Em julho de 2018, o então governador Paulo Hartung
surpreendeu meio mundo: sem combinar nem mesmo com aliados, decidiu não se
candidatar à reeleição. Não apoiou ninguém à sucessão e não participou daquela
eleição estadual, assistindo ao retorno de seu adversário, Renato Casagrande
(PSB), ao Palácio Anchieta.
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Antes do fim do seu governo, Hartung se desfiliou do MDB.
Republicanamente, passou a faixa para Casagrande, foi se dedicar a atividades
no mundo corporativo e saiu de cena da política capixaba por um bom tempo. Em
2022, ele manteve distância da eleição para governador, novamente vencida por
Casagrande – embora aliados dele tenham disputado, como Guerino Zanon (PSD) e
Aridelmo Teixeira (Novo).
Hartung, para muitos, havia “desencarnado” da política
local, mantendo seu foco inteiramente direcionado ao cenário nacional. Mas eis
que, em maio de 2025, após mais de seis anos, o ex-governador volta a se filiar
a um partido. Escolhe o PSD de Gilberto Kassab, definido por ele como uma
“coruja política”, e volta a ficar apto para disputar qualquer cargo eletivo.
Pouco antes da filiação, Hartung começa a fazer algo
diferente: opinar sobre a sucessão no Palácio Anchieta. Em entrevistas dadas
por ocasião de sua entrada no PSD, começa a defender a alternância no poder e a
renovação política, representada “por um desses jovens talentosos que estão
aí”, nas palavras dele, destacando, então, os prefeitos Arnaldinho Borgo e
Lorenzo Pazolini.
Em 22 de maio de 2025, ao ser questionado por mim se
pretendia voltar a disputar um mandato em 2026, Hartung me respondeu assim: “A princípio, não
pretendo”.
Por outro lado, no bom e velho estilo hartunguesco – oblíquo e
enigmático –, ele não excluiu a hipótese: “Não descarto nem encarto (risos).
Não vou dizer que dessa água não beberei. Ninguém pode falar isso. O jogo é
jogado, lambari é pescado”, despistou.
Passaram-se os meses e, em fevereiro deste ano, em outra conversa
comigo, Hartung foi direto e enfático em seu apoio a Pazolini:
“Se depender de mim, nós vamos eleger
o nosso prefeito governador do Estado, que é a mesma trajetória que eu fiz.
[...] Eu acho que
o Pazolini é um nome indiscutível, preparado, está fazendo uma bela
administração, um bom time, montou uma boa equipe, montou um bom planejamento,
está entregando na cidade e, além disso, não tem mácula nessa administração”.
Nos últimos
meses, entre abril e junho, Hartung passou a circular mais pelo Espírito Santo,
em palestras e rodas de conversa com empresários, por exemplo. Sempre
defendendo a renovação no Palácio Anchieta.
Segundo
interlocutores dele, ouvidos por mim nesse período, Hartung, pela primeira vez
em muito tempo, mostrava-se animado a voltar a pleitear um mandato no Espírito
Santo – ao Senado, no caso, pelo PSD.
Em pesquisas recentes, como a Quaest/Rede Gazeta divulgada no último dia 16, Hartung provou ter
seu recall político preservado. Nos
cenários em que seu nome foi incluído como possível candidato a governador,
ficou tecnicamente empatado na liderança com Pazolini e o atual governador,
Ricardo Ferraço (adversário dele).
Nos cenários estimulados para a corrida ao Senado em que o nome de Hartung foi incluído, ele desponta em 2º lugar, somente
atrás de Casagrande.
Justiça
seja feita a Paulo Hartung: ele jamais chegou a declarar que tenciona disputar
uma vaga ao Senado. Havia (ou ainda há), segundo aliados, disposição para
voltar a encarar as urnas, sem obsessão, se houvesse uma oportunidade, uma
composição favorável para isso.
Mas hoje a conjuntura estadual ficou muito difícil para a viabilização de eventual candidatura de
Hartung ao Senado.
Na atual configuração do jogo, o ex-governador acabou
espremido entre os dois maiores palanques: no de Ricardo, ele é persona non grata; no de Pazolini, o
agora principal aliado do candidato, o PL, não o deseja, enquanto o próprio ex-prefeito
de Vitória, literalmente, jamais o abraçou.
O PSD estava fechado com o Republicanos de Pazolini. Renzo
Vasconcelos, presidente estadual do partido de Hartung, chegou a declarar apoio
ao ex-prefeito de Vitória. Mas, no último sábado (18), o Republicanos fechou
aliança com o PL e, cumprindo um protocolo exigido por Magno Malta, Pazolini
declarou apoio a Flávio Bolsonaro para a Presidência e a Maguinha Malta para o
Senado, como sua primeira candidata.
Com a chegada do PL à coligação de Pazolini, o PSD de
Hartung ficou diminuído. Magno chegou à aliança dando um “chega pra lá” nas
pretensões do PSD: nada de Meneguelli ao Senado, muito menos Hartung...
Pazolini precisou fazer uma escolha, e está muito claro para
todos que escolheu priorizar o PL – parceria que, não obstante os riscos, tem
mais a lhe oferecer. O PSD ficou em segundo plano.
Por isso, em movimento coordenado com Hartung e Gilberto
Kassab, na última segunda-feira (20), Renzo declarou que o PSD vai conversar com
outros pré-candidatos a governador (ele já conversou com Ricardo) e que tem
tamanho até para lançar uma chapa majoritária pura no Espírito Santo, com
Hartung ao governo e Meneguelli ao Senado.
Resumindo a situação
Hartung abraçou Pazolini, que abraçou Magno e Maguinha, que
não querem abraçar Hartung, que também não pretende abraçá-los.
Aliás, Hartung abraçou Pazolini, mas não quer abraçar Magno e
Maguinha; pai e filha abraçaram Pazolini, mas não querem abraçar Hartung.
No esforço de agregar o máximo de forças ao seu redor, da
centro-direita à extrema-direita, Pazolini ficou entre os anseios do PL e os do
PSD... e priorizou o primeiro.
Assim sendo, se o PSD for mesmo absorvido pela coligação de
Ricardo, Renzo pode resolver sua vida, mas Hartung não será candidato a nada –
e tende a passar longe desse palanque governista, já que ele e Ricardo são
notórios inimigos.
Já se o PSD voltar atrás e continuar na frente partidária de
Pazolini, dificilmente Hartung ocupará a segunda vaga de candidato ao Senado,
numa coligação que já tem Maguinha Malta (leia-se Magno) como a primeira
escolhida por Pazolini, com declaração de apoio e tudo, até porque a rejeição é
mútua.
Seria um constrangimento sem precedentes na história de
alguém muito cioso de sua biografia e de seu legado político.
Além disso, agora Pazolini (o candidato de Hartung) também é
o candidato de Flávio Bolsonaro (PL), apoiado pelo filho de Jair Bolsonaro
(PL). Como governador, não foram poucas as críticas e ressalvas feitas por
Hartung em relação às posições extremistas do pai de Flávio, então candidato à
Presidência, em 2018.
Com o tabuleiro arrumado como está, apesar de pontuar bem
nas pesquisas, Hartung não será candidato a nada. Com o tabuleiro arrumado como
está.
A relação entre
Hartung e Pazolini
Desde 2024, Hartung tem feito vários gestos amigáveis a
Pazolini. Na noite em que este se consagrou como prefeito reeleito de Vitória,
o ex-governador postou no Instagram que nascia ali um novo líder político no
Espírito Santo.
Em fevereiro deste ano, Hartung me disse que mantém um bom diálogo há
muito tempo com o jovem prefeito. “Não tem cabimento a gente não dialogar…” Mais
que isso: disse tê-lo apoiado em suas duas eleições à Prefeitura de Vitória –
tendo exercido, segundo ele, um papel decisivo em favor de Pazolini no 2º turno
contra João Coser (PT) em 2020.
“Ele foi para o 2º turno. E precisou muito da minha ajuda e da minha
liderança”, contou. “Fui eu que fiz a ponte com toda a imprensa nacional, que
veio com aquele negócio de que ele era bolsonarista e não sei o quê…”
Mas Pazolini nunca confirmou isso. Nunca “assumiu” publicamente
Hartung e jamais fez um gesto público em direção ao ex-governador. Não existe
foto dos dois juntos. Questionado por mim em fevereiro sobre esse detalhe,
Hartung respondeu que os dois serão vistos juntos em janeiro do ano que vem, na
posse de Pazolini, no Palácio Anchieta, ou antes, na diplomação do governador
eleito, no TRE-ES.
Em fevereiro, Hartung também aludiu ao estilo de Pazolini (marcado por
extrema discrição em suas articulações eleitorais). Estilo, aliás, que guarda
semelhanças com o dele próprio, na opinião do ex-governador: “O Pazolini tem o
estilo dele de fazer política. Aliás, muito parecido comigo até eu chegar à
Prefeitura de Vitória. É o estilo dele. É bacana isso”.
Chapa
puro sangue do PSD?
O lançamento de uma chapa pura do PSD, como Renzo Vasconcelos disse
aventar, soa como um projeto kamikaze. Grande nacionalmente, a sigla é pequena no
Estado.
Em 2024, o partido de Kassab foi o que mais elegeu prefeitos no país
inteiro. Mas, no Espírito Santo, além de Renzo, só elegeu dois (em cidades
pequenas).
O partido não tem um só deputado estadual. Tem pouquíssimos
vereadores. Hartung já nem tão aliados espalhados pelo Espírito Santo para sustentar
uma candidatura majoritária.
Dos aliados históricos dele, muitos hoje estão do lado de Ricardo, como
Lelo Coimbra e César Colnago.
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