federação União Progressista (UP), o filho de Theodorico Ferraço discursou:
“Vamos continuar cuidando do equilíbrio das contas públicas, mas
tendo nesse equilíbrio uma atividade-meio e não uma atividade-fim, porque a
qualidade de vida, o bem comum, é o maior dos resultados que o governo pode
colocar de pé”.
Já no dia 1º de abril, no grande evento de despedida de Casagrande no Estádio Kleber Andrade, afirmou Ricardo:
“Temos como premissa a responsabilidade fiscal. Mas entendemos que
a responsabilidade fiscal não pode ser fim. Tem que ser meio para que a gente
possa continuar fazendo os investimentos de que o Espírito Santo necessita”.
Essa, segundo Ricardo, seria a diferença do governo dele e de Casagrande. Diferença em relação a quem?
São indiretas nitidamente endereçadas a Hartung, cujo último
governo (2015-2018) foi criticado por adversários como excessivamente “fiscalista”,
autor de muitos cortes de despesas e de poucos investimentos.
Os ataques de parte a parte nunca cessaram. Mesmo à distância, os
dois lados nunca deixaram de trocar jabs.
O discurso de “reoxigenação”
Além disso, nas já citadas entrevistas ao colunista, Hartung enalteceu Pazolini por seu trabalho como gestor em Vitória (de janeiro de 2021 a abril deste ano) e por já ter se provado bom de urna.
Vibrantemente, defendeu a
necessidade de se renovar e se oxigenar o Governo do Estado, renovação essa que
seria melhor representada pelo agora ex-prefeito da Capital.
Hartung disse até enxergar algumas semelhanças entre seu estilo e
o de Pazolini.
Agora me digam vocês: como é que alguém que já declarou apoio a Pazolini e reiteradamente defende a renovação no Palácio Anchieta poderia de repente embarcar, com seu partido, na campanha de Ricardo Ferraço?
Seria uma
incoerência maiúscula com relação ao próprio discurso, não só por ser Ricardo o
atual incumbente, mas também porque ambos têm quase a mesma idade e o mesmo
tempo de carreira política.
Hoje com 69 anos, Hartung elegeu-se em 1982 para seu primeiro
mandato, como deputado estadual. No mesmo ano, Ricardo, hoje com 62 anos, iniciou
seu primeiro mandato, na Câmara Municipal de Cachoeiro de Itapemirim.
Somando todos os cargos eletivos, Hartung exerceu oito mandatos
até hoje. Ricardo, sete.
O "abril sangrento" em 2010
Ricardo e Hartung foram bons aliados até 2010. A eleição daquele ano foi marcada pela traumática substituição de Ricardo por Casagrande no posto de candidato apoiado por Hartung.
Casagrande era então senador e vinha crescendo nas pesquisas para
o governo. Ricardo, então vice de Hartung, era o candidato oficial do
governador e vinha trabalhando há anos para sucedê-lo. Em abril de 2010, a poucos meses do período eleitoral, Hartung realizou a troca e declarou apoio a
Casagrande, que seria eleito com uma mão nas costas.
“Sangrei pelo fogo amigo”, desabafou Ricardo, perante uma plateia
de empresários, poucas semanas após ter sido preterido. Restou-lhe ser
candidato ao Senado. Venceu e até hoje é o candidato a qualquer cargo eletivo
com o recorde de votos no Espírito Santo.
Casagrande ainda se manteve como aliado de Hartung até 2014.
Naquele ano, os dois romperam, e Hartung decidiu desafiar seu sucessor nas
urnas. Derrotou Casagrande em 1º turno e voltou ao Palácio Anchieta. Os dois jamais
se reconciliaram.
Não haverá de ser agora, com tanta coisa em jogo...
Em conclusão...
É por essas e outras que soa tão inverossímil, hoje, um acordo do PSD com Ricardo e a presença do “partido de Hartung” no palanque governista.
A
não ser que vá o partido de Hartung, com seu tempo de TV, o apoio de Renzo,
Meneguelli, Lívia Vasconcelos... mas ele, Paulo Hartung, mantenha-se distante
da campanha.
Bem entendido: distante por completo, pois não faria o menor
sentido ele fazer campanha em prol de Pazolini enquanto seu próprio partido estiver
com outro candidato.
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