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Vitor Vogas

A delicada situação de Paulo Hartung no tabuleiro eleitoral capixaba

Ex-governador ficou imprensado entre os dois maiores palanques: no de Ricardo, ele é persona non grata; no de Pazolini, o agora principal aliado do candidato, o PL, não o deseja, enquanto o próprio ex-prefeito de Vitória, literalmente, jamais o abraçou

Publicado em 24 de Julho de 2026 às 08:20

Públicado em 

24 jul 2026 às 08:20
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas
Paulo Hartung

Em julho de 2018, o então governador Paulo Hartung surpreendeu meio mundo: sem combinar nem mesmo com aliados, decidiu não se candidatar à reeleição. Não apoiou ninguém à sucessão e não participou daquela eleição estadual, assistindo ao retorno de seu adversário, Renato Casagrande (PSB), ao Palácio Anchieta.

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Antes do fim do seu governo, Hartung se desfiliou do MDB. Republicanamente, passou a faixa para Casagrande, foi se dedicar a atividades no mundo corporativo e saiu de cena da política capixaba por um bom tempo. Em 2022, ele manteve distância da eleição para governador, novamente vencida por Casagrande – embora aliados dele tenham disputado, como Guerino Zanon (PSD) e Aridelmo Teixeira (Novo).


Hartung, para muitos, havia “desencarnado” da política local, mantendo seu foco inteiramente direcionado ao cenário nacional. Mas eis que, em maio de 2025, após mais de seis anos, o ex-governador volta a se filiar a um partido. Escolhe o PSD de Gilberto Kassab, definido por ele como uma “coruja política”, e volta a ficar apto para disputar qualquer cargo eletivo.


Pouco antes da filiação, Hartung começa a fazer algo diferente: opinar sobre a sucessão no Palácio Anchieta. Em entrevistas dadas por ocasião de sua entrada no PSD, começa a defender a alternância no poder e a renovação política, representada “por um desses jovens talentosos que estão aí”, nas palavras dele, destacando, então, os prefeitos Arnaldinho Borgo e Lorenzo Pazolini.


Em 22 de maio de 2025, ao ser questionado por mim se pretendia voltar a disputar um mandato em 2026, Hartung me respondeu assim: “A princípio, não pretendo”.


Por outro lado, no bom e velho estilo hartunguesco – oblíquo e enigmático –, ele não excluiu a hipótese: “Não descarto nem encarto (risos). Não vou dizer que dessa água não beberei. Ninguém pode falar isso. O jogo é jogado, lambari é pescado”, despistou.


Passaram-se os meses e, em fevereiro deste ano, em outra conversa comigo, Hartung foi direto e enfático em seu apoio a Pazolini:


“Se depender de mim, nós vamos eleger o nosso prefeito governador do Estado, que é a mesma trajetória que eu fiz. [...] Eu acho que o Pazolini é um nome indiscutível, preparado, está fazendo uma bela administração, um bom time, montou uma boa equipe, montou um bom planejamento, está entregando na cidade e, além disso, não tem mácula nessa administração”.


Nos últimos meses, entre abril e junho, Hartung passou a circular mais pelo Espírito Santo, em palestras e rodas de conversa com empresários, por exemplo. Sempre defendendo a renovação no Palácio Anchieta.


Segundo interlocutores dele, ouvidos por mim nesse período, Hartung, pela primeira vez em muito tempo, mostrava-se animado a voltar a pleitear um mandato no Espírito Santo – ao Senado, no caso, pelo PSD.


Em pesquisas recentes, como a Quaest/Rede Gazeta divulgada no último dia 16, Hartung provou ter seu recall político preservado. Nos cenários em que seu nome foi incluído como possível candidato a governador, ficou tecnicamente empatado na liderança com Pazolini e o atual governador, Ricardo Ferraço (adversário dele).

Nos cenários estimulados para a corrida ao Senado em que o nome de Hartung foi incluído, ele desponta em 2º lugar, somente atrás de Casagrande. 


Justiça seja feita a Paulo Hartung: ele jamais chegou a declarar que tenciona disputar uma vaga ao Senado. Havia (ou ainda há), segundo aliados, disposição para voltar a encarar as urnas, sem obsessão, se houvesse uma oportunidade, uma composição favorável para isso.


Mas hoje a conjuntura estadual ficou muito difícil para a viabilização de eventual candidatura de Hartung ao Senado.


Na atual configuração do jogo, o ex-governador acabou espremido entre os dois maiores palanques: no de Ricardo, ele é persona non grata; no de Pazolini, o agora principal aliado do candidato, o PL, não o deseja, enquanto o próprio ex-prefeito de Vitória, literalmente, jamais o abraçou. 


O PSD estava fechado com o Republicanos de Pazolini. Renzo Vasconcelos, presidente estadual do partido de Hartung, chegou a declarar apoio ao ex-prefeito de Vitória. Mas, no último sábado (18), o Republicanos fechou aliança com o PL e, cumprindo um protocolo exigido por Magno Malta, Pazolini declarou apoio a Flávio Bolsonaro para a Presidência e a Maguinha Malta para o Senado, como sua primeira candidata.


Com a chegada do PL à coligação de Pazolini, o PSD de Hartung ficou diminuído. Magno chegou à aliança dando um “chega pra lá” nas pretensões do PSD: nada de Meneguelli ao Senado, muito menos Hartung...


Pazolini precisou fazer uma escolha, e está muito claro para todos que escolheu priorizar o PL – parceria que, não obstante os riscos, tem mais a lhe oferecer. O PSD ficou em segundo plano.


Por isso, em movimento coordenado com Hartung e Gilberto Kassab, na última segunda-feira (20), Renzo declarou que o PSD vai conversar com outros pré-candidatos a governador (ele já conversou com Ricardo) e que tem tamanho até para lançar uma chapa majoritária pura no Espírito Santo, com Hartung ao governo e Meneguelli ao Senado. 

Resumindo a situação

Hartung abraçou Pazolini, que abraçou Magno e Maguinha, que não querem abraçar Hartung, que também não pretende abraçá-los.


Aliás, Hartung abraçou Pazolini, mas não quer abraçar Magno e Maguinha; pai e filha abraçaram Pazolini, mas não querem abraçar Hartung.


No esforço de agregar o máximo de forças ao seu redor, da centro-direita à extrema-direita, Pazolini ficou entre os anseios do PL e os do PSD... e priorizou o primeiro.


Assim sendo, se o PSD for mesmo absorvido pela coligação de Ricardo, Renzo pode resolver sua vida, mas Hartung não será candidato a nada – e tende a passar longe desse palanque governista, já que ele e Ricardo são notórios inimigos.


Já se o PSD voltar atrás e continuar na frente partidária de Pazolini, dificilmente Hartung ocupará a segunda vaga de candidato ao Senado, numa coligação que já tem Maguinha Malta (leia-se Magno) como a primeira escolhida por Pazolini, com declaração de apoio e tudo, até porque a rejeição é mútua.


Seria um constrangimento sem precedentes na história de alguém muito cioso de sua biografia e de seu legado político.


Além disso, agora Pazolini (o candidato de Hartung) também é o candidato de Flávio Bolsonaro (PL), apoiado pelo filho de Jair Bolsonaro (PL). Como governador, não foram poucas as críticas e ressalvas feitas por Hartung em relação às posições extremistas do pai de Flávio, então candidato à Presidência, em 2018.


Com o tabuleiro arrumado como está, apesar de pontuar bem nas pesquisas, Hartung não será candidato a nada. Com o tabuleiro arrumado como está. 

A relação entre Hartung e Pazolini 

Desde 2024, Hartung tem feito vários gestos amigáveis a Pazolini. Na noite em que este se consagrou como prefeito reeleito de Vitória, o ex-governador postou no Instagram que nascia ali um novo líder político no Espírito Santo.


Em fevereiro deste ano, Hartung me disse que mantém um bom diálogo há muito tempo com o jovem prefeito. “Não tem cabimento a gente não dialogar…” Mais que isso: disse tê-lo apoiado em suas duas eleições à Prefeitura de Vitória – tendo exercido, segundo ele, um papel decisivo em favor de Pazolini no 2º turno contra João Coser (PT) em 2020.

 

“Ele foi para o 2º turno. E precisou muito da minha ajuda e da minha liderança”, contou. “Fui eu que fiz a ponte com toda a imprensa nacional, que veio com aquele negócio de que ele era bolsonarista e não sei o quê…”

 

Mas Pazolini nunca confirmou isso. Nunca “assumiu” publicamente Hartung e jamais fez um gesto público em direção ao ex-governador. Não existe foto dos dois juntos. Questionado por mim em fevereiro sobre esse detalhe, Hartung respondeu que os dois serão vistos juntos em janeiro do ano que vem, na posse de Pazolini, no Palácio Anchieta, ou antes, na diplomação do governador eleito, no TRE-ES.

 

Em fevereiro, Hartung também aludiu ao estilo de Pazolini (marcado por extrema discrição em suas articulações eleitorais). Estilo, aliás, que guarda semelhanças com o dele próprio, na opinião do ex-governador: “O Pazolini tem o estilo dele de fazer política. Aliás, muito parecido comigo até eu chegar à Prefeitura de Vitória. É o estilo dele. É bacana isso”.

 

Chapa puro sangue do PSD?

O lançamento de uma chapa pura do PSD, como Renzo Vasconcelos disse aventar, soa como um projeto kamikaze. Grande nacionalmente, a sigla é pequena no Estado.

 

Em 2024, o partido de Kassab foi o que mais elegeu prefeitos no país inteiro. Mas, no Espírito Santo, além de Renzo, só elegeu dois (em cidades pequenas).

 

O partido não tem um só deputado estadual. Tem pouquíssimos vereadores. Hartung já nem tão aliados espalhados pelo Espírito Santo para sustentar uma candidatura majoritária.

 

Dos aliados históricos dele, muitos hoje estão do lado de Ricardo, como Lelo Coimbra e César Colnago. 

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Vitor Vogas

Vitor Vogas Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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